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Governo sai reforçado da crise política

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Governo sai reforçado da crise política

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O presidente do governo italiano acaba de ultrapassar a primeira crise política desde a investidura o seu executivo em Maio de 2006. Ao fim de oito meses, Romano Prodi, foi desautorizado pelo Senado, e apresentou a demissão ao presidente Georgio Napolitano que acabou por reconduzi-lo no cargo. O chefe do executivo submeteu-se a uma moção de confiança aprovada pelas duas câmaras do parlamento. Eis como Romano Prodi analisa o sucedido .

Romano Prodi: Esta foi uma crise salutar já que reunificou fortemente a nossa coligação. Temos de nos lembrar que nunca perdemos e que a moção de confiança confirmou os votos obtidos no primeiro dia deste executivo. Isto dá-nos uma grande capacidade de atracção.

EuroNews: Mas restam problemas que serão debatidos nas próximas semanas e que podem colocar esta coligação novamente em perigo.

Prodi: Oiça, é claro que se refere à missão no Afeganistão. Contudo vai haver mais de 300 votos favoráveis em 350 possíveis. Por isso, creio que quaisquer que sejam os comportamentos este é um problema que não existe.

EuroNews: Em Itália é quase unânime a opinião de que é necessária uma reforma do sistema eleitoral. Qual o modelo a aplicar? Um sistema uninominal a duas voltas como em França, um sistema proporcional como em Espanha ou um sistema como o alemão que favorece a maioria mas que não esquece os pequenos partidos?

Prodi: Eu pretendo um sistema no qual os cidadãos se possam exprimir e que garanta a estabilidade. Actualmente isto não é possível porque não há um acordo. Por isso eu busco um compromisso amplo porque esta é a única forma de alterar um sistema eleitoral. Eu sou bastante flexível mas não vou renunciar a um objectivo claro: que o cidadão se possa exprimir, que o governo possa governar e, na minha visão política, a existência de dois pólos que garantam a alternância do sistema.

EuroNews: Considera justo que partidos com pouca expressão eleitoral tenham tanta força para bloquear um executivo?

Prodi: Não é justo mas é a história italiana. A Constituição e a lei eleitoral não tinham como objectivo a estabilidade mas a garantia da máxima expressão plurarista depois da queda do fascismo. E assim ficou. Também não é justa a existência de duas câmaras idênticas que devem aprovar as mesma leis e, se há uma diferença mínima, a lei passa de uma câmara para outra. Esta é a herança da nossa história e é esta a razão pela qual pretendo modificar a lei eleitoral.

EuroNews: Considera mais sério participar em missões com um contigente militar de cariz humanitário, como no Afeganistão e no Líbano e antes no Iraque, ou considera mais sério enviar tropas de combate como os americanos e os britânicos?

Prodi: Para mim é sério participar em missões nas quais a ONU toma as decisões. Acho sério respeitar as nossas obrigações para com os aliados embora as missões como a que organizámos no Líbano tenham um papel fundamental no campo da pacificação. Mas como se trata de zonas de conflito é claro que os soldados vão armados e se houver necessidade eles devem utilizar as armas.

EuroNews: A propósito dos aliados, a Itália ainda não pediu oficialmente a extradição dos 26 agentes da CIA que são acusados de participar no rapto do antigo imã egípcio Abou Omar. Como pensa resolver este diferendo jurídico-diplomático com os Estados Unidos?

Prodi: Neste caso a decisão ainda não foi tomada porque pedimos ao Tribunal Constitucional uma clarificação sobre alguns aspectos jurídicos. Mas é verdade que considero estranho que antes mesmo da Itália ter decidido o que quer que seja, do lado americano já declararam que não vão extraditar ninguém.

EuroNews: Uma das novidades do vosso programa foi a legitimação jurídica das uniões de facto, homossexuais e heterossexuais. Há quem diga que esse projecto foi sacrificado. E no estrangeiro escreve-se, e pensa-se, que o Vaticano é muito forte. O Vaticano pesa verdadeiramente assim tanto na política italiana?

Prodi: Sobre as uniões de facto, antes do mais, trata-se de um projecto que foi profundamente examinado e que não viola em nada os fundamentos da família. Trata-se de um projecto no qual se reconhecem alguns direitos e que não sai da tradição italiana. O governo não o abandonou, fez o seu projecto. Diante do parlamento há mais nove projectos, ou seja, dez no total. E vai ser o parlamento que vai escolher, decidir se um dos projectos vai avante e qual. Deste ponto de vista, o governo cumpriu o seu papel.

EuroNews: E a força do Vaticano. É apenas de um cliché?

Prodi: É claro que existe uma longa tradição de relações muito estreitas entre o Estado da Igreja e o de Itália porque existem relações estreitas de um ponto de vista geográfico mas que em nada afectam a laicidade do Estado italiano como é também reconhecido pela Concordata.

EuroNews: Regressando à Europa, existe uma nova forma de nacionalismo, há quem lhe chame nacionalismo industrial. Por exemplo, quando a italiana ENEL pretende entrar no capital da SUEZ, Paris bloqueia. Quando a alemã E.ON quer comprar uma parte da espanhola ENDESA, a ENEL busca também uma participação na ENDESA. Até que nível pode um Estado participar nas escolhas económicas de empresas semi-privadas?

Prodi: Fala-me de um novo nacionalismo mas ele é velho. É a história da Europa. Eu comecei os meus estudos em Economia pela sua análise e creio ter sido o primeiro a utilizar o termo “Campeão Nacional”. Noutros campos, qualquer esforço deste tipo estaria votado ao insucesso. Estamos ainda numa fase de transição durante a qual algumas fusões transnacionais são bloqueadas e outras não. Eu espero, e faço pressão nesse sentido, que se reduzam os obstáculos públicos à formação de um verdadeiro mercado europeu. E para lá chegar verdadeiramente é necessária mais força da parte das instituições europeias. Actualmente vivemos um paradoxo: rejeita-se uma política europeia mas em seguida lamenta-se quando um país interfere em problemas deste tipo.

EuroNews: A propósito da crise da Airbus, pode dizer-se que a Airbus é um exemplo de cooperação económica, mas será que se trata também de um exemplo de cooperação política?

Prodi: A Airbus nasceu como uma empresa política para se transformar numa empresa industrial. O que sucede nestes dias é, em substância, a passagem de uma estratégia política a uma estratégia industrial. Numa palavra, a Airbus está numa fase de racionalização face à concorrência da Boeing. Por isso está obrigada a fechar fábricas, a se reestruturar, a despedir, a se reorganizar, o que afinal evitou até agora graças à sua forte e original dimensão política. A partir de agora tem de se comportar cada vez mais como uma empresa.