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NATO e UE devem coexistir e reforçarem-se

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NATO e UE devem coexistir e reforçarem-se

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A cimeira de Bucareste vai dar oportunidade à NATO para tentar reduzir as divisões sobre questões cruciais. O secretário geral Jaap de Hoop Scheffer destaca questões como o fortalecimento dos destacamentos dos membros da Aliança Atlântica no Afeganistão, a defesa europeia, a adesão da Ucrânia e da Geórgia sem criar tensões com a Rússia.
Os Estados Unidos, Holanda, Reino Unido e Candá ponderam o aumento dos contingentes no Afeganistão.

EuroNews Sergio Cantone Brussels Correspondent, EuroNews – Senhor Secretário Geral da NATO: quando se fala segurança e defesa, o Ocidente continua a existir?

Jaap de Hoop Scheffer NATO Secretary General – O Ocidente, no sentido cultural, coopera cada vez mais. Veja-se por exemplo a missão da Nato no Afeganistão, com novos parceiros de todas as partes do mundo não ocidentais, no sentido tradicional.

E.N. – Mencionou o o Afeganistão, mas há uma enorme pressão para os Estados Unidos e a Nato participarem com mais tropas, porém, muitos países tentaram o contrário ´para não aumentar o número de efectivos ali.

J.H.S. – Como secretário-geral da NATO, claro, sou partidário de menos restrições às forças que vão intervir no Afeganistão; deve haver o mínimo de limitações nas respectivas missões, como chamamos a nível interno, restrições ao uso de força. Acho que há muitas limitações, e observando o nível de força usado, não estou completamente satisfeito, no entanto, estou pouco preocupado, porque muitas nações deram o passo em frente e agora, em Bucareste, voltamos a ver o mesmo.

E.N. – Que países…

J.H.S. – Apesar de não poder ser mais específico, o presidente francês deu claras indicações durante a visita a Londres sobre a possibilidade de a França incrementar o número já considerável de efectivos destacados no Afeganistão e outras nações também estão a aumentar o número de militares na região.

E.N. – Acerca do alargamento da NATO à Ucrânia e à Geórgia… esses países temem que alguns membros, principalmente membros ocidentais da NATO, se inclinem frente aos interesses da Rússia e tentem impedir o alargamento. O que pensa disso?

J.H.S. – Não estamos a falar da presença da Ucrânia e da Geórgia na NATO, estamos a falar da possibilidade de entrarem no chamado Plano de Acção dos Membros, mas o princípio da porta aberta da NATO é sagrado. A porta também está aberta para Ucrânia e a Georgia, se as populações e governos desses países o desejarem. Ou seja, a eles cabe decidir se o querem e aos 26 membros da NATO cabe decidir o alargamento.

E.N. – Como classifica as críticas da Rússia?

J.H.S. – Bem, não participo dessa atitude crítica; não a partilho por definição, porque podia implicar uma decisão não tomada pelos 26 aliados da NATO. Mas, em Moscovo – e os russos são nossos aliados – a percepção é de que esta é uma importante parceria. Temos um acordo de associação muito importante com a Rússia, temos o Conselho da NATO-Rússia, onde se discute tudo isto e, se essa for a percepção de Moscovo, havemos de manter o diálogo. Mas todos deviam estar conscientes de que a decisão final será tomada em Bruxelas pelos 26 membros da NATO

E.N. – O Kosovo, o escudo anti-mísseis, a Ucrânia e a Geórgia… são elementos que não estão a contribuir para as relações entre os Estados da NATO e a Rússia, não acha?

J.H.S.- Somos todos adultos, e as relações entre a NATO e a Rússia são relações entre adultos e são relações muito importantes, porque, sublinho, devem comprometer-nos com os russos e a eles connosco, com a NATO… só há uma palavra e essa é compromisso.

E.N. – Como?

J.H.S. – Participando nos mais complicados assuntos. Há uma discussão bilateral a decorrer, entre americanos e russos sobre a defesa de mísseis Também há um debate na NATO sobre a mesma questão e já discutimos o Kosovo, muitas vezes, no Conselho Rússia-NATO a nível diplomático aqui em Bruxelas. Assim, conversamos uns com os outros, tentamos perceber os argumentos, mas, percebendo isto, não se pode chegar ao fim do dia esperando que estejam todos de acordo e que nada corre mal. Quer dizer, a Rússia tem interesses, nós temos interesses, e a questão principal é como combinar estes interesses, se necessário, mas, por outro lado, a NATO decide sobre os seus próprios assuntos.

E.N. – Alguns membros ocidentais da NATO estarão interessados em criar uma zona neutral tampão, com a Ucrânia, Geórgia e Moldávia, entre a NATO e a Rússia.

J.H.S. – Não discutimos e não vejo a NATO a discutir uma zona neutral tampão … a guerra fria acabou e a velha noção de neutralidade acabou com ela… é muito menos relevante do que manter uma parceria importante com os russos.

E.N. – Considera possível ter ambas as defesas, europeia e da NATO?

J.H.S. – Penso que sim, mas não sou a favor do pilar europeu dentro da NATO, mas sim de uma cada vez maior Força Europeia com uma identidade de defesa e segurança, como é chamada, e, por definição, uma NATO também cada vez mais forte , porque cresceu ao longo dos 60 anos que festejamos actualmente e, na minha opinião, complementam-se.

E.N.- Considera importante esta aproximação entre a França e o Reino Unido, na perspectiva de ter uma estrutura de defesa militar Europeia e outra da NATO?

JHS – Sim, acho que a França e o Reino Unido são importantes peças. O Reino Unido tornou-se um importante membro da NATO assim como da União Europeia. E repito que é muito importante, se olhar para Londres ver também Paris e Berlim…eles chegaram a consenso sobre o conceito de manter uma segurança europeia e uma identidade de defesa e, por outro lado, o conceito de fortalecer a NATO, porque são todos importantes membros da NATO. Não vamos inventar a roda na União Europeia: complementaridade e não duplicação são as palavras-chave aqui.