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Geoff Hoon: "Blair assegurou que a voz da Grã-Bretanha seria ouvida na Europa"

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Geoff Hoon: "Blair assegurou que a voz da Grã-Bretanha seria ouvida na Europa"

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A Grã-Bretanha tem um passado nem sempre harmonioso com a União Europeia, mas o país está a favor do alargamento, não só à Bulgária e à Roménia, como também à Turquia.

Geoff Hoon, ministro britânico dos Assuntos Europeus, falou à EuroNews antes da conferência do Partido Trabalhista, tida como a última de Tony Blair. Quanto às pressões para a demissão do primeiro-ministro antes das eleições locais de Maio, Hoon preferiu não falar.

Andrea Bolitho, EuroNews: Parece haver uma reacção negativa ao alargamento, por parte dos britânicos, devido ao grande número de imigrantes dos países do Leste europeu. O Reino Unido pretende continuar esta política de portas abertas, se a Bulgária e a Roménia aderirem à União Europeia, em Janeiro?

Geoff Hoon: É excessivo falar-se de reacção negativa. É verdade que há alguns títulos desagradáveis nos jornais, por causa do período calmo das férias de Verão. Mas o Reino Unido continua claramente a favor da adesão da Bulgária e da Roménia. Temos que ter atenção ao mercado de trabalho, tal como terão de fazer todos os outros países.

EN: Como pode dar garantias às pessoas que vêem as perspectivas de emprego ameaçadas pelo número de imigrantes que temos vindo a observar?

GH: Houve muitas pessoas a vir para o Reino Unido de locais como a Polónia, por um período limitado. Não necessariamente para ficar, mas para viver, trabalhar, ganhar alguma experiência e certamente ter um salário melhor que no país de origem. Não há nenhum indício de que isso ameace as perspectivas dos britânicos de encontrar emprego. O que está em questão é apenas até que ponto vamos proteger o nosso mercado de trabalho, controlando o influxo de mão-de-obra, durante um período limitado e transitório.

EN: A União Europeia iniciou conversações com a Turquia há quase um ano. A Comissão vai publicar um relatório sobre os progressos nesta área, no próximo mês. Parece haver uma maior hostilidade dos europeus em relação à adesão da Turquia. O que vai fazer o Reino Unido para contrariar esta tendência?

GH: Há ainda muito entusiasmo, da parte da Turquia, em relação à pretença à União Europeia. É importante que a Turquia mantenha os compromissos que tem, como potencial futuro Estado-membro. Por isso, é preciso ainda ter muitas negociações. É óbvio que queremos que a Turquia consiga esta adesão, mas só o pode conseguir respeitando as regras da União Europeia.

EN: Disse que há muito entusiasmo, por parte da Turquia. Mas parece-me que não estão tão entusiastas como estavam há um ano. Porque é que este entusiasmo esmoreceu?

GH: Penso que houve alguma cobertura negativa, nos jornais turcos, a respeito da adesão à União Europeia, mas nas reuniões que tive com políticos, não me pareceu que o entusiasmo tenha esmorecido. Parece-me que ainda têm, como sempre tiveram, uma visão da Turquia como um país secular e virado para o Ocidente.

EN: Diz que a União Europeia tem um problema de imagem na Grã-Bretanha. Como pretende melhorar essa imagem?

GH: É importante pormos em questão aquilo que a geração anterior tinha como garantido, ou seja, quue a Europa é boa para a Grã-Bretanha e vice-versa. Temos que mostrar as consequências da União Europeia na vida de todos os dias. Na prática, as pessoas aqui são mais europeias que nunca. Trabalham para empresas que dependem de um mercado único para os seus negócios, viajam para o estrangeiro nas férias, além de que muita gente está a comprar propriedades no estrangeiro.

EN: A Grã-Bretanha tem um problema de imagem na nião, é vista como euro-céptica. Como pretende mudar isso?

GH: Não penso assim. Às vezes, os nossos jornais são um pouco estridentes nos assuntos europeus, mas a verdade é que estamos lá. Podemos não ser os mais entusiastas, mas também não somos os menos. Fui eurodeputado há muito tempo, quando a Grã-Bretanha tinha mesmo um problema de imagem. Margaret Thatcher, em particular, era vista como alguém que não tinha interesse nenhum pela Europa.

Já Tony Blair assegurou que a voz da Grã-Bretanha seria ouvida na Europa, ao envolver-se positivamente em assuntos europeus importantes e defendendo, ao mesmo tempo, os interesses britânicos neste processo.

EN: Gordon Brown falou recentemente em promover a britanicidade. Como é possível conciliar isso com o desenvolvimento de uma identidade europeia?

GH: Acho que uma coisa não exclui a outra. Eu sou de Derby, nas East Midlands, sou adepto do Derby County e quando vejo futebol aos domingos isso não me impede de ser inglês e apoiar as equipas inglesas quando jogam.

Agora temos a Ryder Cup e apoiamos a equipa europeia. As pessoas sentem-se confortáveis com várias identidades. Isso não é um problema e não é preciso fazer disso um problema. Não temos de escolher, podemos ser ambas as coisas.

EN: Há um sentimento de que a Europa está a ser empurrada em duas direcções – o modelo social francês, por um lado, e as tendências anglo-saxónicas por outro. Em que direcção pensa que está a ir?

GH: Claramente, alguns países põem uma grande ênfase no controlo da economia por parte do governo. Nós escolhemos outra via – acreditamos que é no interesse dos negócios aproveitar, ao mesmo tempo, as vantagens do mercado único europeu e as oportunidades que globalização permite. Acreditamos que a Europa precisa de seguir esse exemplo, tal como a Comissão Europeia, em temas como a investigação e desenvolvimento e o investimento nas tecnologioas novas e futuras. Isso é consistente com a via que escolhemos, no Reino Unido.