Última hora

Última hora

Herdeira sem medo

Em leitura:

Herdeira sem medo

Tamanho do texto Aa Aa

Benazir Bhutto tinha regressado ao Paquistão em Outubro ao fim de 8 anos de exílio. Um momento cheio de emoção para a antiga primeira-ministra que, aos 54 anos, tencionava candidatar-se às eleições de Janeiro e tornar-se o símbolo do regresso da democracia ao país.

“As pessoas que vemos lá fora são a verdadeira imagem do Paquistão. Trata-se de pessoas decentes da classe operária e da classe média do Paquistão e que querem construir uma nação moderna onde todos são iguais. Este é o verdadeiro Paquistão e se vivermos em democracia este é o rosto do Paquistão que o mundo vai ver e não o rosto de extremistas que têm feito o que querem durante as ditaduras” – afirmou à chegada.

O regresso de Bhutto foi secretamente negociado com o regime militar do general Musharaf. A antiga primeira-ministra era detentora de uma legitimidade que permitia ao regime isolar os extremistas religiosos e levar a cabo uma luta contra o terrorismo islâmico.

Potencial aliada ou rival incómoda do general Musharraf? A resposta à questão parece estar na denuncia que fez, nomeadamente de que a bomba que visou o seu camião à chegada ao Paquistão tinha sido colocada por terroristas infiltrados na polícia.

Quase centena e meia de pessoas morreram quando se dirigiam para um comício de Benazir Bhutto junto à sepultura do fundador do Paquistão, Mohammad Ali Jinnah. Bhutto escapou ilesa a esse atentado. Um ataque que não perturbou determinação de uma mulher, cuja carreira política foi pautada por altos e baixos e que pertencia a uma dinastia política atingida pela fatalidade.

O seu pai, Zulfikar Ali Bhutto, foi o primeiro chefe de um governo civil após a independência. Em 1979 foi detido e executado sob as ordens do general Zia ul-Haq. “O meu pai customava dizer que o povo do Paquistão são os meus herdeiros políticos, os meus filhos e filhas” – recordou um dia a herdeira sem medo.

Depois de ter negociado com o regime, Bhutto adoptou uma atitude de confrontação com o general Musharraf. Uma mudança de estratégia que surpreendeu o poder mas também a oposição.