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Sali Berisha: "A independência do Kosovo ajuda a combater o crime organizado"

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Sali Berisha: "A independência do Kosovo ajuda a combater o crime organizado"

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Sali Berisha foi o primeiro presidente albanês do pós-comunismo e há três anos que desempenha o cargo de primeiro-ministro. Caído em desgraça e obrigado a demitir-se em 1997, depois de um escândalo financeiro, Berisha conseguiu renascer politicamente, graças às promessas de adesão à NATO e à União Europeia, e derrotou nas urnas os ex-comunistas. Mas há uma barreira que tem de ultrapassar: a da corrupção – o principal factor que leva Bruxelas a olhar este país ainda com alguma desconfiança. A Albânia foi também deixada para trás na política de facilitação dos vistos.

Sergio Cantone, EuroNews: Sr. Primeiro-ministro, bem-vindo à EuroNews. Acha que a Albânia está a ser discriminada, no que toca à facilitação dos vistos, em relação a outros países dos Balcãs?

Sali Berisha: Pensar que a Sérvia é um país mais seguro que a Albânia, para efeitos de facilitação dos vistos, é muito irrealista. Por isso, esperamos uma aceleração deste processo.

EN: Pensa que a Sérvia, desse ponto de vista, é mais perigosa que a Albânia?

SB: As coisas têm que ser comparadas: no nosso país, nunca tivemos esses criminosos de guerra atrozes, que cometeram os piores crimes de guerra de sempre na região.

EN: Mas não acha impossível comparar crimes de guerra com crime organizado?

SB: Não pode haver ilusões: as pessoas que cometeram esses horríveis crimes de guerra, e são muitas, não podem de repente ser vistas como anjos. Sem dúvida, são pilares do crime organizado, onde quer que estejam. O crime organizado, em todos os Balcãs, esteve aliado ao poder, por razões políticas e razões de interesse pessoal.

EN: Está a dizer que o crime organizado foi gerado pelo conflito dos anos noventa, nos Balcãs?

SB: Foi muito potenciado. Foi um crime baseado num enorme tráfico de armas e noutro tipo de tráfico, também…

EN: A União Europeia parece mais preocupada com os riscos gerados pelo crime organizado, como o tráfico de seres humanos ou de droga…

SB: Sem dúvida, já não há crimes de guerra e o tráfico de seres humanos é um fenómeno de grande preocupação, mas que fez o meu país? Pergunte ao governo italiano. Têm mais imigrantes ilegais? Não, quase zero, porque como sabe, proibimos as embarcações rápidas nas nossas águas.

EN: Mas não acha que um dos maiores obstáculos à luta contra o crime organizado é a corrupção?

SB: Ainda há dois anos e meio a corrupção era um sistema no meu país. Mas tomámos algumas decisões fortes para lutar contra ela. Em primeiro lugar, eliminámos todos os conflitos de interesses que havia no governo. Na minha administração não pode ficar ninguém que tenha um conflito de interesses. Em segundo lugar, estabelecemos alguns critérios nos nossos gabinetes. Ninguém pode usar dinheiros públicos para efeitos pessoais ou particulares. Em terceiro lugar, fizémos passar uma lei sobre os informadores, que lhes permite receber 6%do valor que as denúncias deles trazem e serem protegidos como testemunhas de crimes graves.

EN: Não tem medo que o crime organizado do Kosovo contamine, de novo, a Albânia?

SB: Há crime organizado no Kosovo, mas com um governo kosovar, o governo de um país independente, vamos conseguir combater eficazmente, no Kosovo, na Albânia, ou onde quer que seja, o crime organizado albanês. É o oposto do que diz: a independência vai ser um factor fundamental para ajudar a combater o crime organizado onde quer que ele esteja.

EN: Mesmo se o Kosovo ainda não é um país viável, do ponto de vista económico?

SB: O Kosovo é muito rico em minerais, é uma das regiões mais ricas da Europa.

EN: Acha que uma das razões que levam a comunidade internacional a querer a separação do Kosovo são esses recursos minerais e geopolíticos?

SB: Não, de maneira nenhuma.

EN: Era demasiado rico para ficar na Sérvia…

SB: Não, a comunidade internacional nunca teve a iniciativa de penalizar a Sérvia. A Sérvia é que obrigou a comunidade internacional a tomar as medidas que tomou.

EN: Acha que a NATO vai mais depressa que a União Europeia, no que toca às políticas de alargamento, em relação a um novo país como a Albânia?

SB: Na minha opinião, não há nada mais fundamental para a nossa civilização do que a Aliança Atlântica.

EN: Mais que a União Europeia?

SB: A civilização vai para além da União Europeia.

EN: O que é a Rússia para os Balcãs Ocidentais? Qual o papel da Rússia? A Rússia tem um papel?

SB: Não está a desempenhar o papel que um grande país deveria desempenhar pela estabilidade na região. Espero que seja mais realista. Os velhos esquemas devem ser deixados de lado. A Rússia teria um papel maior e melhor se se adaptasse à nova situação. Será que está a ajudar Belgrado com esta posição? Tornou as decisões de Belgrado muito mais difíceis, ao opor-se à independência do Kosovo.