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Calin Popescu Tariceanu: "A luta contra a corrupção não pode ser feita por uma pessoa. Tem de ser feita através da justiça"

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Calin Popescu Tariceanu: "A luta contra a corrupção não pode ser feita por uma pessoa. Tem de ser feita através da justiça"

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Cinco meses depois da adesão da Roménia à União Europeia, o Primeiro-Ministro Calin Popescu Tariceanu tem entre mãos uma crise política. O parlamento romeno suspendeu o mandato do presidente do país, Traian Basescu, sob acusacões de abuso de poder e desrespeito à constituição. Entretanto, a 19 de Maio, um referendo nacional poderá dar de novo o poder ao presidente. Em entrevista, o Primeiro-Ministro Popescu Tariceanu responde as questões da Euronews, numa altura em que a Roménia, recém-chegada à União Europeia, atravessa uma fase de redefinição política.

Euronews: Senhor Primeiro-Ministro Tariceanu, qual é a situação actual na Roménia?

Calin Popescu Tariceanu:Depois da adesão à União Europeia, seria bom que os esforços se centrassem numa integração rápida e de sucesso para a Roménia. Eu tentei muitas vezes, através de apelos públicos, conjugar pacificamente os actores políticos implicados neste processo. De um lado o Presidente, do outro os partidos políticos. Havia que deixar de lado esta disputa, para salvaguardar os interesses da Roménia. Infelizmente, não consegui cumprir esse objectivo. O comportamento conflituoso que caracteriza o contributo político do Presidente não ajudou. O Presidente Basescu conseguiu entrar em conflito com o Parlamento, com o Conselho Superior de Magistratura, com o Governo…. Todos estes acontecimentos foram determinantes para a reacção do parlamento, que suspendeu o mandato do Presidente.

Euronews: Qual é o objectivo destas múltiplas… guerras?

Calin Popescu Tariceanu: Essa é uma questão que devia fazer a Traian Basescu. Ele teve… ele teve a oportunidade, nestes dois anos que passaram, de modificar e aperfeiçoar o seu comportamento politico, apesar de mostrar desde o inicio uma grande tendência para o conflito. Acho que… com um passado político como o dele, (foi membro do Partido Comunista antes dos anos 90, social democrata depois disso, membro, com a formação política que dirigiu, do grupo popular Europeu) … ele passou por todas as facções politicas. Depois deste percurso, ele não fez mais que abraçar o perfil de um homem demagogo, populista e anti-europeu. Um perfil que ainda se vê muito nos paises da antiga União Sovietica.

Euronews: Anti-europeu: essa é uma acusação grave…

Calin Popescu Tariceanu: Felizmente, esse não é um perfil que queiramos ver transparecer para a União Europeia. A União Europeia constrói-se através de instituições fortes e não com pessoas que apresentam discursos demagógicos e populistas…

Euronews: Mas o discurso do presidente, e peço desculpa por o interromper, não será :“eu faço o que faço para que as instituições na Roménia sejam fortes, para que a justiça seja independente”?

Calin Popescu Tariceanu: Essas não são as tarefas do Presidente. E é esse precisamente o discurso populista e demagógico de que falava. A Roménia entrou na União Europeia porque conseguiu desenvolver instituições capazes de respeitar os compromissos assumidos e de cumprir os critérios da adesão à União Europeia. A luta contra a corrupção não pode ser feita por uma só pessoa, quer seja o Presidente, quer seja qualquer outra. A luta contra a corrupção tem de ser feita pela justiça.

Euronews: Sim. Então porque é que afastou da chefia do Ministério da Justiça, Monica Macovei, um nome que Bruxelas associa à grande maioria das reformas na luta contra a corrupção?

Calin Popescu Tariceanu: A senhora Monica Macovei pertencia ao Partido Democrata, que já não faz parte do governo, depois da remodelação política levada a cabo. Essa não foi uma medida direccionada para ela exclusivamente.
Em segundo lugar… Saiba que o sucesso da luta contra a corrupção não está ligado a Monica Macovei. Deve ter em conta que Monica Macovei fez parte de um governo que só a manteve no poder para que ela pudesse desenvolver certos projectos de lei, que foram os pilares do governo anterior.

Euronews: Qual é o efeito desta crise politica no processo de pós-adesão da Roménia na União Europeia?

Calin Popescu Tariceanu: O governo não foi afectado por esta crise. Nós temos respeitado os compromissos feitos. O exemplo mais flagrante foi a aprovação no parlamento da lei para a organização e funcionamento da Agência Nacional para a Integridade. Esse era um dos quatro objectivos estabelecidos no final do ano passado com a Comissão Europeia, no âmbito da Justiça e da Administração interna. A nível económico, a crise política também não teve consequências. Os investidores estrangeiros continuam a investir na Roménia, o que prova que este conflito politico não criou uma imagem de destabilização, como a Roménia teria há 10 anos, se passasse por uma situação parecida.

Euronews: Estamos à espera dos resultados do referendo, que terão efeito no dia 20 de Maio. Os romenos invalidam a suspensão do presidente e ele pode voltar a exercer funções. O que fará se isto acontecer? É possivel um entendimento com o presidente Traian Basescu?

Calin Popescu Tariceanu: O governo e o Primeiro-Ministro têm uma série de ligações com a Presidência, ligações essas que eu pretendo respeitar, como sempre fiz, desde o início do meu mandato.

Euronews: O que lhe parece ser absolutamente necessário para que a Roménia possa sair do impasse politico em que se encontra?

Calin Popescu Tariceanu: Se o presidente voltar às suas funções, não vejo o futuro com grande optimismo. Porquê? Porque ele tem uma débil capacidade de aprender com os erros do passado. É provavel que mantenha o mesmo comportamento.
Penso que se esta situação se confirmar, depois de 20 de Maio, muitas instituições… e muitos líderes políticos poderão negligenciar ou mesmo ignorar o presidente.

Euronews: Existe, no entanto, uma variável que não mencionou, mas que é decisiva: os eleitores. As sondagens apontam o presidente Traian Basescu como favorito.

Calin Popescu Tariceanu: Veremos, no dia 19 de Maio.

Euronews: Muito obrigado.

Calin Popescu Tariceanu: Eu é que agradeço.