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Emprego para jovens desmobilizados é prioridade da presidente do país

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Emprego para jovens desmobilizados é prioridade da presidente do país

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A primeira mulher eleita democraticamente para a chefia de Estado num país Africano – a presidente da Libéria – apelou à União Europeia para que aumente a sua ajuda ao país. Numa recente visita a Estrasburgo, Ellen Johnson Sirleaf agradeceu o apoio que lhe tem sido dado e disse que “a Libéria não é um país pobre” mas tem sido mal gerido. Numa nação em que quase 80% da população está desempregada e cujos recursos naturais foram delapidados para financiar a guerra, a chefe de Estado considera que a prioridade é criar emprego para os jovens.

Euronews: Há menos de um ano, o povo da Libéria votou em si na esperança de que possa devolver a estabilidade ao país após 14 anos de guerra civil. A Libéria é vista como um caso de estudo para a reconstrução pós-guerra em África. Na sua opinião, quais são os maiores desafios que enfrenta hoje em dia?

Ellen Johnson Sirleaf: O nosso maior desafio talvez seja assegurar que os jovens vão à escola, inseridos em programas de formação bem direccionados, e criar empregos para eles. Temos cerca de 120 mil jovens que estiveram envolvidos na guerra, que foram desmobilizados e estão a ser reintegrados nas suas comunidades. Precisamos de assegurar meios para absorvê-los porque são vulneráveis e podem facilmente ser convencidos a voltar ao conflito. É esse, creio, o nosso maior desafio.

Euronews: O ex-presidente liberiano Charles Taylor vai comparecer sozinho diante do tribunal de Haia em Abril, a data já está marcada. Só ele vai ser julgado. E o que se passa com os seus colaboradores que, segundo as notícias, ainda se mantêm activos na Libéria?

Ellen Johnson Sirleaf: Charles Taylor não foi acusado por um tribunal da Libéria. Foi acusado pelo Tribunal Especial das Nações Unidas para a Serra Leoa. E é nesse quadro que o processo se desenrola. Até agora, na Libéria não decidimos ter um tribunal de crimes de guerra. O que decidimos foi começar uma comissão de Verdade e Reconciliação e o trabalho dessa comissão já começou. Agora, quando esse órgão fizer recomendações, isso poderá levar à necessidade de criar um sistema de justiça. Nessa altura, consideraremos essas recomendações e agiremos de acordo com elas.

Euronews: Enquanto primeira mulher em África, eleita democraticamente como presidente, fala muito dos direitos das mulheres e de igualdade de género. O que tem sido feito no seu país em prol das mulheres num país que não é famoso no que toca ao respeito dos direitos humanos.

Ellen Johnson Sirleaf: Bom, para começar, espero que estejamos a corrrigir essa imagem e a avançar para uma administração e um governo que respeita os direitos humanos e que não permita que esses direitos sejam desrespeitados. No caso das mulheres, para já, creio que elas se sentem numa melhor posição por causa da minha própria posição. Nomeámos mulheres para ocuparem o que consideramos posições estratégicas. Aprovámos uma legislação dura para as violações que dá prisão perpétua para quem viole as nossas mulheres. E estamos a fazer duas outras coisas: vamos lançar um programa de literacia à escala nacional para que as mulheres saibam ler e escrever e temos um programa especial para a educação das raparigas.

Euronews: Outra questão importante em relação às mulheres em África. Dois milhões de mulheres sofrem a mutilação genital. O que pensa desta prática? O que deve ser feito?

Ellen Johnson Sirleaf: É um problema também no nosso país. é um problema cultural e de tradição. Creio que devemos lidar com ele através da educação. Temos de começar na escola primária, a falar da importância de não violar a integridade física da mulher e falar das consequências dessa prática. Seria muito dificil legislar e tentar impor a lei de um dia para o outro.

Euronews: É uma prática que deve ser condenada?

Ellen Johnson Sirleaf: Não. É uma questão a que temos de resistir, temos de nos opôr à mutilação genital mas com consciência de que é preciso trabalhar com aqueles que têm essa cultura e tradição enraizada de forma tão profunda e isso leva mais tempo do que a mera condenação. Implica instrução e educação porque esse é o único meio de resolver o problema de forma permanente. Não me parece que seja adequado ter leis e condenar as pessoas e elas continuarem a agir à margem da lei.

Euronews: Outro dos grandes problemas em África é a SIDA e a relutância de alguns chefes de estado em considerar a existência do problema. Na sua opinião, o que deve ser mudado?

Ellen Johnson Sirleaf: Deixe-me dizer-lhe que reconhecemos que o HIV é um problema cada vez mais sério entre nós. A incidência da SIDA aumentou de quatro por cento há alguns anos para cerca de 10 a 12 por cento agora. O que é perturbador. Vamos nomear brevemente uma comissão para a SIDA. Já apresentámos uma proposta ao Fundo Global para a Luta contra a SIDA para receber apoio e estamos a tentar atacar o problema de duas formas: primeiro disponibilizar medicamentos retro-virais para algumas pessoas…ainda não temos em quantidade suficiente, estamos ainda a mobilizar apoios. Em segundo lugar mudar comportamentos através da instrução e da educação; temos cartazes em todo o país e estamos a introduzir medidas preventivas nas escolas. Estamos muito conscientes deste problema e da necessidade de lidar com ele.