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"Há extremistas muçulmanos que nos querem impor um choque das civilizações"

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"Há extremistas muçulmanos que nos querem impor um choque das civilizações"

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A Organização Internacional da Francofonia vai estar reunida numa cimeira em Bucareste, a capital da Roménia. A EuroNews foi ao encontro do secretário-geral da OIF, Abdou Diouf, em Paris para saber um pouco mais sobre a importância da língua francesa no mundo de hoje e sobre outros temas da actualidade.

Euronews: Senhor Abdou Diouf, secretário-geral da Organização Internacional da Francofonia e ex-presidente do Senegal, bem-vindo à EuroNews. Eu sou inglesa e entre os anglófonos corre a ideia de que o francês está em vias de extinção. Concorda?

Abdou Diouf: Eu não diria isso. Direi que o francês progride, mas fá-lo de forma menos rápida do que o inglês. O inglês é claramente a grande língua de comunicação mundial, o francês surge como segunda língua de comunicação, mas bem atrás do inglês. Mas sabe minha senhora, o importante é salvaguardar o maior número possível de línguas no mundo. É proteger uma verdadeira diversidade linguística, no quadro de uma mais ampla diversidade cultural.

EuroNews: A OIF é uma força cultural, mas também é uma força política. Como é que a organização pode ser levada a sério se entre os seus membros encontram-se países que não respeitam os direitos humanos, onde reina a corrupção? Cito o grupo “Transparency International” que demonstrou que a Guiné Equatorial, o Chade, a Costa do Marfim, um dos seus maiores membros, o Haiti também, encontram-se entre os países com maior corrupção no mundo.

Abdou Diouf: Nós esforçamo-nos, ao nível da OIF, para que a governação de cada um dos nossos Estados-membros progrida. Os casos mais graves que tivemos que nos levaram a pedir sanções enérgicas foram os de golpes de Estado militares, tomadas de poder através da força. Nestes casos a organização aplica sanções. Nos outros casos esforçamo-nos, respeitando a soberania de cada Estado, para ajudar, para dar apoio no quadro da formação, da sensibilização, da afirmação de ideias, e tentamos juntar os nossos esforços aos de toda a comunidade internacional para que a situação volte ao normal.

EuroNews: Relembremos que o senhor foi presidente do Senegal. O seu país é uma das principais origens de imigração ilegal na Europa. Esta imigração mata milhares de pessoas devido às condições das travessias. Não acha que chegou o momento para que a África assuma a responsabilidade desses jovens e impeça este tipo de imigração de existir?

Abdou Diouf: O problema da imigração não deve ser visto só do ponto de vista da repressão, do ponto de vista da segurança, senão não resolvemos nada. É preciso ter em conta os problemas de fundo que existem. A África é um continente muito afectado pela pobreza. É, por isso, preciso fazer face a esta pobreza com esforços de desenvolvimento muito mais importantes. É por isso que às medidas repressivas se deve juntar medidas positivas que sejam capazes de fixar as populações, os jovens, dar-lhes esperança, permitir novas actividades.

EuroNews: Os governos africanos utilizam muitas vezes os vestígios do colonialismo para justificarem
a pobreza que assola o continente africano.
Concorda?

Abdou Diouf: O colonialismo deixou coisas boas e coisas menos boas. Nós não queremos continuar a ser considerados como Estados assistidos. Queremos ser parceiros. Portanto, olhemos para o futuro e vejamos o que os Estados africanos
propõem e o que os Estados desenvolvidos podem fazer para respeitar os seus pedidos.

EuroNews: A OIF tem membros cristãos e muçulmanos. Acha que ela pode ter um papel importante para impedir que o fosso que separa o mundo muçulmano e o ocidente continue a crescer?

Abdou Diouf: Não sei se podemos falar de fosso entre o mundo ocidental e o mundo muçulmano. Penso que há extremistas muçulmanos que nos querem impor uma espécie de choque das civilizações. Se cada um se isolar e disser “ eu sou o que sou e não mudo” vai criar compartimentos fechados que acabaram por pôr o mundo em chamas. Tem que haver uma interactividade, tem que haver um enriquecimento mútuo.

EuroNews: A “islamofobia” na Europa está a crescer…

Abdou Diouf: Espero que não seja contra o Islão. Espero que na Europa haja pessoas que não gostam dos islamitas, os fundamentalistas, os integristas, os fanáticos, mas não os muçulmanos moderados como eu.

EuroNews: Mas há um medo do Islão…

Abdou Diouf: Sim, eu sei, eu sei, eu sei… Mas porque confundimos os dois. Porque não conhecemos o Islão. São precisas vozes que se façam ouvir para que conheçamos melhor o Islão. Não sou eu. Eu digo o que penso enquanto político, figura pública, crente e praticante. É preciso que os chefes muçulmanos, que pensam como eu e que têm os argumentos teológicos para dar a conhecer esse ponto de vista, se exprimam mais vezes e de forma contínua, precisamente para não dar voz aos que nos fazem reféns.