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Amartya Sen: "A Europa devia estar a liderar o mundo"

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Amartya Sen: "A Europa devia estar a liderar o mundo"

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Foi laureado com o prémio Nobel da economia pela sua investigação sobre o fenómeno da fome, do desenvolvimento humano e do bem estar económico com ênfase no mecanismo da pobreza.

Amartya Sen é professor na Universidade de Harvard e decidiu lutar contra a pobreza devido a sua experiência pessoal. Ao nascer e crescer na Índia, assistiu à grande fome de Bengala em 1943 que matou cerca de 3 milhões de pessoas. Tinha nessa altura 6 anos.

É um admirador do sistema social europeu, apesar das suas críticas à tendência da União Europeia de levantar barreiras a importação em nome do proteccionismo.

EuroNews: Professor Sen, bem-vindo à Euronews. Primeiro que tudo, acha que a União Europeia está a lutar contra a pobreza no mundo?

AS: Acho que os europeus têm que pensar com muita clareza em duas coisas. A primeira é o acesso ao mercado da Europa, porque continua limitado e isso faz uma grande diferença para os países em desenvolvimento, que gostariam de exportar mais mercadorias para o velho continente. A segunda é compreenderem bem o modelo europeu de um mercado baseado numa economia subsidiada por um sistema de segurança social e por aí adiante. Estas são as grandes questões que têm de ser tomadas em conta na economia europeia e que não dizem respeito apenas aos países em desenvolvimento, mas também aos próprios países europeus. Faz algum sentido a política de natureza contra produtiva da Europa? Mesmo para os Europeus, sem mencionar africanos, asiáticos ou latino-americanos. Uma questão idêntica deve também ser dirigida aos Estados Unidos.

EuroNews: Para si o proteccionismo da UE é uma forma de defesa do modelo social europeu?

AS: Não, não creio que está ligado ao modelo social. Se os preços da agricultura são protegidos e o comércio dos bens é restringido não é em nome do modelo social. É completamente errado pensar desse modo. Quero dizer, de facto, os países que de certa forma são os melhores exemplos de modelo social, os países nórdicos, não têm insistido muito nos preços agrícolas elevados. Bom, sim de certa forma, mas acho que essa elevada pressão é proveniente de outros países. Acho que é preciso desmontar o sistema: o modelo social e o comércio de bens são temas que precisam ser distinguidos.

EuroNews: Acha que do ponto de vista do proteccionismo a União Europeia está a fazer pior que os Estados Unidos?

AS: Não diria que estão a fazer pior, mas também não estão a fazer muito melhor. Sabe, não acho que os Estados Unidos sejam particularmente um bom exemplo nessa questão, porque a Europa tem muitas vantagens, uma delas é, de certa forma, o uso mais vigoroso da democracia. Os Estados Unidos são o primeiro país democrático do mundo, sabe, mas a democracia é uma questão de prática e de instituições e a Europa tem muitas vantagens. Uma delas é claro a pluralidade de centros de poder, sendo constituída por países diferentes com a sua própria soberania. Depois existe o fórum do Parlamento Europeu, que tem uma grande importância, porque a diferente perspectiva dos países sobre a história, fornece um fórum de discussão pública de questões globais de uma forma que não tem correspondências na América. Por isso, se a Europa está a fazer melhor ou pior que a América, pode servir de algum conforto para os europeus se pensarmos que a Europa não está a fazer pior que os Estados Unidos. Mas esse conforto não é suficiente. A Europa deveria estar a liderar o mundo.

EuroNews: A China e a Índia são agora duas potências económicas maiores que tiveram um grande impacto no preço do petróleo. Na sua opinião, quando é que estes desiquilíbrios vão ser reduzidos?

AS: No caso da Índia, existem muito poucos recursos petrolíferos, a China tem um pouco mais, mas também precisa de quantidades ligeiramente superiores. E esta é parte da realidade da crise energética no mundo. Não é especificamente um problema da Índia e da China . É um problema do mundo. Acho que as questões, que são mais vezes levantadas, são aquelas que não estão directamente ligadas ao normal crescimento económico em que a procura de combustível aumenta. Questões como o particular sucesso da economia chinesa num certo tipo de engenharia elementar muito bem desenvolvida, no caso da Índia, a tecnologia de informações e agora no sector dos químicos. Neste momento é essa a forma como o mundo opera: alguns países conseguem aumentar dramaticamente a produtividade relativamente aos seus salários. Se agora se trabalha num modo justo então o mundo inteiro pode sair beneficiado. Agora existem dois requisitos: o primeiro é realizar alguns ajustes no resto do mundo e na própria China e Índia. Mas a outra questão é ser inovador em relação às vantagens europeias ou americanas. Falemos das vantagens europeias em particular: antecedentes de trabalho especializado, uma grande experiência em diferentes sectores. É preciso ver em que medida podem ser modelos para todo o continente funcionar de uma forma eficiente e justa.