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Taïb Fassi Fihri: "Marrocos não pode ser o polícia da Europa"

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Taïb Fassi Fihri: "Marrocos não pode ser o polícia da Europa"

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No combate à imigração clandestina, Marrocos não quer fazer o papel de polícia da Europa, segundo o ministro-adjunto marroquino dos Negócios Estrangeiros, Taïb Fassi Fihri. A EuroNews encontrou-se com ele em Rabat, à margem de um encontro inédito entre representantes da União Europeia e de vários países africanos. O objectivo do encontro foi encontrar uma política comum para gerir os fluxos de imigração, na maior parte clandestina, que sempre ou quase sempre passam por Marrocos.

Dulce Dias, EuroNews: Sr. Ministro, obrigada por esta entrevista, antes da cimeira União Europeia-África sobre a questão das migrações. Comecemos pela actualidade mais quente: esta segunda-feira, 3 de Julho, duas pessoas morreram ao tentar entrar em Melilla. Quantas mortes vão ser precisas até que se encontre uma verdadeira resposta?

Taïb Fassi Fihri, MNE adjunto marroquino: São incidentes que, naturalmente, Marrocos lamenta profundamente. Felizmente, posso dizer que isso aconteceu depois de um longo período de acalmia. Interrogo-me sobre as razões desta tentativa a poucos dias da conferência.

Mais uma vez, é importante que os governos possam sentar-se à volta da mesma mesa para tratar deste tema de uma forma global e dar respostas concretas. Ao mesmo tempo, temos que gerir as origens e as fontes desta migração para o Norte. Interrogarmo-nos sobre o como e o porquê, mas também lutar contra as redes que estão a crescer – traficantes que fazem comércio de homens e mulheres.

É só através de um desenvolvimento conjunto, organizado, controlado e encorajado por um apoio mais forte da União Europeia aos países africanos, que se pode dar uma resposta perene a médio e longo prazo.

EN: A União Europeia assume que precisa da mão-de-obra imigrante, tanto por razões de mão-de-obra como demográficas. Ao mesmo tempo, quer escolher os imigrantes. Por outro lado, os países de origem querem ficar com os melhores, os mais qualificados. Como é possível encontrar um equilíbrio entre esses dois pontos de vista contraditórios?

TFF: O importante é encontrar modalidades práticas e concretas. Isso passa por decisões conjuntas, um apoio à formação e o reconhecimento da necessidade de organizar estes fluxos. É manifesto que a migração clandestina mata as possibilidades de migração legal.

EN: Falámos já do problema do tráfico de seres humanos. Como é possível enfrentá-lo?

TFF: A repressão, sozinha, não consegue nunca funcionar.

Para responder mais precisamente à sua questão: a troca de informações – por isso insisto na cooperação entre nós, os países do Sul, em termos de partilha de experiências e identificação dos métodos, que hoje em dia estão generalizados. Não podemos lutar contra estes fenómenos tendo por critério único a migração clandestina, porque nestes itinerários, as mesmas redes praticam outros tipos de tráfico e outros tipos de crime.

EN: A posição geográfica de Marrocos faz do país uma zona tampão para a imigração para a União europeia. Como se sente, nesse papel?

TFF: Assumimos, mais uma vez, a nossa responsabilidade, mas dizemos que a Europa não pode limitar o olhar ao vizinho mais próximo. É preciso discutir com todos os países em causa. Não se pode pedir a um país como Marrocos para ser o polícia da Europa.

EN: Para os países de origem, os emigrantes são uma fonte de receitas. Os números mostram que as remessas dos marroquinos que vivem no estrangeiro são a segunda maior fonte de receitas do país…

TFF: Os números de que fala reflectem uma realidade que existe há já várias décadas. Foi a Europa, no início dos anos 60, que veio buscar os nossos jovens para satisfazer as necessidades de reconstrução e desenvolvimento.

Não é porque as sociedades europeias se interrogam sobre a pertinência e as virtudes desta presença que vamos esquecer os serviços prestados e os serviços a prestar no futuro, de acordo com as necessidades. Há dezenas de milhões de pessoas não-europeias de que a economia do Velho Continente vai precisar.

EN: Uma última pegunta: falou várias vezes do desenvolvimento conjunto. Quem é que o deve pagar?

TFF: Não esperamos da Europa um posicionamento em termos de deveres, de solidariedade.

Pensamos que o que a Europa pode fazer, para ser mais coerente, é aplicar, às acções, meios que estão agora a ser desperdiçados em diversos programas, dispersos por várias gavetas, desde o Mediterrâneo aos países ACP, aos controlos fronteiriços. Todos esses meios devem ser afectados a programas que tenham um resultado final, em termos de criação de emprego, de desenvolvimento duradouro, de promoção das mulheres e em termos de integração e escolarização das crianças.