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Alain Minc: "Vivemos numa monarquia absoluta"


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Alain Minc: "Vivemos numa monarquia absoluta"

Alain Minc é presidente do Conselho de Administração do jornal Le Monde. Com uma larga carreira na gestão de empresas, é também um dos pensadores mais respeitados em França, com uma extensa obra publicada.

Em 2001, viu-se envolvido num escândalo de plágio, mas isso pouco afectou a reputação deste diplomado pela prestigiosa escola superior ENA. Além das funções que desempenha no Le Monde, Minc apresenta também um programa de televisão.

A EuroNews foi falar com ele sobre a França e o futuro da Constituição Europeia.

Sergio Cantone, EuroNews: O senhor pensa que a França soube posicionar-se no debate, nesta dialéctica Europa social – Europa liberal, nestes últimos anos?

Alain Minc: Com certeza que a mitologia Europa social-Europa liberal desempenhou um papel importante no não no referendo. Isso é evidente. Mas os franceses enganaram-se e não foi a primeira vez. Há uma derrapagem do espírito colectivo francês desde há 12 anos. Digo 12 anos porque, como que por acaso, isso coincide com a chegada ao poder de Jacques Chirac.

Os franceses, que tinham aceite o mercado, as regras do jogo, a globalização, voltaram atrás… por que razão? Porque vivemos em desequilíbrio desde 1995 – e isso é um problema de política interna. A direita francesa colocou no poder, em 95, uma pessoa que não é de direita.

EN: Então, será que tudo isso teve um reflexo negativo no papel da França na Europa? A influência francesa foi sempre muito importante…

AM: Evidentemente! Como lhe disse. Os franceses estão ausentes e vão ter que expiar esse crime. Tudo o que têm a fazer é tornar-se melhores construtores da Europa. Mais modernos, menos decisivos, menos arrogantes. E depois devem propor uma solução de saída da crise.

EN: O senhor refere-se a uma crise ligada ao “não” ao referendo…

AM: Penso que os franceses começam a medir os efeitos devastadores desta atitude suicida e que é preciso um esforço empírico para saír dela.

Este é um debate muito interessante, nas presidenciais. Entre os três principais candidatos, há dois, Segolène Royal e François Bayrou, que dizem que só um novo referendo pode refazer aquilo que um referendo anterior desfez. É uma concepção que eu considero muito perigosa, porque nos expomos ao risco de um novo não, que será definitivo e devastador.

Acho que a posição de Sarkozy, deste ponto de vista, é bastante mais pró-europeia. O que diz ele? Fala de um mini-tratado, mas isso apenas por razões de consumo político.

EN: Mas não acha que, paradoxalmente, isso pode dar argumentos aos que são contra, de um ponto de vista da esquerda ou da extrema-esquerda… que são contra a União Europeia porque a vêem como um espantalho que encarna a globalização?

AM: O que é que protegeu, de certa forma, esta Europa do resto do Mundo? Onde está a preferência comunitária, usando as mesmas palavras que são usadas na campanha francesa?

O euro. Se não houvesse euro, os maus alunos da Europa, que por acaso são os três principais países da Europa Continental (França, Alemanha e Itália), teriam mergulhado em grandes crises de recessão.

Se a Europa é liberal, no seu seio, está relativamente protegida do exterior. Devemos considerar que é um modelo de sucesso.

EN: Na verdade, a verdadeira polémica entre a França, ou uma certa França, e a Europa, está ligada, mais que à Constituição, a questões concretas…

AM: Penso que há um enorme problema em termos de política de concorrência. Ou seja, penso que, face às ameaças que circundam a Europa, precisamos de constituir gigantes europeus e, por isso, precisamos de nos adaptar minimamente às exigências da concorrência interna. Vivemos num mundo onde o controlo das empresas é o campo de uma batalha estratégica.

EN: O patriotismo económico é uma resposta a tudo isso?

AM: O patriotismo económico à escala de um país é a maior idiotice que se pode inventar. O patriotismo económico à escala europeia é uma necessidade.

Tudo o que tenha a ver com transferências de poder para a Comissão Europeia satisfaz-me plenamente.

Sou, por exemplo, a favor de algo que hoje está completamente afastado. Deve haver uma “golden share” que proteja as empresas energéticas europeias de eventuais tomadas de controlo por parte de empresas não-europeias. A meu ver, esta “golden share” deve estar nas mãos da Comissão.

EN: Mas isso não deixa de ser proteccionismo…

AM: Digo simplesmente que é preciso protegermo-nos dos países que não respeitam as leis da reciprocidade. Isso quer dizer que não temos que nos proteger dos indianos, nem dos brasileiros, mas temos que nos defender dos russos e dos chineses.

EN: Pensa que uma França com um novo presidente que faça propostas como essas aos parceiros da União é capaz de recuperar o terreno perdido em termos de influência?

AM: A França só pode recuperar esse lugar importante, no que toca às propostas, quando resolver o imbróglio gerado a respeito da Constituição.

Há um preço a pagar para saír do mal que fizémos. Uma vez pago esse preço, podemos voltar a ter uma força de proposta. Miterrand teve um sucessor (Chirac) que nunca foi um verdadeiro europeu, que foi sempre incapaz de fazer um sacrifício, por pequeno que seja, em nome da Europa. Ele confundiu a Europa com a defesa dos agricultores da região dele.

O problema das instituições francesas é que vivemos numa monarquia absoluta. Se nos enganamos de rei, pagamos caro.

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