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Turquia deve cumprir as obrigações assumidas com Bruxelas

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Turquia deve cumprir as obrigações assumidas com Bruxelas

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Numa entrevista exclusiva à EuroNews, Yiorgos Lillikas, ministro dos Negócios Estrangeiros do Chipre, lança a advertência. A Turquia poderá sofrer consequências pelo incumprimento das obrigações acordadas com Bruxelas tendo em vista as negociações de adesão à União Europeia. Denunciando a ocupação militar turca da parte norte da ilha e a existência de um governo que não tem reconhecimento internacional, o chefe da diplomacia de Nicósia sugere que Ancara terá de fazer mais no caminho da adesão. Apesar de confirmar o apoio cipriota à candidatura turca, Lillikas sustenta que o regime de Ancara deve fazer algumas cedências sob pena de ver suspensas as negociações.

EuroNews: -A presidência finlandesa acaba de convidar todas as partes a falarem frente a frente sobre esta questão cipriota.
O convite foi anulado à última hora. Porquê?

Yiorgos Lillikas: -Como sabe, a Turquia recusa reconhecer a República do Chipre e, por isso, recusa encontrar-nos. Por enquanto, não estou muito optimista.
Todas as informações que me chegam da parte de outros governos que contactam com a Turquia são muito negativas.

EuroNews: -Em meados de Dezembro, os chefes de Estado e de governo da União Europeia vão reunir-se para discutir as questões turca e cipriota. Que propostas concretas faz para desbloquear a situação?

Yiorgos Lillikas: -Que a Turquia cumpra as suas obrigações.

EuroNews: -Fala de obrigações. Refere-se à abertura dos portos turcos…

Yiorgos Lillikas: -A União Europeia impôs diversas obrigações. Entre elas, a abertura dos portos e aeroportos da Turquia como previsto no acordo aduaneiro entre a Turquia e a União Europeia e no protocolo de Ancara. A normalização das relações entre a Turquia e a República do Chipre é outra das exigências. Mas é também o reconhecimento do Estado da República do Chipre enquanto Estado-membro da UE. Actualmente existe um paradoxo: um país candidato, que quer aderir, que quer fazer parte da família europeia, recusa-se a reconhecer e a ter relações diplomáticas com um membro da família. Isso é muito paradoxal.

EuroNews: -A razão pela qual a Turquia diz sistematicamente “Não” prende-se com o facto da União Europeia ter prometido romper o isolamento do Chipre do Norte. Não teremos então de assistir a um gesto de abertura para romper efectivamente este isolamento económico do Norte?

Yiorgos Lillikas: -Antes de mais, permita-me dizer que a história do isolamento é um mito. E a melhor prova disso é que, nos dois últimos anos, o PIB per capita da parte ocupada da ilha, o rendimento dos cipriotas turcos quadruplicou.

EuroNews: -Há alguns dias, falei com Mehmet Ali Talat, o presidente da República Turca do Chipre do Norte, um governo que não tem reconhecimento internacional. Coloquei-lhe a questâo: porque não expulsam as tropas turcas? E ele respondeu-me que tem medo, medo dos cipriotas gregos, dos militares gregos. Que responde a isso?

Yiorgos Lillikas: -Em 1974, existiam 120 mil cipriotas turcos. Segundo a taxa de crescimento da população, actualmente, deveriam ser 200 mil os cipriotas turcos na parte ocupada. No entanto, os cipriotas turcos não são mais do que 75 mil. São menos, sob a “protecção” da Turquia, do que em 1974. Infelizmente, abandonaram a ilha para irem para Londres ou para outras regiões do mundo. Por outro lado, o que faz a Turquia?
Trouxe mais de 180 mil colonos da Anatólia. Está a colonizar o Norte do Chipre e a modificar o carácter demográfico da ilha. Ainda mais com uma presença de 40 mil soldados turcos no terreno, ainda que a nossa guarda nacional não ultrapasse os nove mil homens.

Se existe uma questão de segurança, é para nós! Por estarmos sob a ameaça do exército turco. Somos um pequeno país, temos uma população de menos de um milhão de habitantes. Se existe uma questão de segurança, temos de colocá-la em cima da mesa, dialogar, estamos prontos a convidar forças europeias para substituírem a guarda nacional do Chipre e o exército turco… Substituir todos os exércitos estrangeiros no Chipre por uma força europeia, uma força militar europeia para proteger as duas comunidades.

EuroNews: -Está pronto a aceitar, mais cedo ou mais tarde, a Turquia como Estado-membro da União Europeia?

Yiorgos Lillikas: -Claro; devo dizer que nós já apoiámos duas vezes o pedido de adesão da Turquia: em Dezembro de 2004 e em Outubro, votámos a favor do início das negociações com a Turquia. Porque achamos que traz vantagens para o nosso país ter uma Turquia europeizada, se posso empregar o termo, isto é, uma Turquia que se transforme num regime democrático, que respeite o direito internacional, os direitos humanos, que respeite o direito europeu e se respeite a si própria. O nosso apoio ao processo de adesão da Turquia não é um apoio incondicional: a Turquia deve cumprir as suas obrigações, coisa que, de momento, recusa fazer.

EuroNews: -Uma destas condições é a abertura dos portos turcos. E, efectivamente, a Turquia acaba de confirmar que não tem intenção de o fazer por agora. E vocês, do vosso lado, bloqueiam a abertura dos capítulos de negociação, ou seja, nada se altera. Para voltar à questão que acabo de colocar, que me parece não ter respondido totalmente: o que propõe em concreto para desbloquear a situação até meados de Dezembro a tempo da reunião de chefes de Estado e de governo?

Yiorgos Lillikas: -Como deve calcular, não podemos aplicar as condições pela Turquia. É a Turquia que deve ajudar-se a si própria. De momento, recusa ceder. Por isso, estamos bloqueados por causa de uma mentalidade, por causa de uma cultura política na Turquia que pensa que a adesão à União Europeia é um menu ‘à la carte’.