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Azoulay: "É imperativo que a Europa readquira a influência que perdeu"

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Azoulay: "É imperativo que a Europa readquira a influência que perdeu"

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André Azoulay é o protótipo de um conselheiro de príncipe: diplomata, discreto e hábil politicamente. Está familiarizado com todos os meandros do poder, tanto em Marrocos como na cena internacional. Opera com voluntarismo para a aproximação dos povos do Mediterrâneo e por isso foi nomeado presidente da Fundação Anna Lindh, uma rede de ligação entre as sociedades civis e os governos do “Mare Nostrum”. A sua cultura e religião judia e o papel de conselheiro dos reis de Marrocos de fé muçulmana – o defunto Hassan II e o actual Mohammed VI – permitem-lhe também operar activamente e com a vantagem da credibilidade a favor da construção de um estado palestiniano, legitimando a existência do estado de Israel.

euronews: Senhor Azoulay, bem-vindo à euronews, obrigado por nos ter concedido esta entrevista. Quais são, para si, as principais estratégias que é preciso desenvolver para a organização da União para o Mediterrâneo.

André Azoulay: É preciso, por um lado, que a lógica da paridade substitua a das taxas aduaneiras e é preciso que esta visão subsista e, quando os técnicos eurocratas e os políticos terminarem de conversar, é preciso pensar nos homens e nas mulheres dos quais queremos definir o futuro. É preciso que esses homens e essas mulheres se envolvam de forma ideológica, política, cultural e social.

EN: A dimensão económica é muito importante e aqui falamos de comércio, falamos de trocas, mas o que falta à Europa e mesmo ao Magrebe é uma dimensão política…

AA: Eu sou menos pessimista do que você. Eu penso que, ao contrário, hoje estamos a tentar criar juntos um novo momento para o espaço euromediterrânico. E não é um entretenimento, uma coisa que será um luxo para uns e para outros. É um imperativo, um imperativo político, um imperativo humano, mas é também uma oportunidade para a Europa, talvez através do projecto euromediterrânico, de readquirir a influência que perdeu, em parte, na grande comunidade das nações. Porque quando se fala de união euromediterrânica não se pode escamotear, esconder os dossiês mais difíceis com os quais se confronta a comunidade internacional. Penso particularmente na paz sempre adiada entre os palestinianos e os israelitas. Penso na situação no Iraque ou no Afeganistão e numa relação mais alargada que é marcada por tensões muito fortes no mundo, diria, da grande civilização arabo-muçulmana, do Islão e do mundo ocidental e do mundo ocidental cristão.

EN: Exactamente, o senhor defende desde sempre, quase, o nascimento do estado palestiniano, ao lado do estado de Israel, naturalmente. Acha que chegou o momento?

AA: O mundo inteiro reconhece hoje, por um lado a legitimidade e a absoluta necessidade de um estado palestiniano com toda a sua identidade e todos os seus direitos readquiridos e, portanto, o mundo inteiro não consegue lá chegar. E não é porque há um conflito de religião, não é porque daqui ou dali há líderes religiosos e políticos que, erradamente, tentaram instrumentalizar as nossas convicções ou as nossas religiões.
Nesta lógica nós somos reféns daqueles que lançaram uma espécie de OPA sobre o nosso domínio espiritual que é o domínio das nossas convicções privadas. Sabe, hoje, quer sejamos muçulmanos, judeus ou cristãos, o nosso interlocutor lá em cima é o mesmo. A forma como eu fui educado na cidade de Essaouira no sul de Marrocos, enquanto marroquino de confissão judia foi a de considerar os meus vizinhos – e o meu vizinho é marroquino muçulmano, mas hoje, no meu imaginário, ele é palestiniano – foi considerar os meus vizinhos com os mesmos direitos que eu. Por isso é lutando amanhã, lutando hoje como fiz ontem e como continuarei a fazer por um estado palestiniano, que luto também para proteger as minhas próprias convicções, senão não teria sentido.

EN: Por ocasião da visita a França do Papa Bento XVI evocou-se o conceito de laicidade positiva. Aquilo que acaba de exprimir reflecte um pouco esse conceito, não acha? O que pensa do conceito de Laicidade Positiva?

AA: Só posso aderir, mas penso que é preciso que cada um de nós esteja animado e habitado pela vontade de fazer com que as suas escolhas não sejam apenas teóricas ou retóricas, é preciso que sejam traduzidas na nossa vida quotidiana, nos nossos compromissos e nas nossas responsabilidades.

EN: Marrocos foi um dos primeiros países do Magrebe e do mundo árabe a iniciar o processo de reformas democráticas. Como é que o país enfrenta agora o regresso da insegurança com a Al-Qaida que cresce no Magrebe e na África subsariana, duas posições geográficas que interessam evidentemente Marrocos.

AA: A construção do Marrocos moderno, do Marrocos aberto, de um Marrocos envolvido pelas suas raízes, pela sua identidade… isso é irreversível. Os problemas que se evocam constantemente não são problemas marroquinos. São multinacionais, internacionais. Eles podem existir eventualmente em Marrocos. Eles são tomados em conta, mas são conjunturais.

EN: Em sentido lato, você pensa que a democratização e a luta contra o terrorismo são compatíveis?

AA: Não, pelo contrário, acho que a construção desta sociedade aberta, desta sociedade democrática, desta sociedade em crescimento, desta sociedade consensual mobilizada para ir o mais longe possível nessa direcção, é a melhor resposta.