Última hora

Última hora

Presidente da UCI garante que a breve prazo o doping vai desaparecer do ciclismo

Em leitura:

Presidente da UCI garante que a breve prazo o doping vai desaparecer do ciclismo

Tamanho do texto Aa Aa

Numa entrevista exclusiva à Euronews, Pat McQuaid defende-se das críticas dos organizadores do Tour de France e diz que quer continuar a colaborar com os responsáveis da prova para acabar com os casos de dopagem.

Nunca na história de um desporto, houve uma competição envolta em tanta polémica. Nas últimas três semanas, a credibilidade do Tour foi atirada para a lama nas imagens e títulos dos jornais, um pouco por todo o mundo. O ciclismo está sob suspeita e a ser, literalmente, visto ao microscópio.

Pat McQuaid é o presidente da União Ciclista Internacional, o homem com a responsabilidade de limpar o nome deste desporto.

Euronews – As últimas notícias sobre a Volta à França dão conta de que mais uma estrela do ciclismo testou positivo à EPO, Iban Mayo. Qual é a reacção da UCI a esta notícia?

Pat McQuaid – “É de choque e de tristeza que mais uma grande estrela tenha sido apanhada, mas por outro lado também temos alguma satisfação por comprovar que o sistema funciona, que os testes e os controlos que fazemos apanham os batoteiros para nos vermos livre deles.”

Euronews – “Parece-me improvável que alguém com o conhecimento deste desporto como Iban Mayo, tenha recorrido a algo que é hoje tão facilmente detectável como a EPO.”

Pat McQuaid – “Pois parece e mostra os ciclistas podem ser tontos, mas também revela a pressão do Tour de France, a maior corrida do mundo. É o evento onde todos os ciclistas querem estar e para os corredores mais velhos, pode ser a última oportunidade de alcançar um bom resultado nesta prova, por isso estão preparados correr riscos.”

Euronews – “De acordo com a UCI, o dinamarquês Michael Rasmunsen estava apto para competir no Tour. O que é que provocou então a sua saída do Tour, quando estava de camisola amarela e quase a ganhar a prova?”

Pat McQuaid – “Essa decisão foi simples. Foi porque a sua equipa descobriu que na altura em que ele dizia que estava no México a treinar, ele foi visto por um ex-ciclista italiano e agora comentador, David Cassini, a treinar nas montanhas Dolomitas, em Itália. Ele deu informações incorrectas à sua equipa e à UCI sobre o seu paradeiro. Ele mentiu à equipa e nesse sentido é o mesmo que fazer batota. A equipa decidiu que não podia aceitar isso, perdeu a confiança nele e tirou-o da corrida.”

Euronews – “No último fim-de-semana, perante milhões de telespectadores, a associação que organiza o Tour de France, a ASO, acusou a UCI de incompetência e pediu a sua demissão. Qual a sua resposta para esta crítica pública”

Pat McQuaid – “Não a aceito de todo. Nem no que me toca, nem no que diz respeito à UCI e não compreendo porque disseram isso. Acredito que estivessem sob muita pressão e se tenham deixado levar pelas emoções porque tudo estava a acontecer nos últimos dias do Tour e talvez isso os tenha influenciado.
Mas como podem dizer que a UCI é incompetente quando é a UCI que faz os controlos anti-doping no Tour de France, é a UCI que apanha os batoteiros e os expulsa do ciclismo?
Estavam à procura de um bode expiatório. Eles tinham uma estratégia, não há dúvidas sobre isso. Nos últimos anos, a UCI tem desenvolvido este desporto e feito um bom trabalho por todo o mundo. Isto é uma ameaça para a ASO. Eles sentem que é uma ameaça para o Tour de France, erradamente, posso acrescentar.

Euronews – “A UCI foi criticada recentemente pela ASO mas também pelo presidente da WADA, a agência mundial anti-dopagem. Dick Pound disse que os vossos controlos são insuficientes. Vocês fazem controlos ao camisola amarela, ao vencedor da etapa e a alguns ciclistas escolhidos ao acaso do pelotão de 150-200 corredores. Qual é a sua resposta às criticas de Dick Pound?”

