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Líder bielorrusso da oposição procura apoio da UE para reforma económica urgente

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Líder bielorrusso da oposição procura apoio da UE para reforma económica urgente

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Alexander Milinkevich continua a lutar contra tudo e contra todos para explicar aos bielorrusos a vantagem da democracia, a necessidade de reformas político-económicas. Absolutamente ignorado pelos Media, percorre a Bielorrússia: 30 cidades em dois meses e meio. Foi preso, multado e furaram-lhe os pneus. Mas valeu a pena, .. tudo vale a pena para que o país mantenha a independência face à Rússia e apanhe o passo do Ocidente, afirmou em entrevista à EuroNews.

EuroNews – Acredita que, actualmente, a situação da Bielorrússia se ajusta às normas democráticas ou não?

Milinkevich – Diria que hoje, a situação tem um certo status quo. Alguns prisioneiros políticos foram postos em liberdade e logo a seguir prenderam-se outros. Mas o essencial, além d repressão, é que não se estão a fazer reformas na economia. No terreno dos investimentos, somos um dos países mais atrasados da Europa. A economia não se modernizou, não é eficaz nem competitiva. O país tem dois ou três anos para corrigir a situação, o que é do interesse tanto da oposição como dos cidadãos e governo actual.
Espero que o consigamos, porque estamos a correr o risco de colapso.

EN – Quais são os factores que desencadearam a nova onda de repressão contra os activistas da oposição?

A. M. – Creio que o poder raciocina assim: “Bom, podemos fazer algumas concessões para regular a cooperação com o Ocidente”… mas nem sequer se trata de concessões, mas de cumprir, apenas as normas europeias, os valores europeus. Por outro lado, o poder tem medo de perder o controlo no interior do país e quer demonstrar que é forte e abarca todos e cada um. Considero estas detenções uma autoafirmação do poder. E acho que esta posição está errada pois demonstra o contrário: que o poder é fraco.

EN – Quando o poder bielorrusso fala de Ocidente faz uma distinção entre Europa e Estados Unidos. Isso deve-se à postura menos flexível de Washington para com Minsk?

A.M. – Têm direito a manter a postura que quiserem e, para mais, ajusta-se à visão do mundo moderno. Acho que as sanções económicas, tal como foram utilizadas na Europa durante o século XX, não deram muito resultado. Geralmente, o que obtiam era que o país se fechasse mais. Para a Bielorússia, o meu país, o prolongamento da situação e o isolamento são maus. Mesmo que hoje seja o país a “encerrar-se sozinho”. Eu sou partidário da abertura e acho que o diálogo deve continuar, apesar das dificuldades que sentimos nos últimos tempos. Mas o diálogo deve ser muito concreto, político, passo a passo – e quando a Bielorússia o deu, é verdade que a União Europeia e os Estados Unidos acompanharam. Antes de tudo, há que falar da libertação dos presos políticos e das reformas a fazer com as ajudas económicas da União Europeia.

EN – Propôs ao presidente Lukachenko a conciliacão para reestablecer as relacões com Europa.Esta proposta foi regeitada?

A.M. – Continua sem resposta. Estou absolutamente tranquilo, apesar de desejar sabê-la, porque somos cidadãos de um país. Podemos optar por formas de luta diferentes perante uma situação política complexa, mas somos responsáveis pelo nosso país, eu, o trabalhador, o professor e, sobretudo, o presidente.

EN – Recentemente, esteve com o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouschner. De que falaram?

A.M. – A reunião teve lugar hoje mesmo e foi extremamente importante porque, a partir de 1 de Julho, a França vai ocupar a presidência rotativa da União Europeia. É o mesmo que dizer que a França tem a possibilidade de tomar iniciativas mais amplas, digamos… É muito importante para mim que, no que que se refere ao nosso país, se façam novas propostas de cooperação. Por outro lado, do meu ponto de vista, é muito importante que o executivo se dê conta do quão importante é esta oportunidade. Com a França sempre tivémos boas relações e outros países estão dispostos a seguir o exemplo. O senhor ministro afirmou que a França vai dar certos passos mas espera o mesmo do poder bielorrusso.

EN – Em que condições trabalha, actualmente na Bielorrússia?

A.M. – Hoje, as minhas possibilitades são limitadas: não me posso exprimir na televisão bielorrússa, praticamente, não me deixam entrar lá. A única hipótese surge uma vez em cada cinco anos, se for candidato às eleições presidenciais. Estou ausente da rádio dos jornais… compenso isso com viagens através do país. Em dois meses e meio, estive em 30 cidades. Tive encontros memoráveis. No sítio em que me prenderam, enviaram para a milícia e me libertaram, multaram e furaram os pneus do meu carro. Mesmo assim, vou a casa de toda a gente. As pessoas sentem falta de um diálogo aberto, da verdade, da esperança… querem voltar a ter esperança. Por isso o faço com tanto prazer e eis os resultados.

EN – No Outono, haverá eleições legislativas na Bielorrússia. Os representantes da oposição vão poder participar?

A.M. – Não só podemos como participaremos. Desta vez apresentamos condições inquestionáveis, como a aplicação da lei eleitoral bielorrussa, que deve ser efectiva. Por exemplo, se um candidato da oposição se apresenta às eleições deve exigir a presença de alguém das suas fileiras na comissão eleitoral. Nos últimos anos, nunca lá estiveram representantes da oposição; só representantes do poder a contarem os votos.
O acesso aos Média deve deve ser livre. E acho que devemos excluir as repressões às equipas dos candidatos democráticos – com frequência, eram despedidos, multados ou presos. Tudo isso deve ser excluído. Se estas condições forem aceites e passar a haver uma oposição no parlamento, isso terá sido o primeiro passo para o apaziguamento da situação política e para o reconhecimento das eleições.

EN – Há pouco tempo, falava da ameaça de anexação da Bielorrússia pela Rússia. Ainda há essa ameaça?

A.M. – Essa ameaça continua a existir. Não acho que, actualmente, haja essa possibilidade real de dependência política da Rússia, mas a dependência económica aumenta constantemente e é forte. Isto a acontece porque a economia é frágil, falta-lhe competitividade. Temos de obter créditos da Rússia e a geração seguinte vai ter de os pagar. Esta dependência é muito grande, é preciso pagar. A dívida da Bielorrússia vai crescer e, em 2010, 2011, será provável que passemos a pertencer à Rússia, pois seremos completamente devedores. Por isso falo da necessidade de reformar a economia, o mais depressa possível, todos juntos: o poder e nós. E aqui, os nossos contactos na Europa e nos Estados Unidos são importantes. Eles estão interessados nas melhorias a atravessar, na estabilidade proporcionada pela previsão e pela democracia.

EN – Como serão alteradas as relações entre a Bielorrússia e a Rússia após a mudança da presidência russa?

A.M. – É difícil responder a esta questão, pois conhecemos muito pouco do projecto político do novo presidente. Suponho que, provavelmente, a política não vai mudar, será mais ou menos idêntica à estabelecida. Mesmo que para mim, seja importante, que a Rússia e a Bielorrússia deixem de persistir em estados de união efémeros. É preciso passar, simplesmente, às relações pragmáticas, vantajosas para ambos, através de tratados bilaterais, como se faz no mundo civilizado. Só est e tipo de relações interessa ao futuro da Rússia com os bielorrusos e vice-versa.