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Director do FMI considera correcta a política monetária dos Doze

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Director do FMI considera correcta a política monetária dos Doze

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Rodrigo Rato, espanhol, antigo ministro das Finanças no governo de José Maria Aznar, é desde há alguns meses o director do Fundo Monetário Internacional (FMI), sucedendo ao actual presidente alemão Horst Köhler.

Rato passou por Bruxelas, em visita às instituições europeias, depois de uma cimeira do G20 em Pequim, onde a União foi acusada de proteccionismo. Foi neste contexto que respondeu às perguntas do jornalista Sergio Cantone. EuroNews: Rodrigo Rato, bem-vindo à EuroNews. A inflação está a subir na Zona Euro, tal como nos Estados Unidos. Acha que o Banco Central Europeu pode subir as taxas de juro? Rodrigo Rato: Penso que a Reserva Federal tem que continuar a subir, progressivamente, a taxa de juro, como consequência da situação da economia americana, ao passo que na Europa, penso que a actual política do BCE é adequada. Pelo menos até haver uma clara recuperação económica. A subida na inflação é uma consequência directa da subida dos preços do petróleo. Se não tivemos isso em conta, a pressão inflaccionista não é tão importante como se pensa na Eurozona. Mas tem que ser adequada, em caso de poder haver efeiros secundários. EN: Até porque as previsões de crescimento, tanto para este ano como para o próximo, apontam para 1,5 por cento… RR: Um pouco menos, 1,2 por cento, segundo as nossas previsões. EN: O que tem então a Europa que fazer para acelerar o crescimento? RR: Em alguns países, há uma falta de confiança por parte dos consumidores. O consumo é baixo e o nível de poupança é alto, o que significa que as pessoas perderam alguma confiança na economia. Isso tem a ver com muitos factores, nomeadamente com a capacidade dos líderes políticos enviarem uma mensagem clara sobre as políticas futuras. Mas tem sobretudo a ver com o mercado de trabalho, que não está a inspirar as pessoas, criando um ambiente calmo e aceitável. EN: Mas também é verdade que em países como a Alemanha, onde o governo tentou implementar reformas, o resultado eleitoral acabou por não ser claro. Nem para este, nem para outros governos, que defendem medidas ainda mais radicais… RR: As pessoas não votaram contra. Pode ter havido uma divisão dos votos, mas a maioria dos alemães votou em partidos que defendem as reformas. Não acredito que essa seja a interpretação correcta, acho que os eleitores europeus querem mudanças positivas. EN: Falou do mercado único, mas ouve-se em muitos países uma série de discursos de patriotismo económico e defesa de alguns sectores industriais da Europa. Do ponto de vista do FMI, pensa que essa é uma boa política económica?. RR: Nunca fui partidário de construir à custa dos consumidores. No capitalismo norte-americano do início do século XX, que era um capitalismo muito especial e nacionalista, havia uma frase que dizia “o que é bom para a General Motors é bom para a América”. Nunca estive de acordo. Penso que um dos grandes êxitos da economia americana foi mudar essa mentalidade. Por isso, digo o que penso. EN: Em todo este panorama há um só responsável: os governos europeus, os governos nacionais… RR: Sim, os governos são responsáveis; se alguém está no Governo, tem que aceitar essa responsabilidade, senão não ficaria bem. EN: Há culpados? RR: Parece-me excessivo falar de culpados, há sim resopnsáveis. Os governos têm que cumprir o que prometem, ou seja, fazer mudanças. É preciso que os cidadãos tenham mehores oportunidades. é bom que a Europa tenha um sistema laboral em que as pessoas se possam movimentar e sentir-se confiantes. Se perdem um emprego, que possam encontrar outro. É bom ter um sistema de serviços europeu que permita mais eficiência e uma maior criação de emprego. É bom que na Europa abramos cada vez mais a porta às pessoas e que quem quer trabalhar mais tempo possa fazê-lo, dentro dos limites da legislação europeia, porque não estamos a falar da Europa industrial do século XIX. EN: Em alguns países da Europa há um problema de défice. Nos Estados Unidos o défice é enorme. Isso preocupa o FMI? RR: A Europa tem um problema de défice público, embora isso dependa dos países. Mas a Europa tem um problema igual ou maior que o dos Estados Unidos em termos de envelhecimento da população. Por isso, tem que haver margens. O problema da Europa não é tanto a poupança, mas sim o crescimento. São problemas diferentes: Nos Estados Unidos, a poupança e na Europa, o crescimento. Ambos têm um problema de envelhecimento, mas as consequências são diferentes. Por outro lado, os Estados Unidos têm uma dívida pública que não chega a 30% do PIB, por isso estamos em dimensões diferentes. Sem dúvida, os Estados Unidos têm que ampliar as poupanças e a Europa tem que incrementar o crescimento. É assim que vemos o problema, de uma forma simplificada. EN: O Fundo Monetário Internacional é uma instituição que foi criada nos anos 40. Agora o Mundo está completamente diferente. O senhor pensa que esta organização precisa de uma reforma profunda? Que papel pode ter o FMI? RR: Concordo que houve momentos, como dissémos publicamente, em que as nossas recomendações não puderam ser as melhores, mas o que acontece é que muitíssimas veze as as nossas recomendações não foram ouvidas: quando pedimos para reduzir a dívida pública e ampliar as bases fiscais, quando pedimos para dar mais transparência ao Banco Central, não seguiram a nossa recomendação. Assim, quando um país suspende os pagamentos, ninguém lhes quer dar dinheiro. EN: Mas na crise argentina, por exemplo, o ministro da economia Domingo Cavallo siguiu à letra as recomendações do FMI… RR: Na crise argentina o Fundo fez o que mais ninguém fez, ou seja, explicar como tomamos as decisões e porquê. Aí há resultados, melhores ou piores. Fizemos um exercício de transparência e sinceridade. Não digo que os outros o tenham também que fazer, mas não seria de mais. É difícil acreditar que se possa chegar a uma catástrofe económica desse calibre, só por causa das recomendações de um organismo multilateral. Parece-me difícil de acreditar. De qualquer forma, eu não estava no FMI quando se deu a crise argentina.