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O novo feiticeiro de OZ...Amos: o mago das palavras

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O novo feiticeiro de OZ...Amos: o mago das palavras

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Amos Oz – Se tivesse que lhe falar numa palavra sobre a minha literatura, eu diria “famílias”. Se mo pedisse em duas palavras, eu diria “famílias infelizes”. Se me desse três palavras, eu dir-lhe ia para ler o meu trabalho.

EuroNews – É assim que Amos Oz resume a sua obra, a obra de um escritor israelita com livros traduzidos em 35 línguas e intelectual entre os mais influentes do país. A última recompensa foi o Prémio Príncipe das Astúrias 2007 de Letras.
Oz é autor de uma vintena de romances sobre a natureza humana e os laços familiares, sempre com o atormentado Estado de Israel como pano de fundo.
No percurso do escritor o envolvimento político e literário foi igual. Sempre defendeu a solução de dois Estados na região para resolver o conflito israelo-palestiniano e foi um crítico da colonização. Foi um dos fundadores do movimento Paz Agora, em 1978.

A identidade de Israel no centro desta entrevista, em Arad, no deserto do Negev.

EN – O que é este país agora?

AO – É uma história complexa. Israel era um sonho, um sonho que se tornou realidade: asim como desapontamento. Os sonhos só se mantêm de um rosa perfeito enquanto não se realizam. Logo que se realiza um sonho, ele é como que um desengano.

EN- Para os Media, Israel é um mau filme de cowboys Porque dão esta imagem de Israel?

AO- Os Media fazem o retrato do conflito entre israelitas e palestinianos a preto e branco. Mostram os israelitas a branco e os palestinos a negro, e outras vezes os israelitas a negro e os palestinianos a branco. Mas isto não é assunto de preto no branco. É um trágico conflito entre dois direitos legítimos. Os palestinianos estãop na Palestina porque não têm outra terra. Têm de dividir este país e concordar em dividir a casa em dois apartamentos. Não há alternativa.

EN – A existência recente de grupos neo-nazis entre os jovens israelitas de origem russa relançou o debate sobre o direito à nacionalidade israelita. Não estará na altura de Israel se virar um pouco para o que acontece em casa?

AO – Não estou muito preocupado com o facto de uma dúzia de jovens israelitas pintarem suásticas nos muros. São problemas sociais que existem em todas as sociedades, e não acho que se deva fazer, por isso, grande alarido.

EN – Até há alguns anos, era uma vergonha não integrar o exército. Agora, parece uma legítima vontade. Porquê?

AO – É um sintoma da normalização, parte do facto de que Israel existe há 59 anos, há muito tempo, e muitos não querem ser soldados.

EN – É humano? Não tem a ver com a situação política ou com a a guerra do Líbano?

AO – É a natureza humana, nem toda a gente quer ser soldado, em qualquer país é assim. Israel era especial porque havia uma ameaça real contra o Estado. Penso que ainda existe essa ameaça mas não me surpreende que alguns jovens israelitas não queiram ser militares.

EN – De acordo com uma declaração oficial recente, Israel tem na fronteira uma entidade hostil, a Gaza controlada pelo Hamas. Há, na realidade, uma situação diferente ou é uma guerra de palavras?

AO – Acho que o hamas é o primeiro e o pior dos desastres para os palestinianos. Este regime fundamentalista, muito similar ao dos taliban, no Afeganistão, está a oprimir os palestinianos em Gaza. É uma coisa terrível para os palestinianos.

EN – Na fronteira a norte temos a Síria. Podemos esperar um acordo realista?

AO – Penso que a Síria é, essencialmente, pragmática. Considero que Israel e a Síria podem chegar a uma solução realista porque o regime sírio é pragmático e secular. Eu não gosto desse regime, não penso que seja um bom regime, mas não é fanático.

EN – Se o presidente Ahmadinejad estivesse aqui, na sua frente, o que lhe diria?

AO – Vá-se embora! Esse homem fala como um nazi e trata Israel como um nazi, não quero o demónio em minha casa!

EN – Israel está pronto para a guerra, mas conseguirá enfrentar a paz?

AO – Penso que está sedento de paz. A vasta maioria de israelitas está cansada de guerra. E o mesmo se aplica aos palestinianos. E, deixe-me dizer, às vezes, o cansaço é a melhor solução para a crise, não apenas entre nações ou comunidades mas até dentro da família.

EN – Afirma que a Europa tem de parar com a atitude moralista e paternalista. E a Europa é um dos maiores parceiros económicos de Israel. Chmar-lhe-ia uma relação familiar difícil?

AO – As relações entre o povo judeu e a Europa serão sempre complicadas. Não nos deixam esquecer que os judeus foram as vítimas da Europa durante muitos séculos. Não nos deixam esquecer que a criação de Israel resultou, em parte, da vitimação dos judeus pela Europa. Mas os árabes também foram vítimas da Europa, não nos deixem esquecer também. O conflito entre judeus e árabes é um conflito entre duas vítimas da Europa, o que responsabiliza a Europa a ajudar ambas as partes, não para moralizar, não para apontar o dedo, assim, mas para ajudar ambas as partes, genuinamente.
Penso que os europeus têm uma espécie de tique quando fazem face a um conflito internacional: têm a tradição de fazer grandes manifestações contra os maus rapazes, assinando uma entusiástica petição a favor dos bons rapazes e dormirem a seguir o sono dos justos, muito satisfeitos consigo próprios.

EN – E o próximo livro? Top Secret. Oz prefere não falar disso… diz que os raio x podem afectar o bebé. E o livro que gostava de ter escrito? É o próximo, claro É a razão pela qual escreve.

- Quando era criança, sonhava ser um livro, mas não o escritor. Qual livro?

AO – É uma pergunta difícil, é como perguntar-me de qual filho gosto mais. Mas ficava feliz se fosse um livro de Chekhov, uma colecção de histórias de Chekov, porque é o meu ídolo e, de muitas maneiras, o meu mentor na literatura.

EN – Num dado momento da vida mudou de nome para OZ. É verdade que, se pudesse escolher agora, teria feito outra coisa?

AO – Talvez tivesse sido diferente. Quando tinha 14 anos, revoltei-me contra os valores do meu pai e decidi ser tudo o que o meu pai não era e não ser nada do que ele era. Ele era um intelectual, eu decidi tornar-me agricultor. Ele era professor, decidi ser motorista de tractor. Ele era pequeno e eu decidi ser suficientemente alto… não consegui, mas tentei.
E mudei o nome para Oz, que em hebreu significa força e coragem, que era o que eu mais precisava aos 14 anos quando me rebelei contra o meu pai. Agora já confio um pouco mais na minha força. não preciso tê-la no nome.