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Rússia interpreta resultados da Cimeira da UE: "triste mas não fatal"

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Rússia interpreta resultados da Cimeira da UE: "triste mas não fatal"

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“É triste mas não é fatal”… afirma Medvedev em relação à falta de unanimidade dos europeus em relação à Geórgia. O presidente da Federação russa avisa, no entanto, a comunidade internacional que não vai tolerar sentimentos separatistas nas repúblicas russas do Cáucaso – Daguestão russo ou Ingushétia. Entrevista exclusiva à Euronews.

euronews – Como interpreta os resultados da Cimeira Extraordinária da União Europeia sobre as relações bilaterais com a Rússia?

Dmitri Medvedev – Apreciei cuidadosamente a evolução dos acontecimentos . Não escondo que tive conversações com alguns colegas (interlocutores).
E considero que esta é uma medida com duas interpretações. Na primeira, infelizmente, a União Europeia não compreendeu inteiramente os motivos da Federação Russa, que foram apenas um reflexo da agressão da Geórgia à Ossétia do Sul e da Abkásia, como entidades de direito internacional. É uma tristeza mas não é fatal porque, neste mundo, tudo muda.

A segunda interpretação, na minha opinião, é muito mais positiva: é que, apesar da separação destas nações, na União Europeia, prevalece um ponto de vista razoável e realista. Alguns Estados exigiam sanções penais míticas. Isso não aconteceu e parece-me que foi melhor para a Europa, em particular para a União Europeia.

euronews – Está instalada a ideia de que a Rússia, depois do reconhecimento da independência da Ossétia do Sul e da Abkásia ficou internacionalemtne isolada. Concorda?

DM – Não há isolamento, e a Rússia considera ser impossível que tal aconteça. É um outro assunto que, depois dos relevantes actos de reconhecimento, todos precisemos de pensar, nos próximos anos, sobre as estruturas de segurança existentes neste mundo complexo.
Para mim é claro que que os eventos que tiveram início depois da agressão da Geórgia, no dia 8 de Agosto, deram nova importância ao assunto. As instituições de segurança existentes até agora provaram ser ineficazes.

euronews – Ainda há conversações sobre possíveis sanções, como a exclusão do G8, ou a recusa da adesão à Organização Internacional do Comércio. No caso de essas medidas serem tomadas, como é que a Rússia vai reagir? E outra coisa que preocupa os europeus: o Verão Quente no Cáucaso não se vai transformar em Guerra Fria na Europa?

DM – O assunto das sanções é sempre muito complicado, porque normalmente, as sanções são facas de dois gumes. E a Europa, com a posição que tomou, mostra que está consciente disso.
Por outro lado, as instituições de segurança internacional como o G8… bem, o G8, sem a Rússia fica incapacitado.
Até o G8 já percebeu que, sem a representação de Estados como a China ou a Índia, com um formato diferente, muitas das decisões do grupo dos oito não são válidas, e ficam a lidar sozinhos com essas decisões sem a participação da Rússia.
De qualquer modo, o G8 não pode existir sem a Rússia. E se insistir em continuar, não vai beneficiar a ordem mundial pois é no mundo de hoje que se tem de enquadrar.

A Organização Mundial de Comércio é um assunto económico diferente. Logicamente, queremos ser membros da OMC. Mas não a qualquer preço. E vamos continuar as negociações durante muito tempo. Infelizmente não têm tido sucesso. O que pedíamos era simples. Se não aprovassem depressa, então também tinham de deixar de nos obrigar a respeitar os acordos que nos impunham obrigações adicionais no âmbito da OMC.
Essas decisões são para ser enquadradas no seio da OMC.
A presença da Rússia na OMC não é apenas um objectivo para a federação russa mas também para outras economias. O tempo dirá como vão evoluir os acontecimentos.

Há outras áreas de influência. E eu não penso que “a guerra fria” seja uma delas porque ninguém está interessado nisso.

euronews – Referia-me ao abastecimento de hidrocarbonetos à Europa…

DM – Sim, compreendo a referência. Claro que vamos cumprir as obrigações assumidas pela Rússia como maior abastecedor de hidrocarbonetos à Europa.

euronews – Os analistas acreditam que a crise no Cáucaso constitui o virar da página na história da Rússia pós-soviética e o ponto de partida para um novo mundo, e, mesmo o senhor, já abordou a questão.
Como é que a Rússia constroi as relações com os vizinhos, nomeadamente com a Ucrânia, e o mundo exterior?

DM – Baseamos a construção das nossas relações em critérios comuns.
Tem razão e eu já disse que os acontecimentos de Agosto mostraram a imperfeição das infraestruturas internacionais de segurança.
Necessitamos de criar outras com base na realidade actual.
Recentemente, divulguei cinco princípios para implementação da política externa russa. Gostaria de os salientar:

1° – A Rússia vai cumprir as regras do direito internacional no que respeita às relações entre nações civilizadas.

2° – A Rússia compreende a necessidade de um mundo multilateral e acredita que a predominância de uma potência é inaceitável, seja qual for.

3° – Estamos naturalmente interessados em desenvolver relações abertas e amigáveis com todas as nações – europeias, asiáticas, norte-americanas, africanas – todas as nações do planeta. E as relações serão tão profundas quando os parceiros queiram.

4° – Acredito que é nossa prioridade absoluta proteger as vidas e a dignidade dos cidadãos russos, estejam onde estiverem. Essa é também uma das prioridades da política externa russa.

5° e último princípio: Acredito que a Rússia, como qualquer outro Estado – vai privilegiar as regiões nas quais tem especial interesse. E os Estados que estão localizados nessas regiões. Vamos estabelecer relações fortes, especiais e longas.

euronews – Corre-se o perigo de que o reconhecimento da Ossétia do Sul e da Abkásia origine sentimentos separatistas noutros parceiros do Cáucaso – - por exemplo, no Daguestão da Rússia e na Ingushétia?

DM – Não vejo qualquer perigo, excepto se esses assuntos tiverem alguma relação com o estrangeiro, que invente cenários para o desmembramento da Rússia.

euronews – Quais as principais lições que tirou da mais recente crise entre os Estados Unidos e a Rússia?

DM – Não acho que se possa falar de uma crise profunda como no tempo da União Soviética, mas é verdade que há tensão. E isso é consequência das políticas insensíveis que os Estados Unidos aplicaram na Geórgia.
Num determinado momento, deram a impressão ao líder georgiano de que podia agir impunemente. Como se lhe tivessem dado um cheque em branco para agir como quisesse… o desenvolvimento da situação deixou isso claro.

Agora, nos Estados Unidos há uma certa mágoa por causa do fracasso desse projecto virtual de uma “Geórgia livre.”

O líder está desacreditado, o regime está perto de uma crise, a situação está tensa. Quanto mais cedo os parceiros americanos resolverem os problemas melhor será para as relações bilaterais.
Estamos preparados para as relançar do melhor modo possível, para manter relações de alto nível com os Estados Unidos da América.