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Ernest-Antoine Seillière: "As empresas europeias são competitivas"

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Ernest-Antoine Seillière: "As empresas europeias são competitivas"

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Ele é o patrão dos patrões da União Europeia. Depois de sete anos na presidência do Medef, a mais importante organização patronal de França, o barão Ernest-Antoine Seillère dirige agora os destinos da BusinessEurope, a federação patronal europeia, com sede em Bruxelas. Em plena crise financeira, com o euro e o petróleo a tocarem em novos máximos, quisémos saber como é que as empresas europeias estão a aguentar o impacto.

Annibale Fracasso, EuroNews: Sr. Presidente Seillière, a crise financeira pode transformar-se numa crise económica à escala planetária. Parou o debate sobre a inflação, o poder de compra, a precariedade social e os problemas das empresas. Será que os governos estão prontos a assumir a necessidade de salvar os sistemas financeiro e bancário?

Ernest-Antoine Seillière: Sim, como sabe, é uma situação muito incerta. É essa incerteza que cria o problema, porque os meios económicos, quando não conhecem a amplitude nem a duração de uma crise, sentem-se pouco à-vontade e isso tem uma influência nos comportamentos. É, por isso, evidente que os governos estão cada vez mais preocupados e, sem dúvida, se a crise ganhar amplitude, isso vai tornar-se um caso de governos. Diria mesmo um caso de concertação internacional.

EN: As empresas europeias estão de boa saúde?

EAS: As empresas europeias são competitivas. Não há sombra de dúvida. Se elas não fossem competitivas, abririam falência ou seriam compradas por outras empresas.
Por isso, o sistema europeu é competitivo. Se a crise bancária não for ultrapassada e as incertezas e dificuldades persistirem, inevitavelmente isso vai traduzir-se numa redução da distribuição de créditos. Sabemos que a distribuição de crédito é o oxigénio das empresas.

EN: A propósito da crise monetária, o euro está perto de chegar a um dólar e 60. Os preços do petróleo mantêm-se acima dos 100 dólares por barril. Quais vão ser as consequências para as empresas europeias?

EAS: A alta do euro… a alta descontrolada do euro, que se intensifica, não é uma vantagem para a Europa, uma vez que penaliza as exportações em domínios particularmente sensíveis como a aeronáutica, a indústria ou o sector do luxo. Mas falemos das coisas como elas são: a subida no petróleo que é, ao mesmo tempo, um factor de inflação e de dificuldade económica, encontra na Europa uma compensação na força do euro. Pagaríamos pelo menos 40% mais pelo petróleo – e Deus sabe quanto importamos – se não houvesse esta diferença entre o euro e o dólar.

EN: Há grandes grupos industriais europeus que, para fazer face à subida do euro, anunciam possíveis deslocalizações. Será realmente a única solução possível?

EAS: Nos últimos cinco anos, em plena globalização, ao passo que o tema da deslocalização é constante, criámos na Europa nove milhões de empregos, e por isso temos o sentimento de que não podemos exagerar. No entanto, é o que se faz do ponto de vista político. As pessoas assustam as opiniões com a deslocalização. Há deslocalizações necessárias para assegurar a competição europeia e é preciso incluir o fabrico de certos produtos, feito noutros países a custos reduzidos. São as deslocalizações que mantêm, na Europa, sectores inteiros. Devemos, por isso, felicitar-nos pelo poder do crescimento desses países emergentes que nos trazem vantagens.

EN: Na Europa, os empregados pedem cada vez mais, eles também, uma participação nos lucros das empresas. Ao mesmo tempo, os industriais queixam-se de um sistema social demasiado rígido. Qual é a verdadeira contradição entre a Europa social e a Europa industrial?

EAS: Estamos muito orgulhosos do modelo europeu, que se pode resumir da maneira seguinte: quando há crescimento, uma parte desse crescimento vai para a organização da protecção social. Os países nórdicos deram o exemplo. Foi lá, aliás, que nasceu o conceito de flexissegurança. A palavra não é muito bonita, mas dá bem a endender o que quer dizer: proteger não o emprego, mas sim o empregado, de forma a que ele possa depressa encontrar outro emprego, se possível com formação, um emprego de melhor qualidade.

EN: Para fazer isso, já pensou que é preciso sacrificar a disciplina orçamental europeia, para aumentar o emprego e o crescimento?

EAS: Ouça, as empresas são categóricas. Não é aumentando os défices que podemos resolver seja o que for. Por isso, nós, as empresas, somos radicalmente contra a suavização do pacto de estabilidade e contra as facilidades que são dadas para não ter que se encarar a necessidade de fazer melhor.

EN: O senhor dirigiu o Medef (Movimento das empresas de França), que está hoje a passar por uma crise moral sem precedentes. Uma associação patronal pode comprar a paz social, pagando aos sindicatos?

EAS: De forma alguma. A reveleção de que uma federação membro do Medef se envolveu em práticas absolutamente arcaicas e condenáveis foi um choque para o patronato em França e para a opinião publica. A reacção do Medef e da federação em causa, a UMM, foi uma reacção perfeitamente rápida, sã e que defende um sistema transparente e moderno. Isso significa que essa história é passado. A meu ver, tudo isso está a diluir-se graças a iniciativas de qualidade. Para mim, que fui de certa maneira o criador do Medef, vê-lo reagir desta forma é mais um argumento para pensar que a instituição vai saír mais sólida desta crise.