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Mungiu regressa a Cannes

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Mungiu regressa a Cannes

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No festival de Cannes do ano passado, para surpresa de muitos, a Palma de Ouro foi entregue a um filme romeno – “Quatro meses, três semanas e dois dias”. É o segundo filme do realizador Cristian Mungiu, feito com um orçamento reduzido e inteiramente rodado em cenários naturais. A história passa-se poucos anos antes da queda do regime de Ceausescu e conta a história de duas raparigas, uma das quais está grávida e procura fazer um aborto. Um ano depois, Mungiu está de regresso a Cannes para presidir ao dia da Europa, o encontro dos ministros da Cultura dos Vinte e Sete, com a presença da comissária Viviane Reding e do presidente da Comissão, Durão Barroso. Cristian Mungiu contou-nos o percurso extraordinário deste filme e falou-nos do que está, hoje em dia, em jogo para o cinema europeu e para os cineastas europeus.

Frédéric Ponsard, EuroNews: No ano passado venceu a Palma de Ouro. Foi o início de uma longa história para o seu filme?

Cristian Mungiu: Muito graças à Palma de Ouro, o filme foi estreado em muitos territórios. Mas é preciso dizer que o filme teve um grande impacto no festival de Cannes do ano passado por causa da imprensa. Eles ajudaram-me a mostrar este filme em muitos lugares e eu descobri que há, por todo o lado, respeito por esta Palma de Ouro. Parte desse respeito tem a ver com o que fiz, ao longo deste ano. O problema principal tem a ver com os filmes que não tiveram a sorte de ter um prémio importante. No que toca a esses, é preciso apoiar a distribuição, porque há um público para os filmes europeus, há um público para os pequenos filmes. Não é um grande público, não é o público dos cinemas multiplex. Por isso precisamos de ajudar as pessoas que têm vontade de apoiar estes filmes, que apostam na pequena distribuição local, para popularizar esta diversidade cultural de que falamos.

EN: O que pensa da diversidade dos filmes europeus? Vê alguns padrões ou é apenas uma agregação das cinematografias nacionais?

CM: Não se pode falar de padrões. O que é o padrão, na arte? Não se pode falar nesses termos. A única coisa que pode definir o cinema europeu é que não é americano, não é “mainstream”. Mas, tirando isso, há tantas diferenças, não só entre os países, como entre os realizadores que pertencem ao mesmo território. Os argumentos do cinema europeu são a diversidade e o facto de oferecer uma alternativa. Não temos que lutar contra o “mainstream”, que é algo que vai existir sempre. Mas há muitas pessoas que querem uma alternativa e é aí que nós entramos.

EN: Os media, sobretudo no ano passado, falaram muito de uma nova geração de jovens cineastas vindos da Europa Central e de Leste. Isso é genuino?

CM: O que acontece é que, muitas vezes, os filmes mais interessantes são primeiros ou segundos filmes de realizadores que estão cheios de ideias frescas e têm algumas histórias pessoais para contar. E o sistema de financiamento na Europa de Leste, agora, permite a estes realizadores começarem. É por isso que vê muitos novos filmes, sobretudo de realizadores que têm menos de 40 anos.

EN: É mais difícil, hoje, encontrar dinheiro para produzir um filme ou estreá-lo?

CM: Honestamente, não é assim tão complicado encontrar orçamento para um filme, se o quiser fazer por menos de um milhão de euros. Também é fácil fazer um filme com uma grande estrela, um filme de maior orçamento, se estiver em posição de o fazer. É difícil é para aqueles que estão no meio. É mais difícil estrear um filme no estrangeiro que produzi-lo num sistema de co-produção.

EN: Quais são os maiores desafios para os filmes e cineastas europeus que querem ser atractivos e vender no estrangeiro?

CM: O mais importante a fazer e a lembrar, para os autores europeus, é que há um público e os filmes devem ser feitos para esse público. Não podemos ser egocêntricos ao ponto de dizer que somos artistas e estamos a fazer filmes para nós próprios. Mas também temos que ajudar a educar as pessoas, em todo o mundo, para que percebam e vejam estes filmes, porque há alturas em que não é fácil vê-los. Isto não é, forçosamente, entertenimento. Ver um filme europeu significa, muitas vezes, que vamos ouvir a história de alguém que tem problemas e isso vai ajudá-lo a solucionar os seus próprios problemas. Isso, muitas vezes, não é fácil de compreender.

EN: Acha que o cinema ainda tem uma influência política, hoje em dia?

CM: Penso que tem uma influência. Não acho que seja possível mudar o mundo através dos filmes. Já não penso isso. Mas acho posísível educar as pessoas. Juntá-las e fazê-las ver que, mesmo se umas estão a viver na África do Sul, outras em Taiwan, quando estão a ver um filme percebem que afinal não são assim tão diferentes. Há uma comunicação que se faz através dos filmes que junta as pessoas. Isso é que é maravilhoso, no cinema.

EN: Nalguns países da Europa, as salas começam a desaparecer. Qual é a situação na Roménia?

CM: A situação não é boa. Por isso, no ano passado, depois de Cannes, decidi tomar uma posição. Decidi ser eu próprio a lançar o filme na Roménia, como forma de protestar contra o facto de haver tão poucos cinemas. Há menos de 50, num país com 20 milhões de habitantes. Era impossível, para mim, atingir uma larga audiência em cinemas normais, por isso organizei algo muito romântico. Montei uma caravana, um pouco como há 100 ou 50 anos, que deu a volta à Roménia durante 30 dias, e mostrei o filme com um projector móvel. Há grandes cidades onde já não há nenhum cinema. O resultado foi inacreditável. O filme deu a volta ao país antes de dar a volta ao planeta. Uma experiência única para Cristian Mungiu, para quem esta recordação é a melhor do filme: “Pessoas que abarrotaram o espaço para ver o filme, gente que não ia ao cinema há 25 anos. Num grande ecrã, com o som alto…”