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Borislaw Geremek: "Só agora vejo a importância do que se passou em 1957"

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Borislaw Geremek: "Só agora vejo a importância do que se passou em 1957"

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Nos corredores do hemiciclo de Estrasburgo, por vezes encontramos pessoas que fizeram história. Borislaw Geremek é uma delas. Juntamente com Lech Walesa, ajudou a libertar a Polónia do regime comunista. É professor de história e tem assento no Parlamento Europeu, eleito pelo partido da União e das Liberdades. Entre 1997 e 2000, foi ministro dos Negócios eEstrangeiros da Polónia. A Euronews foi falar com ele para tentar perceber o que representam os 50 anos do tratado de Roma para os países do Leste europeu.

Christophe Midol-Monnet, EuroNews : Bom dia, professor Geremek. Primeira pergunta: onde estava no dia 25 de Março de 1957?

Bronislaw Geremek : Sabe… penso muito nesse momento. Tento recordar-me do sentimento que tinha. Era um polaco cheio de esperanças, em 1957. Eu desconhecia o Tratado de Roma. 1956 foi uma altura histórica para toda a região. Em Junho, foi a revolta operária de Poznan. Em Novembro, a insurreição em Budapeste, a mudança de poder na Polónia, feita, em primeiro lugar pelos operários de Varsóvia e depois com a chegada ao poder de Gomulka. Em 57, ou seja, uma ano depois, o que se passou em Roma estava muito afastado de nós. Só agora, sendo cidadão da União Europeia, vejo a importância histórica do que se passou nessa altura.

EN: Pensa que os europeus estão no mesmo comprimento de onda que os senhores? Quero dizer, pensa que as celebrações vão ser entendidas da mesma forma em toda a União Europeia?

BG: Gostava que fosse assim. Que houvesse a mesma percepção em toda a Europa, do Leste ao Ocidente. Mas, sabe, é mais fácil juntar economias e administrações que juntar memórias. O aniversário do tratado de Roma é um desses momentos em que as memórias devem encontrar-se. Robert Schuman não tinha qualquer dúvida sobre o facto de que a integração europeia não podia deixar de fora os países da Europa Central e Oriental. Ele disse: “agora, eles não podem juntar-se a nós, mas há um lugar guardado para eles”. Isso viria a acontecer, muitos anos mais tarde.

EN: Dito isso, celebrar os 50 anos da integração económica não é uma forma de ocultar a difícil emergência da Europa política?

BG : Quando lemos as declarações dos pais fundadores, quando lemos o que Paul-Henri Spaak, ao preparar o Tratado de Roma e a declaração de Messina disse na altura, vemos que esta visão política esteve sempre presente. O projecto da comunidade europeia não é um projecto económico. Era um projecto político por excelência.

EN: Pensa que a a energia e a pesquisa podem ser os novos pilares desta União Europeia do século XXI, depois do carvão, do aço e da agricultura, nos anos 50 e 60?

BG: Tenho mais certeza que nunca. No último Conselho Europeu sobre o clima o tema foi, pela primeira vez, falado em termos concretos. Três vezes vinte: no ano 2020, economizar 20 por cento de consumo energético e ter 20 por cento de energias renováveis. É um belo projecto, que atrai os jovens e, para os menos jovens, sou testemunha, é mesmo apaixonante!

EN: É um projecto mais difícil de levar a cabo no Leste que no Ocidente?

BG: Ainda bem que faz essa pergunta. Estava mesmo a pensar nisso. Somos um país em vias de desenvolvimento. Todos os países pós-comunistas perderam um período da sua existência para nada. Perdemos um certo tempo. As energias renováveis significam tecnologias, que são caras. Não podemos pagá-las. Face a isso, não podemos admitir políticas egoistas de cada país. É a minha conclusão.

EN: Acha que a Polónia, hoje, está protegida dos atentados aos direitos fundamentais?

BG: Não, não posso. Temos um governo autoritário, nacionalista, conservador, que se verga à vontade dos aliados. De dois aliados da coligação que representam tendências extremistas. A Europa não pode ser só uma “tia boazinha” que ajuda quando há dificuldades, tem que ser também uma referência em termos de valores e padrões políticos – padrões de direitos humanos.

EN: Há um outro debate que se anuncia a propósito da memória colectiva europeia. É o debate sobre se se deve colocar, ou não, no mesmo plano, os crimes comunistas e os crimes nazis. Qual é a sua posição sobre este debate anunciado?

BG: Creio que uma condenação de ambos é necessária para o futuro da Europa. De outra forma, a Europa não pode ter este conjunto sólido de referências. Os regimes totalitários têm de ser condenados de uma forma clara. O genocídio praticado por estes regimes tem também de ser condenado, como qualquer outro genocídio. Tenho a minha história pessoal, que me ajuda a compreender as diferenças entre os dois regimes totalitários. Lembro-me, em criança, em 1945, de ver os exércitos soviético e alemão expulsarem os alemães. Fiquei feliz, tive um sentimento de libertação. Foi um exército que eu recebi como um exército de libertação. Isso não muda nem a minha opinião nem a minha condenação do regime totalitário. Uns e outros – o negro de um lado e o vermelho, o império soviético, do outro.