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Benita Ferrero-Waldner: "A Europa não é uma fortaleza"

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Benita Ferrero-Waldner: "A Europa não é uma fortaleza"

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A comissária europeia para as relações externas, Benita Ferrero-Waldner, foi diplomata e ministra dos Negócios Estrangeiros da Áustria. No próximo ano, tem uma grande agenda no que toca a reforçar a política de vizinhança da União Europeia. Essa política tem como base uma série de acordos bilaterais entre os Vinte e Sete e os vizinhos a Leste e Sul. Mas a política de vizinhança é também uma primeira tentativa de dar à Europa mais segurança no que toca a regiões ao mesmo tempo próximas e instáveis, como é o caso do Cáucaso, do Médio Oriente e do Norte de África. Há poucos anos, a Rússia rejeitou fazer parte desse sistema. Sergio Cantone, EuroNews: Sra. Commissária, bem-vinda à EuroNews. Tem alguma preocupação relativamente à situação na Rússia – à actual situação?

Benita Ferrero-Waldner, comissária europeia para as Relações Externas: Bem, deixe-me dizer-lhe o seguinte: deixei muito claro, depois das eleições, que todo o processo tem que ser levado em consideração. Nesse processo constatámos que o direito de associação e a liberdade dos media nem sempre estiveram presentes e isso foi confirmado pelo Conselho da Europa e pela OSCE, que se manifestaram contra.

EN: O que tem a dizer sobre as alegadas manipulações de boletins e abusos eleitorais?

BFW: Bem, só posso falar do que dizem os observadores. O que eles disseram foi que durante o processo, e no próprio dia das eleições, houve elementos negativos, por exemplo a detenção de opositores, de ONG e, de certa forma, fraude.

EN: A Europa parece não ter uma posição unânime. Como lida com essa situação, no seu papel de comissária?

BFW: Bem, antes do mais quero dizer que nós, como instituições da União Europeia, reagimos com a mesma mensagem e penso que isso é importante. Em segundo lugar, penso que a Rússia continua a ser um parceiro importante e um vizinho. A Rússia é um parceiro estratégico e estamos a trabalhar com ela, mas gostávamos de ver as próximas eleições presidenciais observadas pela OSCE de uma forma realmente apropriada.

EN: Mesmo olhando para o mapa, o espaço da vizinhança europeia corresponde ao que os russos chamavam, há alguns anos, o estrangeiro próximo…

BFW: Essa é a parte leste da nossa política de vizinhança. Sabe, a política de vizinhança diz respeito a todos os vizinhos da União alargada, o que significa que há também uma parte sul, que é o sul do Mediterrâneo, exceptuando o país candidato, que é a Turquia.

EN: O que pensa da União Mediterrânica, proposta pelo presidente francês Nicolas Sarkozy? Acha que pode ser complementar à política de vizinhança?

BFW: Acho que podemos ser favoráveis ao projecto, se aquilo que conseguimos até agora se mantiver – ou seja, o processo de Barcelona, a política de vizinhança e, em complemento, vamos ver o que pode ser feito para reforçar as políticas e trazer valor acrescentado.

EN: Por que razão vai 2008 ser importante, fundamental para a política de vizinhança?

BFW: Acho que vai ser muito importante, porque queremos que ela seja uma realidade para os cidadãos dos países parceiros, mas queremos também mostrar aos nossos cidadãos que ter mais estabilidade, mais prosperidade e mais segurança é algo que só pode ser conseguido se trabalharmos juntos. Pense nas migrações: se ajudarmos os países vizinhos, com certeza as pessoas vão preferir ficar nos seus países, criar lá empregos, conseguir a possibilidade de criar lá a família, em vez de virem para cá. Por isso, o tema da migração está muito ligado ao das melhores relações comerciais com esses países.

EN: É um segundo círculo de uma futura europa a duas velocidades? Segundo ou terceiro círculo…

BFW: Penso que o que queremos evitar são as linhas divisórias na Europa e com os vizinhos mais próximos. Queremos criar um círculo de amigos à nossa volta, mas amigos que estão na mesma linha, ao mesmo nível, por isso temos que ajudá-los a chegar ao mesmo nível que nós.

EN: Uma última questão: a União Europeia está também preocupada em não parecer uma fortaleza?

BFW: Absolutamente. Não só não queremos parecer uma fortaleza – não somos uma fortaleza. Queremos ver onde é que as pontes podem ser construídas. A política de vizinhança é uma ponte, bastante larga e firme, com os nossos vizinhos mais próximos.