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Walid Jumblat acusa França de querer isolar a Turquia

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Walid Jumblat acusa França de querer isolar a Turquia

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O encontro de Doha tornou possível a eleição do presidente, reclamada pela maioria parlamentar e o acordo para a formação de um governo de unidade nacional, reclamado pela oposição. Mas o executivo libanês demora a ser constituído e a assumir funções. O Líbano tarda em assumir-se como um país de corpo inteiro. A Euronews entrevistou, em Beirute, um dos principais protagonistas da luta pela independência do país, o líder da comunidade druza, Walid Jumblat, que não poupa críticas ao bloco europeu.

Euronews:
Senhor Jumblat, bem vindo à Euronews.

Walid Jumblat:
Bom dia

E: A vida política no Líbano voltou ao normal?

W.J: De uma certa forma, sim, a vida política voltou ao normal. A oposição levantou o cerco no centro de Beirute. Temos um presidente da república. A vida retoma o seu curso, mas temos que fazer face à situação, porque no Líbano temos um estado libanês e um estado de resistência, quero dizer um estado do Hezbollah.

E: Isso quer dizer que o Hezbollah é um estado dentro do estado?

W.J: Exactamente, já o disse no passado e volto a dizê-lo hoje. Os poderes regionais que são a Síria e o Irão, têm-se comportado de forma que o Hezbollah se transformou num fenómeno político militar autónomo com o qual temos que co-habitar. Isto é uma situação estranha mas temos que viver com ela.

E: Mas o Irão mantém ainda uma influência na política libanesa?

W.J: Espero que os dirigentes iranianos reconheçam o estado libanês, em vez de ajudarem financeira e militarmente o hezbollah. Ouso acreditar que chegou a altura de o apoio do Irão em armas e dinheiro passar para o estado libanês.

E: Há ainda obstáculos que impedem a formação do novo governo?

W.J: Há sempre obstáculos quando se trata de formar um governo, porque temos no Líbano um sistema de quotas atribuídas a cada comunidade. De qualquer forma, é uma missão que o primeiro-ministro Fouad Siniora está a cumprir de uma forma lenta, mas segura.

E: Quais são os cenários possíveis no caso do novo governo não ser constituído a breve prazo?

W.J: É normal que haja dificuldades… Mas creio que as consultas entre o primeiro-ministro Siniora e o presidente Michel Suleimane vão acabar por trazer uma solução satisfatória para toda a gente.

E: O senhor disse, no passado, que o Líbano precisa do braço armado do hezbollah para se defender. Mantém essa opinião?

W.J: Eu não disse isso. Disse que é importante estabelecer uma estratégia defensiva de modo a que o armamento do hezbollah seja integrado no estado libanês. Nenhum partido pode deter armas mais sofisticadas que as que possui o estado, nem ter as mãos livres para decidir sobre a guerra ou sobre a paz, quando lhe apetece. Mas isto está relacionado com a situação regional. Sabe que o hezbollah é um fenómeno político, militar e de segurança de dimensão regional, incarnado pelo Irão e pela Síria.

E: Durante o encontro entre o presidente sírio Bachar al Assad e o emir do Qatar, houve apelos à solidariedade árabe, de forma a reforçar o consenso libanês. Podemos concluir que o consenso ainda está longe?

W.J:
Qual consenso?

E:
O consenso inter-libanês e a solidariedade árabe.

W.J:
O que é certo é que eu não vejo o presidente sírio a vir ao Líbano e esta visita é indispensável, é preciso que o presidente Assad encontre o presidente Michel Suleimane na fronteira sírio-libanesa, como foi o caso do presidente Gamal Abdel-Nasser e o Président Fouad Chihab. É claro que não se pode comparar Nasser com Assad. Este primeiro encontro na fronteira é o primeiro passo para o reconhecimento da entidade libanesa.
Mas, eu, pessoalmente, não estou de acordo que o presidente Bachar venha ao Líbano num contexto de divisão política intensa.

E: Portanto, o que está a querer dizer ao presidente sírio é: senhor Bachar al-Assad fique onde está, não tem nada que fazer aqui no Líbano?

W.J:
É a minha opinião pessoal. Nós tivémos divergências profundas com o regime sírio, depois de Damasco ter apoiado o prolongamento do mandato do presidente Lahoud. O preço desse prolongamento foi o sangue do primeiro-ministro Rafik Hariri e de todos os outros mártires do movimento da independência do Líbano. Por isso, volto a dizer, a minha opinião não mudou.

E: Desde há algum tempo, algumas teses defendem que a Síria não estaria implicada no assassinato de Rafik Hariri e que poderes regionais ou serviços secretos da região estariam por detrás do atentado…

W.J:
Porque é que todos aqueles que se opuseram à presença síria, ao prolongamento do mandato do presidente Lahoud e pediram a independência do Líbano com relações de igual para igual com Damasco foram mortos? Quem é que até hoje, para além do regime sírio, não reconheceu ainda a independência do Líbano?

E: Existem ainda receios no seio da classe política de que haja outros assassinatos políticos?

WJ:
Não sei. Tudo é possível.

E: O que se passa com o tribunal internacional encarregado do caso do assassinato do primeiro-ministro Rafik Hariri?

WJ :
Espero que esse tribunal seja constituído o mais rapidamente possível, mas parece-me que as coisas estão um pouco atrasadas. Não sei se o atraso é técnico ou político.

E: E se fôr político?

WJ : Se o atraso é político, quer dizer que as Nações Unidas, ou uma facção no seio das Nações Unidas, está em conivência com o regime em deterimento do sangue de Rafik Hariri e dos outros mártires da independência do Líbano.

E: Falemos da visita prevista do presidente francês. O que espera de Nicolas Sarkozy?

WJ:
Esperamos que a política da França seja menos ambígua no que diz respeito à questão palestiniana, do que foi no tempo do presidente Chirac. Pensamos saber que no quadro do lançamento da União para o Mediterrâneo, o presidente sírio foi convidado para assistir ao desfile do 14 de Julho ao lado do presidente Sarkozy. Se assim fôr, penso que este convite é um insulto ao povo francês.

E: O que pensa do papel da União Europeia no Líbano. Pensa que deve ser ausente ou, ao contrário, deve estar mais presente?

WJ:
Não há política europeia comum. Há alguns gigantes económicos a que chamamos Europa, mas não há uma única voz em matéria de política externa e isto não apenas em relação ao Líbano, mas a todo o espaço do Mediterrâneo.

E: Pensa que a União para o Mediterrâneo pode trazer um novo espírito, capz de isolar as ditaduras do mundo árabe?

WJ:
Não. Não acredito. Penso que a União para o Mediterrêneo é, infelizmente, uma forma de a França isolar a Turquia. E já que falamos de espaço mediterrânico, a Turquia faz parte deste espaço e também Israel que prossegue uma política de discriminação racial e repressão sobre os palestinianos. Não consigo entender como é que a Europa pode não ser solidária com a questão palestiniana, mantendo uma posição tão pouco clara.

E:Walid Jumblat, muito obrigado.