Última hora

Última hora

Romano Prodi: A corrida à Finul "não é um concurso de beleza"

Em leitura:

Romano Prodi: A corrida à Finul "não é um concurso de beleza"

Tamanho do texto Aa Aa

A Itália e o seu primeiro-ministro, Romano Prodi, têm ocupado as primeiras páginas da actualidade internacional das últimas semanas. A Itália foi o primeiro país europeu a comprometer-se sem reservas com o envio de tropas para o Líbano, antes da decisão francesa de último minuto. Romano Prodi recebeu a Euronews na aldeia toscana onde passou as férias de verão, para falar do médio oriente e de outras questões da actualidade europeia.

EuroNews: Senhor primeiro-ministro, como explica o facto de a Itália se ter declarado imediatamente disponível para dirigir a força internacional no Líbano, enquanto outros países europeus, como a França, têm agido com uma prudência extrema até ao último minuto?

Romano Prodi: Posso assegurar-lhe que não é um sinal de ligeireza da nossa parte, mas de sentido de responsabilidade. Se não conseguirmos impor a paz no mediterrâneo, não há qualquer hipótese de desenvolvimento e o futuro será sempre sombrio. Penso que só uma construção activa da paz poderá ajudar-nos contra o terrorismo, contra tensões internas, contra as hostilidades que existem na nossa região. No entanto, eu não disse que queria dirigir esta força, disse que estou disposto a comprometer-me com os outros países. A Itália sabe que se trata de um dever político importante. Como já disse inúmeras vezes, isto não é um concurso de beleza, devemos dar a nossa contribuição para a paz. Se assumirmos responsabilidades de comando, óptimo, mas qualquer que seja o nosso papel, o que queremos é contribuir para a paz.

EN: Acredita numa solução para o futuro do Líbano sem um mandado preciso para o desarmamento do Hezbollah?

R. P.: O desarmamento do Hezbollah é possível e até fácil, mas no contexto de uma determinada solução política. Um desarmamento violento, numa situação de tensão será muito complicado. É por esse motivo que é importante que haja uma missão no terreno. É preciso parar com as hostilidades, mas há todo um trabalho político que é necessário. É importante lançar as negociações para a paz, mas também é fulcral que as conversações não se restrinjam ao Líbano. Deve falar-se na Palestina e em toda a região.

EN: É favorável a um diálogo permanente com a Síria. Não antevê nenhum obstáculo a estas conversações com Damasco?

R. P.: O problema é claro. O diálogo é um instrumento político indispensável. Dialogar não significa ceder, mas colocar condições duras. Eu acredito que o diálogo com a Síria é uma parte importante da construção da paz.

EN: Passemos agora a um outro problema europeu: a imigração clandestina. Mais de 10.000 pessoas entraram em Itália durante os últimos oito meses. E em Espanha, mais de 15.000. O governo de Madrid prevê duplicar a ajuda aos países de origem destes imigrantes. Itália, por seu lado, tomou medidas jurídicas e criminais, que muitos não acreditam ser eficazes. Como explica esta diferença de estratégia entre os dois países no que respeita à emigração ilegal?

R. P.: A explicação é simples: não há uma política comum entre os países em questão. Depois do tratado de Schengen já não é possível considerar a imigração como um problema nacional, logo os instrumentos devem ser comuns a toda a Europa. O diálogo com certos países deve ser bilateral, mas em determinados momentos é preciso discutir a nossa política africana com todos os países que são atingidos por esta vaga de emigração proveniente do sul. Com os países do leste é diferente. É um objectivo indispensável. Mas, se quiser, e voltamos a um problema que me preocupou enquanto presidente da comissão europeia, trata-se da política mediterrânica. Não é possível, nem sequer imaginável, que a Europa de hoje não coloque o Mediterrâneo entre as suas prioridades. No fundo, como pode observar, tudo está ligado. Não é possível lutar contra a guerra, as tensões em território palestiniano, a emigração, a não ser com uma grande política de união. Penso, por exemplo, nas universidades, onde os estudantes e os professores do norte e do sul do mediterrâneo deviam ter o mesmo número de participantes e o mesmo poder. Na verdade, o que é preciso é oferecer uma nova política.

EN: Voltemos à imigração. Qual é a sua opinião sobre a imigração selectiva, ou seja, a escolha dos candidatos de acordo com as necessidades do país de acolhimento no que respeita às competências profissionais.

R. P.: Esse sempre foi um critério de imigração, mas só é possível se houver diálogo. É preciso encontrar um acordo global, no qual certamente estarão provistas ajudas, os países do sul também irão colocar condições e dificultar-nos um pouco a vida, mas chegará a um momento em que cada um, reciprocamente, encontrará o seu interesse. E finalmente, devemos criar condições para que estas pessoas possam estudar na Europa. No fundo é um problema de cursos técnicos, de formação profissional. Caso contrário corremos o risco de ficarmos completamente passivos face à imigração.

EN: Também vimos, ainda com respeito à imigração, mas sem relação directa, que em Itália, nomeadamente em Pádua e em Bréscia, houve casos de intolerância e fundamentalismo. A Itália pode vir a experienciar incidentes ao nível dos que acontecem nos bairros franceses? Este é um perigo real?

R. P.: Sempre acreditei nisso e é também por esse motivo que quero uma política activa, como, por exemplo de cidadania. É também por isso que na nova lei prevemos o ensino da língua e o conhecimento das instituições do país. Tenho muito medo do efeito francês, mas ainda não atingimos essa concentração, essa massa crítica. Temos muitos episódios isolados, mas não devemos cometer o erro de os subestimar, porque um dia podem explodir.