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Alejandro Toledo: "Não há nada mais cobarde que a moeda"

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Alejandro Toledo: "Não há nada mais cobarde que a moeda"

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Depois de cinco anos na presidência do Peru, Alejandro Toledo está de saída. Segundo a constituição peruana, não pode candidatar-se uma segunda vez consecutiva. No entanto, o sr. Toledo, o primeiro nativo étnico a liderar um país sul-americano em 500 anos, partilhou com a Euronews a sua opinião sobre a nova onda de esquerda que atravessa a América Latina. Na verdade, discretamente, ele apoia Alan Garcia.

Ao contrário do nacionalista-populista Hollanta Humala, a presidência de Toledo caracterizou-se por uma política económica de mercado que agradou ao Fundo Monetário Internacional, mas desapontou muitos peruanos.

Euronews: Pensa que depois das suas reformas políticas orientadas para o mercado o seu país pode tomar a direcção seguida pela Bolívia e pela Venezuela?

Alejandro Toledo:Se nós não conseguirmos diminuir o índice de pessoas a viver na pobreza, a pobreza pode debilitar a democracia. Aliás, se não conseguirmos reduzir significativamente a pobreza estaremos a criar terreno favorável ao populismo a curto prazo… e esse populismo é como uma festa de uma noite que de manhã termina em funeral…. E o preço desse funeral é pago pelos pobres, por isso necessitamos de crescimento económico sustentável como um meio, não como um fim. E necessitamos dos benefícios desse crescimento para redefinir o rosto social do nosso continente: reduzir a pobreza.

Euronews: Acabou de dizer que o povo sempre pagou, pensa que chegou o momento de os investidores estrangeiros pagarem mais que o povo?

Alejandro Toledo: Reduzir a pobreza de maneira séria e irreversível, não pode ser feito distribuindo o peixe de borla, só pode ser feito dando aos pobres o direito a aprender a pescar. Crescimento económico para redefinir o rosto social das nossas nações, mas para esse crescimento precisamos também de investimento privado nacional e estrangeiro. E para favorecer esses investimentos é preciso ter regras claras: Estabilidade económica, estabilidade política, estabilidade jurídica. Não conheço nada mais cobarde do que a moeda, porque ela vai para onde exista clima favorável ao investimento. Sem investimento não há crescimento, se não há crescimento não há emprego, se não há emprego não há receitas, tanto pessoais como fiscais.

Euronews: Porque é que, apesar dos esforços que sem dúvida o seu governo fez, os peruanos não estão satisfeitos?

Alejandro Toledo: Sim, eu atingi um nível muito baixo de popularidade, 11 por cento…10 por cento, porque decidi manejar a economia com responsabilidade para semear, porque quando semeamos temos de pagar os custos da semente, do fertilizante, da água,…. até que vem o momento da colheita. Eu paguei um preço, mas segundo as últimas notícias, já tenho 54 por cento, quatro vezes mais do que tinha há um mês. Não o digo triunfalmente, digo-o com humildade. A região não se pode dar ao luxo da frivolidade do poder. Governar exige sacrifício, exige ter uma visão do mundo que não seja isolada… se o petróleo é o seu trunfo competitivo, que deus o abençoe, mas os que o não têm, devem vender o que têm como no caso peruano, os produtos agro-industriais, ou o turismo para obter receitas e gerar emprego.

EuroNews: O processo de negociação para um acordo político e comercial entre a Comunidade Andina e a União Europeia vai começar. Mas não acha que antes de tudo a Comunidade Andina tem problemas políticos importantes a resolver?

Alejandro Toledo: O império Inca, Bolívar, San Martín foram todos factores de integração muito mais importantes que os actuais presidentes. Eu vou passar, Evo Morales vai passar, tal como Hugo Chavéz… mas o conceito de integração fica. Por isso é que viémos a Viena. Sou o primeiro presidente com esta origem étnica democraticamente eleito em 500 anos e isso significa uma grande responsabilidade, creio que estamos a reduzir as distâncias e temos economias complementares, procuramos mercados: Queremos por nas mesas dos espanhóis, dos europeus, os nossos espargos, as nossas mangas, as nossas uvas, abacates, os nossos limões…paprika, e sim, estamos dispostos a receber os produtos manufacturados na União Europeia.