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May Chidiac - "Devemos aprender a conviver em paz"

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May Chidiac - "Devemos aprender a conviver em paz"

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“Eles mataram-me, sim… eles mataram-me! Conseguem imaginar o que é ser uma mulher com apenas metade do seu corpo? Eu, uma mulher independente. Comparavam-me a uma borboleta que nunca parava quieta. Nunca tinha tempo. Andava sempre cheia de pressa. Fazia uma emissão politica pelas manhãs, apresentava um telejornal televisivo, dava aulas na universidade, e simultaneamente fazia a minha tese de mestrado.Tinha uma vida social muito activa, muito animada. Desfrutava a vida ao máximo e mutilaram-me. Na verdade, tentaram matar-me”, afrimou May Chidiac.

“O céu esperar-me-á”. É o título do livro de May que Chidiac, a sobrevivente do atentado que sofreu há três anos. A explosão da bomba colocada no carro onde seguia valeu-lhe a amputação de uma mão e uma perna. Apesar de ter sobrevivido já foi submetida a 29 intervenções cirúrgicas.
Face a todos os acontecimentos, esta lutadora jornalista libanesa não abrandou o seu ritmo de vida.

No intervalo entre emissões teve tempo para nos receber na sua casa em Beirute para partilhar connosco a sua visão sobre o Líbano dos dias de hoje.

“Sou uma filha da guerra. Entrámos em conflito quando tinha apenas 10 anos. E desde então temos sempre vivido em guerra. Estou marcada pela guerra. Vivi nas linhas da demarcação. Na parte leste, no lado cristão de Beirute. E para mim também se trata de uma questão de sobrevivência dos cristãos. Apesar de que a origem de tudo, a primeira causa do conflito sempre tenha sido a soberania, a independência, a liberdade do Líbano”, disse a jornalista.

“Quando decidi estudar jornalismo e dedicar-me a esta profissão, não foi apenas por razões políticas. Foi também porque gostava de televisão. Estava sempre a dizê-lo à minha mãe. Eu dizia: não quero passar desapercebida neste mundo. Ainda que naquela época não pensava que ia chegar onde cheguei. Quer dizer, não pensava que ia alcançar notoriedade internacional depois de ter sofrido um ataque como o que sofri”, confessou.

Chidiac era uma declarada detractora das ingerências sírias. Desde o atentado converteu-se em num autêntico símbolo do “Catorze de Maio”. Um movimento que nasceu em 2005, com as manifestações anti-síria que se seguiram ao assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri.

Os protestos provocaram a retirada das tropas sírias do sul do Líbano. Contudo essa vitória ficou ensombrada pelos bombardeamentos israelitas de 2006 e pelos confrontos entre as diferentes comunidades do país.

Após uma longa crise política, a promessa de um novo governo de unidade nacional devolveu ao povo uma frágil esperança mudança.

“Infelizmente, até ao momento, cada vez que pensávamos estar a chegar o fim do túnel, isso não acontecia, e voltávamos para trás. Eu esperava, sonhava e acreditava verdadeiramente que chegaria o dia em que esta opressão terminaria. Mas, hoje em dia, continuamos sem ser independentes. As tropas sírias podem até talvez se ter retirado, mas os seus serviços secretos continuam aqui e muitos políticos continuam ainda a agir de acordo com as ordens enviadas por Damasco e Teerão. Apagaram tudo o que significava a revolução. Isso provoca-me muita raiva!”, desabafou Chidiac.

“Quem tem as armas no Líbano? Os agentes sírios. E por onde entram essas armas? Pela fronteira da Síria. O Irão abastece a Síria de armas e a Síria envia-as para o Líbano. É assim que elas entram no nosso território. E o que fazem vocês? Estendem a mão à Síria como se não tivesse acontecido nada. Simplesmente porque pretendem participar na cimeira da União para o Mediterrâneo. Diga-me. Como pode a Síria participar nas cerimónias do 14 de Julho? Não tenho nada contra o facto de Baschar Al Assad assistir às reuniões, mas que participe nas cerimónias, isso é diferente. Isso é branquear a 100%, um regime terrorista e assassino. Se queremos realmente a independência do Líbano, é necessária paciência, antes de presumirmos a inocência daqueles que ocuparam o país durante tanto tempo, aqueles que bombardearam a ressurreição do país”, disse a jornalista.

“Com audácia”. É o nome do debate político que Chidiac modera todas as semanas na televisão libanesa desde o seu regresso à LBC em 2006

Mesmo hoje em dia continua a receber ameaças de morte. Contudo o seu discurso não muda.

“Sou uma mulher que sofreu muito durante todos estes anos de guerra. Eu quero a paz.
Quero que os meus sobrinhos a conheçam. Sacrifiquei a minha vida pessoal e o meu trabalho, mas tenho oito sobrinhos. E não quero que tenham de crescer no estrangeiro. Quero que regressem. E que possam viver em paz e que todas as comunidades se respeitem. E se alguém que não quer respeitar a ideologia dos outros, que vá para sua casa, mas não venha para aqui impor os seus dogmas.
Eu não quero continuar em guerra com Israel até ao final dos tempos. Devemos encontrar uma solução para o problema das quintas de Chebaa, mas deve ser uma solução diplomática. Israel continua a ser o inimigo, não contesto. Eles sempre defenderam os seus interesses. Por isso é melhor não provocá-los. Para quê? Para que nos destruam uma vez mais, para voltar a entrar em guerra. Para que destruam todas as nossas infra-estruturas, de novo.
Não obrigado!
Acabou-se. Acabou-se a guerra. Quero viver num país livre. Pode haver batalhas políticas, como em todos os países democráticos, mas não podemos privilegiar a força.
O Hezbollah não conseguirá nada com as armas. A longo prazo essa solução nunca funciona. Porque haverá sempre uma intifada contra, como fizeram eles com Israel. Os sunitas não vão aceitar. Os cristãos também não. Devemos aprender a conviver em paz. Já fizemos a guerra e não funcionou. Por isso já chega!”, concluiu.