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Clayland Boyden Gray: "Bush preocupa-se com o ambiente há muitos anos"

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Clayland Boyden Gray: "Bush preocupa-se com o ambiente há muitos anos"

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As questões ambientais estão na ordem do dia e parecem estar a ganhar espaço nos discursos do presidente norte-americano George W. Bush.

O que para alguns é apenas uma questão eleitoral, é para Clayland Boyden Gray, embaixador dos Estados Unidos na União Europeia, uma verdadeira preocupação do Presidente, que vem de há já muitos anos. Isto apesar de os Estados Unidos não terem subscrito o protocolo de Quioto.

O embaixador recebeu, em exclusivo, a EuroNews, com quem falou sobre estes temas.

Sergio Cantone, EuroNews: Sr. Embaixador, bem-vindo à EuroNews. Em primeiro lugar, o presidente Bush anunciou a iniciativa de dar alguns passos importantes para combater o aquecimento global. No que é que isso consiste?

Clayland Boyden Gray, embaixador dos EUA: A principal medida que ele anunciou no discurso do Estado da União foi o aumento dramático da quantidade de biofúel no conjunto dos nossos combustíveis. Nos próximos dez a quinze anos, 20% dos veículos vão ser movidos a combustíveis biológicos, o que é um melhoramento importante na segurança energética e na redução de emissões de CO2.

Isto vem no seguimento e inclusivamente reforça a iniciativa do governador Schwarzenegger, na Califórnia, de fazer alguma coisa parecida, o que é ambicioso.

EN: O que é que está errado com Quioto?

CBG: O principal problema que tivemos foi político. O Senado, incluindo os Democratas, votou contra o protocolo. Isso aconteceu em 97-98. O que acontece é que o mundo não está a contar com a China e com a Índia. Esses países têm que ser incluídos, para que o regime de trocas funcione. Se não forem incluídos, aumentamos os custos do nosso sector industrial e esse sector muda-se para a China, onde não há qualquer controlo.

A Europa está a enfrentar este problema e por isso há tanta resistência ao esquema de créditos, proposto por Bruxelas, no sistema de troca de emissões. Há o mesmo problema: as empresas energéticas sabem que, se sobem os preços aos clientes, eles simplesmente mudam-se para a China ou para a Índia.

EN: Os Estados Unidos parecem estar relutantes na implantação de medidas para reduzir as emissões de dióxido de carbono. É verdade?

CBG: Estamos a investir milhares de milhões – e somos o único país a fazer isso – estamos a investir milhares de milhões na pesquisa, para tentar encontrar respostas. No que toca às medidas de redução, o Presidente disse, no discurso do Estado da União, que ia implantá-las.

Vamos pedir às empresas para usar combustíveis alternativos. Isso vai ser obrigatório. Simplesmente, não nos juntámos a este sistema de trocas, porque não pode funcionar sem a China e a Índia.

Já estamos a sofrer com o transporte da poluição da China para a Califórnia. Um quinto da poluição da Califórnia vem da China. Não queremos mandar para lá a nossa indústria e, em troca, receber a poluição deles.

EN: O que pensa do sistema de quotas na troca de emissões posto em marcha pela União europeia?

CBG: Há alguns problemas. Por exemplo, não inclui o sector dos transportes, que é, dos sectores responsáveis pela emissão de dióxido de carbono na Europa, aquele que está a crescer mais rapidamente.

EN: E que pensa de um imposto sobre o carbono?

CBG: Não é má ideia, mas não tão boa como o sistema de quotas. No nosso país, qualquer imposto que vá afectar o preço dos combustíveis é muito, muito politicamente suspeito. é um problema político do nosso país… já o sistema de quotas funciona melhor e tem melhor aceitação nos Estados Unidos.

Quando se fala de emissões de carbono, é preciso incluir a China, que vai herdar toda a nossa indústria, se não a pusermos na mesma base que a nós próprios.

EN: Mas, entretanto, não vai ser possível tomar medidas concretas até 2009, altura em que um novo presidente vai chegar à Casa Branca…

CBG: Penso que o que o Presidente sugeriu no discurso do Estado da União é que iria haver medidas coercivas. Na nossa lei de política energética, aprovada há dois anos, existe já a obrigatoriedade de utilização de uma determinada quantidade de etanol.

O Presidente vai aumentar ainda mais esses limites e torná-los legalmente coercivos. É claro que o Congresso vai, primeiro, ter que aprovar.

EN: Isto não será uma espécie de reposicionamento do presidente Bush, depois da derrota nas eleições de meio do mandato?

CBG: Não sei. Ele fez um grande anúncio sobre a dependência do petróleo há um ano, no discurso sobre o Estado da União. Há já vários anos que ele se preocupa com a questão.

Não acho que seja uma conversão eleitoral. Ele é coerente, há muito tempo. Está a dar ao assunto mais importância, agora? Bem, este é um assunto que tem o apoio dos democratas, e os democratas estão agora em maioria no Congresso. Isso significa que ele pode fazer algo com essa maioria. Mas este não é um assunto novo para ele.