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Otegi acha que o País Basco será 'um futuro Montenegro'

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Otegi acha que o País Basco será 'um futuro Montenegro'

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Quatro meses depois do anúncio da trégua de cessar-fogo da ETA e do anúncio de negociações pelo governo espanhol, a EuroNews ouviu, em San Sebastian, no País Basco, Arnaldo Otegi falar em língua basca das pretensões do Batasuna – o partido do qual é porta-voz e que continua ilegalizado. Otegi não condena as acções da ETA porque o Partido Popular também não condena o franquismo. E defende o direito do Povo Basco à autodeterminação por ser um dos povos mais antigos da Europa. Exige que o País Basco promova os mesmos direitos que o Montenegro, a Lituânia, Letónia e Estónia, e compara-se a Nelson Mandela.

EuroNews: Como explica que haja pessoas prontas a matar e a morrer pelo País Basco, agora que a autonomia é uma das mais importantes nas regiões europeias?

Arnaldo Otegi: O povo basco é um dos mais antigos da Europa. E há uma coisa que os bascos amam acima de tudo: é a liberdade e a liberdade de decisão. Por isso, enquanto esse direito for recusado e negado aos bascos, as pessoas estarão sempre prontas para a luta.

E.N. : Passaram quatro meses desde o anúncio da trégua pela ETA. O senhor reconheceu ter tido, antes, várias reuniões com os socialistas. Deram alguns frutos?

A.O. : A construção de um clima de confiança entre as partes, a vontade de fazer abordagens diferentes e dar soluções democráticas aos problemas. O diálogo é sempre benéfico, a esquerda independentista basca mostrou-se sempre pronta para o diálogo, e o fruto deste trabalho vasto, profundo, duradouro, foi reunir os dois partidos para equacionarem a possibilidade de resolver o conflito pelo diálogo.

E.N: Não definiu um roteiro?

A.O. : Não, não definimos um roteiro, mas estas reuniões são uma prova da vontade das duas partes resolverem o conflito pelo diálogo. Além do mais, pensamos que o plano de acção deve ser definido por todos os actores sociais, sindicais e políticos do País Basco, em todo o País Basco. O roteiro não deve ser estabelecido apenas pelo partido socialista ou pela esquerda independentista. Isso deve ser feito por todos os actores sindicais, sociais e políticos e por todo o povo basco.

E.N. : O governo espanhol declarou que, no futuro, não falará de política sem ser com os partidos legalizados. O seu partido foi ilegalizado por não ter condenado a violência. O que está pronto a fazer para voltar à legalidade?

A.O. : Antes do mais, é preciso sublinhar que na Europa é raro que um partido seja ilegal. A desculpa invocada para nos ilegalizar é a de que não condenamos a luta armada da ETA. O Sinn Fein fazia o mesmo na Irlanda, e Nelson Mandela fazia o mesmo enquanto estava na prisão. De facto, a questão não é condenar os problemas ou parte dos problemas. A questão é que um partido político deve, antes de tudo, resolver os conflitos de maneira eficaz. E nós estamos prontos para a resolução. Mas, na minha opinião, há um paradoxo que recentemente apareceu na Europa. O Partido Popular não condena o franquismo e ninguém ilegaliza o Partido Popular. É portanto um partido que concluiu pactos com Hitler, o mesmo Partido Popular que nos pede para entrar numa dinâmica de condenação. Nós devemos estar na legalidade, porque essa é a vontade dos cidadãos e do nosso povo.

E.N.: Territorialidade, direito de decisão do povo basco, futuro dos presos da ETA. Quais são os pontos que, para si, não são negociavéis?

A.O. : Temos uma linha vermelha, delimitada pela democracia, pela liberdade e pela justiça. Pensamos que é preciso admitir, sem qualquer dramatismo, que existe um país que se chama País Basco, e que é preciso reconhecer que este país é uma nação, no sentido lato: reivindicamos uma posição de esquerda e, por isso, afirmamos que somos uma nação, sem dramatismos. Também é preciso admitir aquilo que, para nós, não passa de uma lógica democrática: o respeito das decisões do povo basco. Noutros termos, é preciso que aconteça aqui o mesmo que aconteceu no Montenegro, na Lituânia, na Letónia, na Estónia, o que aconteceu na Europa e o que vai acontecer em Gibraltar; isso tem de acontecer também no País Basco; ou seja, devemos respeitar a vontade do povo basco.

E.N. : Relativamente ao direito de decisão, pensa que o governo espanhol aceitará uma consulta sobre a autodeterminação?

A.O. : Esperamos que sim. De facto, a nossa esperança não se refere apenas à vontade do governo espanhol. É claro para nós que essa é a vontade da maioria do povo basco. E pensamos que isto é a reivindicação de um princípio democrático que tem uma base democrática sólida. Assim, pensamos realmente que o governo espanhol ou o governo francês, se na verdade são democráticos, e mais ainda se forem de esquerda e, ainda mais no caso dos espanhois, se forem republicanos, devem aceitar o que para nós é uma operação democrática simples: é preciso ouvir o povo basco. É o caso no Montenegro, porque não no País Basco?É o caso na Lituânia, porque não no País Basco? Por outras palavras, como europeus, e sendo um dos povos mais antigos da Europa, exigimos a igualdade de direitos com os outros europeus.

E.N. : Considera que uma parte do País Basco está em França. Portanto, pede ao Estado francês para participar no porcesso. Ora, Paris considera que a questão da ETA apenas diz respeito a Espanha. É realista continuar a pedir a participação da França?

A.O. : Mais do que realista, penso que é indispensável. De facto, a França mantem a sua posição, declarando que a questão basca é um problema de Espanha. E acho que nem os franceses acreditam nisso. É uma perfeita mentira, pois há bascos no Estado francês e, neste momento, os bascos do Estado francês reivindicam uma instituição própria no País Basco, e um estatuto político que dará ao País Basco um reconhecimento institucional. Estou convencido que, se as coisas se desenvolverem no País Basco do Sul e no Estado Espanhol, o Estado francês também deve mudar de posição. Os bascos têm um problema com os dois Estados; resumindo, a questão basca é um problema europeu, e a Europa deve procurar uma solução.

E.N. : Acha que a ETA deve pedir perdão pelo sofrimento causado?

A.O. : Sempre que as condições são criadas no início de um processo, tenta humilhar-se a parte adversa, passar-lhe uma rasteira. Esse género de atitudes será benvindo, mas penso que, em princípio de processo, serve apenas para criar obstáculos. Se o processo se desenvolve e se, por fim, como na Irlanda, chegarem a um acordo final, esse tipo de atitudes será necessários dos dois lados. Estou convencido que isso não será impedimento, uma vez que o processo e o conflito serão ultrapassados.