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O percurso da nova presidente socialista

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O percurso da nova presidente socialista

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As imagens parecem ser de uma família vulgar, pelos padrões de um país católico onde o divórcio só é possível de há dois anos para cá. Mas não são. Esta mãe solteira, agnóstica, exerce as mais altas funções de Estado no Chile. Uma verdadeira revolução no país. É a segunda mulher a ser eleita na América Latina (a primeira foi a presidente do Panamá) tendo sido a primeira de esquerda.

Nasceu em 1951 em Santiago. O pai era piloto do Exército e esteve colocado em diferentes bases no país, pelo que a infância de Bachelet se fez um pouco por todo o Chile. Em 70 inicia os estudos de Medicina e torna-se militante socialista. Quando o general Pinochet lidera o golpe de Estado para derrubar Allende, a 11 de Setembro de 1973, Michelle Bachelet tem 22 anos e a sua vida muda completamente. O pai, apoiante de Allende, é preso e morre depois de seis meses de tortura na prisão. Michelle continua os estudos e ajuda, em segredo, as famílias dos militantes presos pela Junta. Em 75 é presa, com a mãe, na famosa vivenda Grimaldi, um centro de tortura tristemente célebre. A mãe diz que nunca a viu chorar: “sempre se controlou muito e é muito reservada. Herdou o carisma do pai, o mesmo capital de simpatia, inteligência, capacidade de organização e de liderança.” Depois de libertadas, Michelle e a mãe vivem no exílio: primeiro na Austrália, depois na Alemanha de Leste. Mantém a militância em defesa dos direitos do homem. É mãe pela primeira vez. Quatro anos depois regressa ao Chile, como pediatra mas recusam-lhe um lugar no Sistema de Saúde Público por razões políticas. Pouco a pouco, com o fortalecimento da democracia, na década de 90, constrói a sua carreira política, primeiro como ministra da Saúde, e depois com a pasta da Defesa, em 2002. Todos a respeitam, inclusivé os militares. A Concertação Democrática, aliança dos socialistas e dos democratas-cristãos, que apresentou a candidatura vitoriosa, está no poder desde 1990. O Chile não vacila à esquerda e mantém o rumo que o caracteriza como modelo económico na América Latina. Bachelet simboliza, em termos de poder, a continuidade, mas é também uma esperança em termos de defesa dos direitos da mulher.