Última hora

Última hora

Embaixador russo na UE: "A carta energética pertence a outra época"

Em leitura:

Embaixador russo na UE: "A carta energética pertence a outra época"

Tamanho do texto Aa Aa

A cimeira União Europeia-Rússia, que vai ter como palco a cidade de Samara, este fim-de-semana, deve ser um dos mais duros encontros entre os dois blocos, desde o fim da guerra fria. São várias as razões de desentendimento entre Moscovo e Bruxelas, desde o estatuto do Kosovo ao tema da energia, passando pelos direitos humanos. Em entrevista exclusiva à EuroNews, o embaixador russo junto da União Europeia, Vladimir Chizhov, falou sobre as posições que Moscovo vai defender na cimeira.

Sergio Cantone, EuroNews: Os tópicos da cimeira são, na verdade, os mais importantes na agenda internacional. Por exemplo, o tema do Kosovo vai ser levantado e, no entanto, este não é um assunto que faça a unanimidade entre a Rússia e a União Europeia…

Vladimir Chizhov, embaixador russo na União Europeia: Permita-me discordar. Não penso que a União Europeia tenha uma posição clara relativamente ao Kosovo, isso seria estar a exagerar. Mas há, de facto, diferenças no que toca ás tácticas para resolver este conflito.

EuroNews: O que quer dizer com tácticas? Isto é uma questão de estratégias, e não de tácticas, não acha?

Vladimir Chizhov: Diria que a estratégia é algo que nós partilhamos: temos um Kosovo em paz, estável e democrático. Isso é a base para ambas as visões, a russa e a da União Europeia, e para todos os outros envolvidos.Como atingir isso? Penso que só uma solução negociada é viável. Uma solução imposta não pode, simplesmente, funcionar.

EuroNews: Pensa que Belgrado e Moscovo podem aceitar, também, a independência do Kosovo, no fim do processo?

Vladimir Chizhov: Há muitas vias. Estamos a trabalhar activamente. A Rússia não está parada, sentada, a dizer que não há independência e ponto final. O que acontece é que não vemos nenhuma razão para a comunidade internacional ter tanta pressa para encontrar uma solução rápida. É muito complicado querer chegar a soluções rápidas.

EuroNews: Acha que o plano Ahtissari morreu?

Vladimir Chizhov: Morto ou vivo, não é a melhor base para uma solução para o Kosovo.

EuroNews: Digamos que está ferido com gravidade…

Vladimir Chizhov: Bem… o que eu digo é que as pessoas envolvidas no processo talvez devessem procurar uma melhor solução.

EuroNews: Outro ponto nesta cimeira é a questão energética, que está directamente ligada ao acordo de parceria e cooperação, que ainda não foi assinado.

Vladimir Chizhov: As negociações não puderam começar por causa de um veto, imposto por um Estado-membro à aprovação do mandato negocial da Comissão Europeia, que vai ser o nosso parceiro nestas negociações.

EuroNews: Mas como imagina um acordo como este, de cooperação e parceria, havendo um embargo a produtos vindos de um Estado-membro da União?

Vladimir Chizhov: Esse embargo é completamente justificado. Tanto a Comissão Europeia como as autoridades polacas têm plena consciência disso. O verdadeiro problema não é a carne polaca em si. Não é a carne produzida pelos criadores polacos. O problema é um mecanismo de controlo inadequado que existe na Polónia e noutros países. É, de certa forma, um problema de toda a União Europeia, uma vez que a União está construída de forma a proteger-se de qualquer produto potencialmente perigoso que entre. Por isso, os controlos estão focalizados nas importações e são muito menos apertados no que toca ao que sai da União.

EuroNews: Todos estes Estados-membros estão mais interessados em ter boas relações com a Rússia por causa dos problemas com a energia. Acha que pode acontecer algo novo, em Samara, no que toca à energia?

Vladimir Chizhov: Bem, eu penso que o diálogo energético é um elemento importante no que toca às relações entre a Rússia e a União. Mas quando falamos de segurança energética, trata-se de uma noção completa, que inclui a segurança da oferta, a segurança da procura e, no meio, a segurança do transporte.

EuroNews: Há países que estão dispostos a abrir os mercados aos operadores russos, como a Gazprom e outras importantes empresas de petróleo e gás. Acha que uma ideia mais clara neste ponto, por parte da União Europeia, pode libertar o caminho para a Rússia ratificar a carta energética?

Vladimir Chizhov: A energia é um sector muito específico da economia, que requer grandes investimentos, a longo prazo. Basear este sector apenas na liberalização talvez não produza os resultados pretendidos em termos de preços para os consumidores. Acredito que devemos olhar para o futuro, neste aspecto, em vez de olharmos para trás, para o tratado da carta energética. Há alguns princípios sobre os quais é possível concordar e que podem reflectir-se no futuro tratado de parceria estratégica. Alguns desses princípios reflectem a carta energética. Outros estão mais avançados e evitam esse rodar em torno de um documento que, eu diria, pertence já a uma outra época.