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Janez Potocnick: Há que mudar as prioridades e pôr o conhecimento em primeiro

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Janez Potocnick: Há que mudar as prioridades e pôr o conhecimento em primeiro

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O novo comissário para a Ciência e a Investigação, o esloveno Janez Potocnik, analisa as falhas e as necessidades do sector. Numa entrevista exclusiva a Hans Van Der Brelie, jornalista da EuroNews, Potocnik aborda a necessidade de investir na sociedade do conhecimento, para evitar a fuga de cérebros e fazer com que a Europa não perca o comboio científico a favor dos Estados Unidos ou do Japão. Este é o diagnóstico feito pelo ex-primeiro-ministro holandês, Wim Kok, no relatório encomendado pelo Conselho Europeu e com o qual Potocnik concorda.

EuroNews – Os cientistas dizem que o seu trabalho é um dos mais perigosos da Europa, porque no seu escritório está escondido um monstro enorme, chamado burocracia… Janez Potocnik – Pois, é verdade. Mas, por outro lado, é um enorme desafio para a investigação e o conhecimento. Se nos focarmos na mensagem saída do relatório de Wim Kok ela é muito clara: temos de mudar as prioridades, colocar o conhecimento numa das primeiras posições – e temos de fazer isso rapidamente. Penso que é muito importante que nos foquemos nisso. Mas é óbvio que o monstro,que referia, anda escondido por aí. Nem sempre é fácil lidar com ele, mas vamos fazer o nosso melhor. EN – Os investigadores queixam-se de que é muito dificil conseguir financiamento e que se perde muito tempo a preencher papéis… J.P. – Sim, essa é uma das principais preocupações. Quando falamos do que estamos a fazer agora – porque já temos um plano de acção -, a minha proposta é criar uma espécie de grupo constituido por pequenas e médias empresas, pequenos e médios grupos de investigação, que possam dar um parecer sobre as propostas de simplificação. E vamos, já nesta fase de preparação, tentar avançar com isso o melhor possível. EN – Bem, era uma vez… Os chefes de Estado e de governo reuniram-se em Lisboa, em 2000, e decidiram que se queremos apanhar o Japão, se queremos apanhar os Estados Unidos, então temos de investir em força na investigação e no desenvolvimento. Mas os números, hoje, mostram que ainda não é esse o caso. Porquê? J.P. – Porque não estamos a focar-nos nas acções da forma que devíamos. Regressando a Lisboa, é importante perceber a mensagem: de um lado, temos o crescimento, a competitividade, o emprego, do outro temos o desenvolvimento sustentável, isto é os aspectos sociais e ambientais. Na União Europeia não é possível imaginar que não se lide com algo tão importante como as questões da sustentabilidade. Faz parte da nossa vida. Portanto, se quisermos alcançar as duas ao mesmo tempo, o que não é contraditório, a única coisa que as liga – e esta foi a mensagem de Lisboa – é o conhecimento. É por isso que se diz ‘baseado no conhecimento’; é por isso que defendo que devemos aumentar o investimento no conhecimento, porque o conhecimento é a única coisa que, no longo prazo, nos vai permitir lidar com os problemas que mencionou. EN – Alguns Estados membros não querem dar mais dinheiro, outros dizem que é preciso investir bastante na pesquisa. Como se lida com este conflito? J.P. – Isso faz parte do debate, ao nível da União Europeia, quando se discute o orçamento comunitário. E espero que a proposta da Comissão prevaleça. Ela prevê, praticamente, duplicar os fundos no próximo quadro financeiro com o único objectivo de que, depois, nós o apliquemos de uma forma orientada para o crescimento e o emprego. E quando falamos do dinheiro para a investigação e desenvolvimento, devemos também ter em consideração que, nas nossas estimativas, prevemos que dois terços desse dinheiro venha do sector privado. O que significa que temos de criar condições para que se faça investigação na Europa, para que os cientistas que estão no exterior regressem e para que as empresas que aqui estão cá fiquem (algumas estão eventualmente a pensar partir). Isto são pontos pontos fundamentais. EN – Actualmente assiste-se a uma fuga de cérebros. Muitos investigadores de topo estão a deixar a União Europeia e a instalar-se nos Estados Unidos. Como se pode parar esta fuga de cérebros ou, pelo menos, transformá-la numa circulação de cérebros? J.P. – Concordo que é um problema. Mas não sou contra a mobilidade. Penso que é extremamente importante que as pessoas trabalhem, que mudem, que troquem conhecimentos. Mas, por outro lado, temos esse problema que referiu. Temos de pensar nos cientistas que estão na Europa e devemos tentar que continuem na Europa. Mas também queremos atrair profissionais externos à Europa, vindos, por exemplos, de países em desenvolvimento. Criar uma espécie de ‘visto científico’ seria um passo muito importante. E tornar as coisas simples, mais atractivas. EN – Enquanto comissário, tem de estabelecer prioridades, mas também tem de desenvolver acções de curto prazo antes de avançar para uma abordagem de longo prazo. Como é que isso se faz? J.P. – Antes de mais, é preciso uma colaboração nas pesquisas, o que já acontece, e um maior enfoque nas ciências fundamentais. Há uma proposta sobre a criação de um ‘Conselho Europeu de Investigação’. É também preciso apostar nas infra-estruturas. Gostaríamos de encorajar as acções de mobilidade, de que já falei, e que foram e continuam a ser bem sucedidas. Este é o debate. EN – As políticas científicas são, actualmente, um tema quente. Exemplifiquemos: células estaminais – um dos temas mais quentes de todos, porque mexe com a religião. É contra ou a favor da pesquisa em células estaminais? Deve ser autorizada em toda a Europa ou não? Boa ou má? Sim ou não? J.P. – Não é assim tão linear. Há vários tipos de investigação em células estaminais. Investigação que pode ser feita em células estaminais de adultos – e ninguém é contra. Mas há culturas de células estaminais embrionárias – e aí, obviamente, há questões éticas. Portanto, a resposta não é fácil. Temos de pensar nas questões éticas mas, em princípio, também devíamos ter em vista o que podemos obter e quais as promessas deste tipo de investigação.