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Dalai Lama defende temporalidade da instituição: só o Tibete importa

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Dalai Lama defende temporalidade da instituição: só o Tibete importa

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A visita de Tenzin Gyatso, 14° Dalai Lama a França, atraiu milhares de fieis e fez correr muita tinta. Aos 73 anos, o Prémio Nobel da Paz que se descreve como um simples monge budista, exerce um fascínio planetário. Na sua passagem por Nantes, o Dalai Lama defendeu as concepções que tem da vida ao microfone da Euronews. Antes de partir para a Índia, terra de exílio há 50 anos, dá algumas dicas sobre o sucesso obtido.

Dalai Lama – O Tibete é algo misterioso e uma pessoa que venha de lá é alvo de curiosidade. E depois, cada vez um maior número de pessoas mostra interesse pelas minhas ideias. E a principal ideia que defendo, a minha mensagem é a de que todo o ser humano tem direito a uma vida feliz e a uma família feliz.Para o conseguir, damos muita atenção ao dinheiro, aos valores materiais. Não damos a devida atenção aos valores morais. A harmonia entre diferentes religiões também é essencial. Sinto um enorme respeito e admiro as diferentes tradições… alguns amigos cristãos decrevem-me como um bom cristão. Temos uma experiência comum, uma prática comum apesar das diferentes filosofias. E talvez algumas pessoas expressem amor pelo sorriso…

euronews – Os Jogos Olímpicos estão quase no fim, as nações celebram os campeões …entretanto, o senhor diz que o Tibete continua a sofrer uma nova revolução cultural. Qual é a situação, neste momento, no Tibete?

DL – Basicamente, a situação está muito tensa. Muito exército, muitos agentes de segurança por todo o lado. E a comunidade tibetana vive lá, naquela terra…e chega-nos a informação que os oficiais do regime iniciaram a construção de estruturas militares. Isso quer dizer que a partir de agora a presença militar é permanente, o que indica que a política agressiva continua.

euronews – Vai mudar a sua abordagem do problema ou pensa fazer concessões aos chineses, que não confiam em si quando afirma não querer a independência? A China não reconhece o seu governo no exílio, nem a bandeira tibetana nem o hino…há alguns sacrifícios, algumas concessões que esteja pronto para fazer?

DL – Porque é do nosso próprio interesse, comprometemo-nos a continuar na República Popular da China. E porque o Tibete fica longe, não tem litoral e tem uma pequena população, interessa-nos estar inseridos na República da China. Mas temos uma língua própria e, com ela, uma herança cultural sofisticada e uma tradição budista muito, muito rica. Não são apenas 6 milhões de pessoas, incluindo as tibetanas, mas muito mais nesta região do mundo: partilham o mesmo budismo, a mesma cultura budista. Para preservar a cultura, tendo o maior cuidado com o ambiente, é (com excepção dos Negócios Estrangeiros e da Defesa) a Educação, a Economia e, claro, a religião. Estes sectores devem ser geridos pelos próprios tibetanos com autonomia. Actualmente, a constituição chinesa atribui aos diferentes grupos étnicos tibetanos um estatuto de autonomia, também consagrado no livro branco dos direitos das minorias…no papel…. os pontos mencionados são muito bons… mas não estão implementados!

euronews – Há divisões na comunidade budista e entre os budistas tibetanos. Alguns, da nova geração discordam do “meio termo”, estão a ficar impacientes. Acha que a violência vai aumentar?

DL – Acho que não. Mesmo as organizações de jovens, organizações de jovens tibetanos, apoiam o princípio de não violência Olham para a independência em termos políticos, desde o princípio querem a independência total. Estamos comprometidos com a democracia que permita vozes diferentes, pontos de vista diferentes, ideias novas.

euronews – O presidente norte-americanos George W. Bush, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o primeiro-ministro inglês Gordon Brown estiveram consigo este ano…não vai encontrar-se com Sarkozy, actalmente líder europeu. Estará com Kouchner e Carla Bruni Sarkozy. Será que os famosos defendem melhor do que os políticos a causa do Tibete?

DL – Para alguma publicidade talvez! (risos) Mas claro que o governo francês, o presidente, o ministro dos Negócios Estrangeiros, desde o princípio, imediatamente a seguir à crise de 10 de Março, expressaram publicamente a sua preocupação.

euronews – Que mais espera dos líderes mundiais?

DL – A China é a nação mais populosa do mundo e uma importante nação. Por isso as boas relações são muito, muito importantes. Mas, entretanto, a China tem de entrar no caminho da democracia. Da democracia, do estado de direito, da abertura à liberdade de informação, são aspectos muito importantes. E, claro, os direitos humanos e a liberdade religiosa… são valores universais que dizem respeito a todos e por isso, povos e governos devem respeitar.

euronews – Quando dirigentes políticos, como o presidente francês, vão à Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos e vendem dois reactores nucleares à China, sem se encontrarem consigo…acha que ajuda a democracia?

DL – Tem de ser você a julgar…(risos)

euronews – Sugeriu nos encontros desta semana que a sede da União Europeia devia mudar-se para a Polónia e que se a Rússia entrasse na NATO a sede devia ser a Moscovo. Tem algum problema com Bruxelas?

DL – Não, não…sou um dos admiradores da União Europeia, sempre a defendi. O que penso é que o espírito da União Europeia deve ser alargado E agora, afortunadamente a ex-união soviética mudou. Na Federação Russa parece ter voltado a antiga maneira de pensar…todo o género de antigas tendências e hábitos estão de regresso. Não é nada bom! Assim, a grande Rússia deve vir para o mundo da comunidade europeia. E para reduzir a distância e o medo, a NATO deve mudar-se para Moscovo. E o medo desaparece! É a minha lógica. Não estou nada zangado com Bruxelas. Nunca!

euronews – A compaixão está no centro da sua filosofia. Pode ser aplicada a qualquer situação no mundo. Mas poderá ser aplicada no que que respeita ao terrorismo?

DL – Sim, claro! Compaixão aplica-se à pessoa e não às acções. Exemplo do terrorismo: quando alguém é terrorista, é a pessoa que deve despertar a compaixão. Se tivermos compaixão há uma possibilidade real de mudança. Com os seres humanos, em geral… se mostrarmos compaixão em relação a eles passa a haver uma possibilidade real de mudança de comportamento. Se os perseguirmos com ódio, estamos a criar mais terroristas. Hoje há um Bin Laden, e depois passam a ser 100 Bin Laden. A compaixão é a única força que pode interromper o ciclo. Compaixão em relação à pessoa, porque em relação aos actos, temos de nos opôr.

euronews – As pessoas especulam sobre a sucessão…fala de retirar-se mas está cheio de energia…portanto, o que quer dizer?

DL – Tenho dois compromissos principais: a promoção dos valores humanos e a promoção da harmonia religiosa. Depois tenho um terceiro compromisso que é a luta tibetana. Quando a luta tibetana está em causa, a luta é do povo. Enquanto eu continuar tenho de contribuir. Mas a verdadeira responsabilidade é do povo tibetano, em si. Eu ajudo a servi-lo. A lei do Lama está caduca. Neste caso, os tibetanos consideram que a instituição não vai durar muito mais tempo…ok… se esse sentimento chegar…então a instituição do Dalai Lama acaba. Prefiro assim, porque o 14° Dalai Lama não é o melhor Dalai Lama… também não é o pior Dalai Lama. É bastante popular. Assim, se chegarmos a esse ponto, a instituição do Dalai Lama cessa, este Dalai Lama cessa ou acaba com graça. É muito melhor…outra reincarnação pode ser uma desgraça, pode ser pior!