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Vitivinicultores engolem mal a reforma dos vinhos

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Vitivinicultores engolem mal a reforma dos vinhos

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Vai ser uma reforma arrancada a ferros, a do vinho. Os vitivinicultores não gostam do texto preparado pela Comissão Europeia, cuja pedra de toque é o arranque das vinhas menos produtivas.

O vale da Mosela, no Luxemburgo, é uma das regiões vitivinícolas mais setentrionais da Europa. Trata-se de uma banda de 42 quilómetros de vinhas com um microclima particularmente ameno. Para os vitivinicultores locais, como Frank Linster, nem pensar em arrancar as cepas. “A nossa vinha é pequena mas produz o suficiente para vendermos. Com a nossa produção podemos responder às necessidades do nosso mercado. Não vemos qual o interesse de arrancar vinhas na nossa região,” remata.

A pressão do sector já levou a Comissão a fazer marcha atrás. Inicialmente, Bruxelas previa o arranque de 400 mil hectares de vinhas, agora propõe apenas entre 140 mil e 200 mil. Mas Bruxelas quer também acabar com os subsídios ao mosto, que, até agora, beneficiam o Sul, e pôr fim à chaptalização, isto é, à adição de açúcar no vinho, técnica usada pelos produtores do Norte para aumentar o teor alcoólico, na falta de uma boa exposição solar.

Para o presidente da câmara de agricultores do Luxemburgo, Robert Lay, a medida não é justa: “Querem proibir a adição de açúcar porque, no Sul, vão suprimir as subvenções ao mosto concentrado. Mas isso vai aumentar os custos de produção na nossa região.”

O mosto, actualmente subvencionado por Bruxelas, é usado pelos países do Sul para a fermentação e a etilização do vinho. Assim, tanto os países do Norte como os do Sul aceitam mal a reforma comunitária.

Portugal, Espanha, França ou Itália, por exemplo, vêem como bons olhos o fim da chaptalização, mas o facto de terem de arrancar uma parte das suas vinhas parece-lhes incoerente, como se depreende das palavras do eurodeputado verde espanhol, David Hammerstein: “Há uma ligação entre o arranque e o açúcar. Querem eliminar uma grande parte da produção no Sul da Europa, que é a produção mais natural, e querem tornar a Europa muito mais dependente da importação de mostos vindos de fora da Europa, da importação de vinhos de fora da Europa.”

Esta visão de guerra norte-sul é rejeitada pelo analista Andreas Schneider. Para este especialista em políticas vitivinícolas está em causa a qualidade: “Na realidade, o vinho deve ser um produto natural que não precisa de açúcar para o enriquecer. Se um produtor não consegue produzir um vinho correcto sem açúcar, então não deveria produzir. E penso que parte do problema, na Europa, é o facto de que temos demasiados vinhos de mesa.”

O vinho de mesa é a denominação dada aos vinhos de pior qualidade. Quando não consegue ser vendido, Bruxelas subvenciona a chamada destilação de crise. Mas a Comissão quer pôr fim a esta prática, que consiste na transformação destes vinhos excedentários em álcool utilizado depois na produção de bebidas espirituosas, e que consome um terço do orçamento comunitário do sector, de um total de 1,3 mil milhões de euros.