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Hiroshima: 60 anos desde o dia em que o sol ficou negro

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Hiroshima: 60 anos desde o dia em que o sol ficou negro

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6 de Agosto de 1945. A guerra acabou em todo lado, salvo aqui. O Japão recusa render-se aos americanos. Às 8:45 da manhã, sem aviso, em plena hora de ponta, o bombardeiro Enola Gay lança a primeira bomba atómica da história em Hiroshima, então cidade de guarnição com 150 mil soldados para 343 mil habitantes e porto militar. A bomba explode a cerca de 600 metros de altitude e arrasa imediatamente o centro da cidade. Hitoshi Takayama está na escola, nessa altura. Tinha 5 anos.

Conta que viu pessoas praticamente nuas e negras, assim como cinzas por todo o lado. Tinham a pele como um trapo, pendurada. E as mãos descarnadas até às unhas. Tinham a parte de cima dos braços colada ao torso e assim ficavam, imóveis, em silêncio. Quando viu essas pessoas pela primeira vez, teve muita pena mas achou que as suas figuras eram grotescas, não humanas. 70 mil pessoas morreram naquele momento. E outras 70 mil morreram nos meses seguintes, num sofrimento atroz por causa das radiações e das queimaduras profundas que não cicatrizavam. Metade da cidade foi dizimada. Sunao Tuboi é outro “hibakusha”, um sobrevivente que sofreu radiações e uma certa discriminação por causa disso. A 6 de Agosto de 1945, caminha sobre a ponte Myuki para ir para as aulas. Lembra-se de tudo. Diz que toda a gente, crianças e adultos, se atirou ao delta do rio Ota. Muitas pessoas feridas saltavam para a água, com o corpo inteiro a arder, gritando. Mesmo os que não sabiam nadar. Os rios ficaram cheios de cadáveres. Sunao, que se mostra numa fotografia da altura, é um dos sobreviventes da radiação. Conta que se sentou no chão e escreveu com um bocado de pedra. Não podia escrever muito bem porque a pele dos braços caía às tiras e não tinha forças. Considera que esteve na fronteira entre a vida e a morte. Estava seguro de que ia morrer. Via-o com tristeza, porque é triste morrer aos 20 anos de idade. O que se passou em Hiroshima e Nagasaqui não pesa apenas na memória dos sobreviventes, mas de todos os japoneses, marcando várias gerações em relação às questões relacionadas com o espírito belicista do passado. Quanto aos efeitos das radiações: houve inúmeras crianças que nasceram com alterações genéticas e muitos casos de leucemia, só para citar alguns exemplos. Em 1950, as estatísticas indicavam que, no Japão, havia 280 mil pessoas contaminadas pela radiação das bombas de Hiroshima e Nagasaqui.