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Jacques Delors quer parar de falar de "Constituição", está desiludido com a campanha presidencial em França e defende que os franceses devem votar outra vez em referendo

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Jacques Delors quer parar de falar de "Constituição", está desiludido com a campanha presidencial em França e defende que os franceses devem votar outra vez em referendo

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Jacques Delors, presidente da Comissão Europeia durante três mandatos, de 1985 a 94, é o pai do Acto Único que conduziu à união monetária, é também o grande impulsionador do Tratado De Maastrischt. É agora presidente do Conselho para o Emprego e Coesão Social e deu à Euronews a sua própria perspectiva sobre o futuro da União Europeia.

Fred Bouchard: Celebramos o Tratado de Roma dentro de alguns dias, na sua opinião em que estado está a União Europeia

Jacques Delors: O balanço é muito positivo pois estabelecemos um espaço de paz e sobretudo de compreensão mútua e cooperação entre os povos, é algo que não é simples de concretizar no mundo de hoje. Em segundo lugar, em vez de termos braços-de-ferro diplomáticos sempre que há dificuldades nas relações económicas e comerciais entre os países, o que temos são regras de direito, e isso é único na história mundial. Os países soberanos exercem em conjunto uma parte da sua soberania tendo em conta essas regras de direito.
E em 50 anos, todos os nossos países foram estimulados pela perspectiva do mercado comum e puderam não só reconstruir-se como modernizar-se e adaptar-se. Mas uma vez mais, como já aconteceu na nossa história, está num período de crise.

F.B.:Mas como relançar a União Europeia? Podemos fazê-lo pela via social?

J.D.:Há sem dúvida uma dimensão social a clarificar, mas o problema não é esse. O problema já surgiu várias vezes no seio da União: há 20 países que aceitaram o Tratado, há dois que recusaram, e há cinco que olham a questão de uma atitude euro-ceptica. Por isso, seria demasiado ppretencioso da minha parte dizer “aqui está a solução milagrosa”, pois a experiência diz-me que perante uma situação destas, é preciso debater, colocar as duas partes frente-a-frente e, a pouco e pouco, no meio da discussão é que surge o compromisso, um compromisso dinâmico, não um compromisso que faça recuar a Europa.

F.B.: E se a política do compromisso funciona mais ou menos a 15, será que pode funcionar a 27?

J.D.: Sim, porque se avançarmos, se as posições se aproximarem, depois ninguém vai querer assumir a responsabilidade do prolongamento da crise e cada um terá em conta também a antiguidade no seio da União.

F.B.:Ok, mas o eu é se pode fazer agora com o Texto Constitucional?

J.D.: Tendo em conta o que vimos na Convenção, se partirmos do zero, ou seja, de uma folha em branco, vai ser difícil conciliar pontos de vista. Portanto, não podemos recomeçar do zero. O que é preciso fazer é pegar em alguns pontos do projecto de Tratado e deixar de lhe chamar Constituição porque isso traz confusão… É aliás essa uma das razões do Não francês. Muitos acreditaram que a Europa era plena de poderes, mas, por exemplo, o desemprego em França depende da política nacional e não da União Euroepeia. Resumindo, é preciso ter em conta alguns elementos úteis…

F.B.:E se não conseguirmos fazer esta reforma para fazer a União Europeia funcionar a 27?

J.D.: Se isso acontecer, infelizmente, deverá ser mais ou menos assim: os chefes de governo, homens de experiência, vão começar a fazer contas e a união vai começar a arruinar-se, as regras serão de menos em menos respeitadas, vamos perder o nosso dinamismo, a nossa capacidade de nos defendermos dos grandes acordos comerciais.
Será que teremos sempre a coragem de ajudar os países mais pobres, já que somos os primeiros no apoio ao desenvolvimento e ajuda humanitária? Eu penso que uma estagnação durável só pode traduzir-se num recuo e não pela consolidação do que já foi adquirido.

F.B.: Como está a encarar a campanha para as presidenciais em França e a atenção que os candidatos dão à Europa nos discursos?

J.D.: Estou desiludido, não posso dizer mais do que isso.

F.B: É preciso fazer um novo referendo em França?

J.D.: Sim, parece-me que sim. Pedimos a opinião dos cidadãos uma vez, houve um grande debate, o Não ganhou, ao contrário do que eu esperava. E se houver um novo tratado, ele deve ser apresentado aos franceses para que o assunto seja debatido, e isso vai obrigar-nos a explicar, explicar, mas também vai fazer-nos escutar.

F.B: A Europa está verdadeiramente parada ou é um exagero utilizar a expressão?

J.D: Há cerca de um ano falei em “coma ligeiro”, mas apercebo-me que o Conselho europeu, os chefes de Estado, estão agora de acordo em determinadas questões de médio-longo prazo como a política energética, isso prova que é possível mudar.