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Lech Walesa: "Orgulho-me de ter convertido os comunistas à minha fé"

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Lech Walesa: "Orgulho-me de ter convertido os comunistas à minha fé"

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Nas bodas de prata do Solidariedade, a EuroNews entrevistou o líder histórico do primeiro sindicato livre do mundo comunista. Prémio Nobel da Paz em 1983, Lech Walesa apresenta-nos a sua visão do mundo. É a visão de um sindicalista polaco católico para quem as noções de esquerda e de direita nem sempre coincidem com as do Ocidente.

EuroNews – Vinte e cinco anos depois, como pensa que os valores do Solidariedade podem lidar com um mundo globalizado? Lech Walesa – Ele ainda não está globalizado. No entanto, a possibilidade de globalização tornou-se maior após a queda do sistema comunista. Todos os processos se aceleraram. Se o comunismo não tivesse caído, a Alemanha não estaria reunificada e haveria barreiras impossíveis de ultrapassar. EN – O que pensa da nova Rússia? Parece estar a ter cada vez mais problemas com a democracia e cada vez mais problemas – não diria conflitos, mas pelo menos tensões – com o mundo ocidental. L. W. – Não se trata de um conflito. No entanto, é preciso compreender a Rússia. A Rússia foi uma superpotência. Os problemas com as reformas são proporcionais à dimensão do país. Quanto maior o país, maiores os problemas. A Rússia tem os maiores problemas possíveis, problemas terríveis, e é por isso que tenta exportar as suas frustrações para qualquer lado. EN – Muitos antigos países comunistas, mesmo depois da adesão à União Europeia, não parecem partilhar a visão do modelo social da Europa. Como pensa que a União pode lidar com estes contrastes dentro da família? L. W. – Todas as estruturas e programas que temos actualmente não são compatíveis com o tempo em que vivemos. Não são compatíveis com a globalização, com a – chamemos-lhe – continentalização, com a União, com a segurança em geral… É por isso que há uma grande discussão: uns propõem soluções de esquerda; outros, obviamente, propõem soluções mais à direita. O exemplo, para mim, é a Constituição Europeia, que é sobretudo de esquerda, que fala apenas de liberdades: da liberdade do indivíduo, da liberdade de se organizar, da liberdade económica (não há nenhuma subvenção)… O mercado livre é o mais importante e a referência a Deus continua um assunto privado. EN – Há mesmo uma diferença de percepção, entre os novos membros da União e os antigos, sobre o papel dos Estados Unidos da América. Como lidaria com esta diferença de opinião? L. W. – No que toca a certos assuntos, os Estados Unidos mereceram-no. São um pouco orgulhosos, arrogantes, podem suscitar este tipo de reacções mas, simultaneamente, não há dúvida de que são eles que dominam o mundo, economicamente; não há dúvida de que têm a supremacia militar. E isso provoca certas dúvidas e descontentamentos. A rivalidade saudável é útil, é uma fonte de progresso e permite viver melhor e mais intensamente. Claro que a realidade que leva a vencer ou a eliminar alguém não é saudável e não deveria acontecer no século XXI. Estamos numa nova época e devemos aprender a nova rivalidade, a rivalidade construtiva e não aquela que destrói. Esse é um dos objectivo da globalização. EN – O que pensa de alguns ex-comunistas que, em toda a Europa e na Polónia em especial, estão a tentar usar a experiência do Solidariedade para impulsionarem as suas próprias campanhas eleitorais? L. W. – Sabe? Enquanto professor e revolucionário, orgulho-me de ter conseguido convencer os comunistas, de os ter convertido à minha fé, que eles tenham seguido os meus programas e a minha direcção. Só posso estar orgulhoso. Se tomassem o poder, fossem activos e quisessem fazer um retorno ao comunismo, estariam perdidos. Mas se dizem que vão continuar a seguir o meu programa, que o farão melhor do que eu e se, além disso, têm diplomas do Ocidente, dos Estados Unidos – eu cá não estudei nos Estados Unidos -, então os seus argumentos são intocáveis. Hoje em dia, o mundo aprendeu a considerar como uma vitória o facto de vencer o adversário e de tomar o seu lugar. Nós obtivemos uma dupla vitória: não só vencemos o adversário como este adversário tomou o nosso partido e os nossos programas e diz que fará melhor do que nós. Portanto, vencemos duas vezes e não apenas uma. Evidentemente, se raciocinarmos em termos de justiça histórica e moral, isto não é aceitável; mas se pensarmos em termos de democracia é correcto. Nós copiámos, observámos, construímos a democracia um pouco à imagem da dos Estados Unidos. Pensemos em [Bill] Clinton: cometeu todos os pecados possíveis e está nos píncaros da popularidade.