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Romano Prodi: "Berlusconi não nos quer deixar governar"

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Romano Prodi: "Berlusconi não nos quer deixar governar"

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Unir o centro-esquerda italiano contra Silvio Berlusconi é o desafio que enfrenta Romano Prodi.
Para isso, o líder da coligação “Oliveira” conta, entre outros trunfos, com uma experiência de cinco anos à frente da Comissão Europeia.

Prodi teve de ultrapassar algumas divergências internas no seio da oposição em Itália. O grande projecto actual é a formação de um partido único do centro-esquerda. Um desafio difícil, já que a coligação conta com várias facções.

A EuroNews falou com ele em Roma, a menos de três meses das eleições legislativas.

Nicola Assetta, EuroNews: Que políticas moderadas vai ser preciso impôr à ala mais radical da coligação e que políticas reformistas vão ser impostas à ala mais liberal, digamos, mais católica?

Romano Prodi: Criámos um programa reformista que é forte, mas que não é excessivo nem intransigente. Pelo contrário, é um programa reformista corajoso. Tinha dito que a Itália está em crise profunda e que é preciso reformá-la profundamente. O que fizemos foi uma boa síntese entre isso que você chama “alma reformista” e “alma radical”.

No que toca à retirada do Iraque, desde o início que estivémos de acordo, apesar de algumas tensões sobre pontos marginais. Por exemplo, se devemos, e como, pôr-nos de acordo com o governo iraquiano sobre essa retirada. Mas o acordo é claro: se ganharmos as eleições, fazemos imediatamente um calendário para a retirada. Isso não significa fugir, não significa uma retirada imediata como fez Zapatero. Significa fazer uma retirada dentro de um tempo estabelecido, com datas certas.

EN: A lei eleitoral aprovada no fim da legislatura pela maioria de centro-direita reintroduziu o sistema proporcional, em substituição do sistema maioritário, que privilegia a fragmentação às coligações. O facto de voltar à cena política italiana acelerou o projecto de um Partido Democrático do Centro-Esquerda. Mas os seus aliados são mais cépticos. Qual é o roteiro para este partido único da coligação?

RP: Com o sistema maioritário, tivemos governos que duraram toda uma legislatura. Eu não gosto do governo Berlusconi, foi certamente o pior do pós-guerra, mas a verdade é que ele durou. No fim, para nos impedir de governar, voltaram ao sistema proporcional. Eu reagi politicamente, impulsionando a criação de um grande Partido Democrático. Sabia que isso não podia acontecer imediatamente, mas tomámos já medidas importantes que não podem voltar atrás. Já nesta legislatura, tomámos a decisão solene de formar um grupo parlamentar único, para depois das eleições. Parece-me ser uma decisão muito forte.

EN: Se ganhar, o que vai ficar da legislatrura Berlusconi?

RP: Há algumas leis que foram apelidadas pela opinião pública leis “ad personam”, ou seja, feitas para defender interesses pessoais do primeiro-ministro e dos colaboradores. É preciso eliminar essas leis. Em relação ao resto, mesmo às leis que não apreciámos, por exemplo a reforma da educação ou a lei sobre o trabalho precário, não as vamos eliminar. Vamos, sim, fazer as modificações necessárias para as adaptar aos nossos objectivos políticos. Mas não vamos fazer tábua rasa.

EN: Quando o centro-esquerda esteve no governo, entre 96 e 2001, não aprovou uma lei eficaz sobre o conflito de interesses, ou seja, normas capazes de separar os interesses públicos e privados dos candidatos a governar o país. Se voltar ao governo, como pensa que vai resolver a questão?

RP: Em primeiro lugar, é verdade: não fizemos uma lei sobre o conflito de interesses. Na altura, para nós, era inimaginável que o conflito de interesses resultasse numa catástrofe para o país. Agora, sabemos que é uma prioridade. Por isso, vamos adaptar a legislação a todas as outras democracias ocidentais, de forma a prevenir e controlar os conflitos de interesses das pessoas que ocupam cargos públicos. Os instrumentos são: a revisão dos regimes de incompatibilidade e a criação de de uma autoridade que os supervisione. Se houver actividades económicas julgadas incompatíveis, devem ser confiadas a uma organização independente que as administre. É o que se faz no Mundo inteiro.

EN: A Itália de Prodi aproxima-se mais da Alemanha da chanceler democrata-cristã Angela Merkel ou da Espanha socialista de Zapatero?

RP: É claro que a nossa política vai ser: a Europa acima de tudo e também a reconstrução da rede de países fortemente pró-europeus. Apreciei muito os primeiros passos da chanceler Merkel. Ela tem uma sensibilidade europeia, capaz de prever sacrifícios pela Europa. Também acredito.

Certamente, a minha Itália vai reafirmar que não existe política estrangeira, em nenhum país da Europa, que possa ser eficaz se não houver uma política estrangeira comum. Estou convencido de que a aproximação entre Merkel e os Estados Unidos não está em contradição com uma política europeia forte.

É preciso defender a paz, através de uma relação estreita entre a Europa e os Estados Unidos. Obviamente, uma relação de paridade.

Fui presidente da Comissão Europeia durante cinco anos. O meu maior problema foi fazer face ao crescimento das forças a que chamo minimalistas, ou seja, aqueles que vêem a Europa como uma zona de livre câmbio, e nada mais. Não houve líderes fotes que se tenham oposto a isso.

Não temos tido personalidades nos grandes países europeus capazes de por em jogo a carreira política pela Europa. Por isso, a Europa perdeu fôlego. É necessário voltar ao princípio de colocar a própria carreira política em jogo pela Europa. Eu vou fazê-lo, se ganhar as eleições, dentro dos limites em que a Itália pode intervir. Estou convencido que a Senhora Merkel poderá ter a mesma atitude. Em 2007, há eleições legislativas em França e a França sabe muito bem que não pode reassumir um papel e uma identidade, se não for capaz de ser líder a nível europeu. E só então poderemos recomeçar a construir à volta disto uma Europa que trabalha em conjunto”.