Pat McQuaid – “Bem, em primeiro lugar o Dick Pound criticou-nos o ano passado por não fazermos controlos suficientes fora das competições, porque ele e a WADA disseram que essa é a melhor altura para apanharmos os batoteiros, no período de preparação.
Por isso, este ano, instituímos muitos mais controlos fora das competições. Fizemos 180 nas seis semanas que antecederam o início do Tour, o que foi mais que todos os controlos que realizámos no ano anterior. É na preparação que fazemos a maior parte dos testes. Durante a prova, além dos exemplos que citou, vamos aos hóteis e testamos 4 ou 5 equipas, qualquer coisa como 40 corredores por dia que fazem testes sanguíneos e os resultados desses controlos são conhecidos imediatamente. Se virmos que há qualquer coisa de anormal no sangue de algum ciclista, ele vai ser controlado no fim da etapa.

Euronews – Então no caso, por exemplo, do Iban Mayo, alguma coisa num teste precedente indiciou que ele poderia estar dopado?

Pat McQuaid – “Sim, esse poderá ter sido o caso.”

Euronews – “Vai estar envolvido no Tour de France nos próximos anos?”

Pat McQuaid – “Espero que sim e faço tenções disso. Sei que houve algumas declarações feitas durante o Tour que fazem parte, de alguma forma, da estratégia da ASO de enfraquecer a UCI. Mas também houve muitas que foram feitas de cabeça quente e acho que nas próximas semanas, quando toda a gente se acalmar, eles vão compreender que temos de trabalhar juntos para o bem deste desporto.

Euronews – “Pensa que o ciclismo é o campo de batalha onde se vai concentrar a luta contra o doping?”

Pat McQuaid – “Acho que é com certeza o terreno onde se concentra essa luta neste momento porque somos os que estamos na frente de batalha. Somos os que estamos a ter uma enorme publicidade e o facto de termos tido dois casos positivos na última semana do Tour quando havia cerca de mil e duzentos media a acompanhar a corrida, fez as coisas saírem de proporção.

Euronews – “Então o ciclismo está a deixar o lado negro em direcção à luz, por assim dizer.”

Pat McQuaid – “Concordo plenamente consigo e quando fui eleito presidente da UCI, há dois anos, disse sem meias palavras que tem havido uma cultura de doping no ciclismo.”

Euronews – “Digamos que eu sou um jovem ciclista. Estou a perder corridas, quero mudar as coisas, tomo uns produtos para melhorar o meu rendimento, qual é o caminho habitual nestas coisas?”

Pat McQuaid – “A um nível de topo, temos situações como a do Doutor Fuentes, em Espanha, que tinha uma clientela calculada em 60 ou 70 atletas, não apenas de ciclistas mas também de outros desportos. Ele cobrava qualquer coisa como 30 ou 40 mil euros por cliente para um tratamento onde lhes retirava sangue, o manipulava com um ou outro produto e depois o re-injectava de novo nos atletas.
É uma forma muito sofisticada de doping. O doping no desporto não é muito diferente do doping na sociedade. Existe um grupo mafioso por trás que fornece as drogas às crianças nas ruas e acontece o mesmo no desporto.”

Euronews – “Tem sido um ano de expurgação para o Tour. Acha que o ciclismo vai conseguir sair num estado melhor desta nuvem negra?”

Pat McQuaid – “O Tour já teve outros períodos negros no passado e conseguiu sempre sair deles. Tem mais de 104 anos e é uma instituição em França. O ciclismo vai de certeza melhorar, há muitas provas disso. Vemos evidências de que está a melhorar, de que está a mudar e nós temos de continuar a assegurarmo-nos de que a mudança acontece. Nestes últimos dois anos o ciclismo levou um golpe tão forte por causa destes escândalos que penso que toda a gente no desporto percebeu que já chega. Não se pode fechar os olhos a nada. Temos de ter tolerância zero.”

Euronews – “Então os pais, cujo filho de 12 anos pratica ciclismo, não têm motivos para se preocupar que o filho se envolva em actividades ilegais?”

Pat McQuaid – “Não. Acho que dentro de alguns anos o doping sairá completamente do ciclismo, acredito piamente nisto. É um desporto maravilhoso para ser praticado por qualquer criança e do qual não vão tirar nada a não ser divertir-se. Mas se tiverem sucesso e fizerem uma carreira de ciclistas então também será bom.”