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Críticas à desunião europeia no balanço de dois anos de presidência Borrell

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Críticas à desunião europeia no balanço de dois anos de presidência Borrell

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“Sem um tratado constitucional a futura União a 27 arrisca-se a cair na paralisia”, para Josep Borrell. À hora de se despedir da presidência do Parlamento Europeu, o socialista faz um balanço do mandato e lamenta a desunião que paira ainda sobre os 25 em temas que vão da energia ao projecto de constituição europeia, passando pela sua sucessão.

Euronews: Desde há dois anos que assume o cargo de presidente do Parlamento Europeu. Pensa que esta instituição representa realmente os interesses dos cidadãos que o elegeram?

Josep Borrell: É evidente que sim, não só os representa cada dia com mais dinamismo, como tem vindo a ganhar uma influência política crescente na vida da União. Este parlamento tem hoje mais credibilidade, um maior peso político e uma maior capacidade de intervenção legislativa do que há dois anos. Toda a gente o reconhece. Desde a janela do meu escritório constato que há cada vez mais gente que se desloca ao Parlamento porque sabem que aqui se tomam decisões sobre temas que lhes dizem respeito.

Euronews: O eurodeputado popular alemão Hans Gert Poettering vai agora assumir a segunda metade do mandato conforme o acordo firmado entre socialistas e populares. Como justifica este acordo perante os cidadãos?

Josep Borrell: É preciso esperar ainda pelo resultado da votação mas é fácil de prever que o senhor Poettering terá o apoio de pelo menos três grupos políticos: o seu, o dos socialistas e o dos liberais. Não consigo compreender porquê é que este tipo de acordo gera tanta apreensão. Actualmente nenhum grupo político no Parlamento tem uma maioria suficiente para eleger sozinho um presidente. Nenhum. E por consequência todos são obrigados a ter que chegar a acordos com outros grupos políticos. É assim que se passam as coisas desde o início no Parlamento Europeu, por isso não é nada de novo.

Euronews: Em Janeiro a Alemanha assume a presidência semestral da União, com um presidente do Parlamento igualmente alemão…

Josep Borrell: Seria bom que deixássemos de ter essa visão de partilha territorial dos cargos. Quando o meu nome foi evocado para presidir o Parlamento, ouvi comentar “ não porque o senhor Barroso é português e haverá demasiados Ibéricos”, como se estivessemos a discutir charcutaria regional… Nós estamos aqui para representar uma certa ideia de Europa, uma ideia que pode ao mesmo tempo ser partilhada por um letão e por um português, por um escocês ou um cipriota. Percebo que existem certas sensibilidades nacionais, mas o que conta é a sensibilidade europeia de cada um e de todos, não a sua proveniência geográfica no interior da Europa.

Euronews: A Europa atravessa uma crise institucional mas a Alemanha quer relançar o projecto de Constituição Europeia durante a sua presidência. Na sua opinião o que é preciso fazer para que os cidadãos europeus aceitem este projecto?

Josep Borrell: Um tratado constitucional é hoje absolutamente necessário, com este nome ou com outro, porque o que importa é sua essência. Se nós não criarmos novas instituições, novos sistemas de decisão, assim como uma definição mais clara dos objectivos e das políticas necessárias para concretizá-los, a Europa dos 27 estará condenada à paralisia.
Há momentos na história em que as vantagens da União são claras e os custos da desunião evidentes. Este é um desses momentos. Face à dependência energética e às tensões migratórias ou a Europa é capaz de unir-se ou dificilmente vai ser capaz de manter-se no século XXI como um pólo de crescimento, prosperidade e influência política.

Euronews: No Conselho Europeu desta semana, a política de imigração é um dos temas em debate…

Josep Borrell: Sim, como em todos os Conselhos anteriores, desde há 7 anos que é um tema em debate mas com poucos progressos. E enquanto mantermos a unanimidade como critério de votação seguiremos sem registar avanços importantes.

Euronews: Falemos agora de energia, este grande desafio europeu. Existe uma solução à vista?

Josep Borrell: É evidente que o mundo não pode permitir um consumo energético à americana, nem sequer à europeia se queremos que esta esteja ao alcance de todos os seres humanos. Por isso temos que desenvolver formas de energia alternativa, eliminando a dependência das energias fósseis, mas isso implica uma decisão de sociedade. O tema da energia vai pôr à prova a democracia, vamos esperar para ver se os cidadãos serão capazes de responder às exigências de um desenvolvimento sustentável. Vamos ver se seremos capazes de ser consequentes com as nossas decisões. A Europa comprometeu-se, à luz do protocolo de Quioto, a limitar as emissões de gases, mas ao mesmo tempo ninguém está pronto a reduzir o seu conforto energético. Como fechamos este ciclo? Regressando à energia nuclear? É um debate que está agora em aberto.

Euronews: E uma última pergunta, como vê o seu futuro após o Parlamento Europeu?

Josep Borrell: Bem, após o Parlamento Europeu… será de novo o Parlamento Europeu.