Última hora

Última hora

Joaquin Almunia: recursos p'ublicos e privados para ultrapassar a crise

Em leitura:

Joaquin Almunia: recursos p'ublicos e privados para ultrapassar a crise

Tamanho do texto Aa Aa

Tempos difíceis para o comissário europeu, responsável pelos assuntos económicos e monetários. A crise financeira impõe rigor no cumprimento das regras económicas, na Europa. O espanhol Joanquin Almúnia confrontou-se com a ruptura no crédito, tentando defender o Euro, em conjunto com o Banco Central Europeu. Missão difícil.

EN-Comissário, bem vindo à euronews. Houve uma reacção conjunta de alguns bancos Centrais, incluindo o Banco Central Europeu e a Reserva Federal norte-americana, de baixar as taxas directoras. O que significa isto para a Europa e para o mundo?

JA-Bem, eu penso que isto significa um alívio para as tensões nos mercados financeiros. Espero que os mercados o apreciem. Por outro lado, é uma boa notícia, o facto dos bancos centrais das principais economias do mundo actuarem de forma coordenada. É um bom sinal, para o mercado e também um bom exemplo para os governos se coordenarem melhor.

EN-Decisões deste tipo não deverião ter sido tomadas, antes de uma situação tão grave e profunda da crise?

JA-Se nos concentrarmos nas causas da abundância de liquidez que provocou uma muito baixa avaliação de riscos existentes, concluiremos que houve muita gente, muitos investidores que assumiram riscos muitos mais altos do que seria razoável. Isso tem a ver com o baixo custo do financiamento, com as baixas taxas de juro que vigoravam, antes de 2007. Agora, uma medida como esta que foi adoptada pelos bancos centrais deve ajudar a aliviar as tensões no mercado e permitir que os participantes no mercado operem em condições menos difíceis.

EN-A situação é favorável também para um novo tipo de condições, na economomia mundial?

JA-Precisamos de recapitalizar as instituições financeiras. Penso que isso é absolutamente necessário, neste momento, penso que temos de permitir que as entidades financeiras disponham de capital suficiente para retomarem uma actividade mais nornalizada, de um ponto de vista de crédito. Temos de conseguir criar cionfiança, entre as instituições financeiras, para que o mercado interbancário volte a funcionar. E essa retoma da confiança, essa normalização progressiva do mercado interbancário e das relações entre as entidades financeiras e de cada uma delas com os seus clientes é o que deve levar a uma progressiva normalização.

EN-Tem-se falado de uma recapitalização dos bancos europeus, com um fundo europeu…

JA-Tem havido propostas e há propostas sobre a mesa e temos estado a discutí-las, no Eurogrupo e no Ecofin. Como, por exemplo, uma acção coordenada dos bancos europeus para criar, em cada um dos países, um fundo com essas características. Mas ninguém falou de um fundo europeu.

EN-Alguns países pressionaram para se avançar…

JA-Alguns pensaram que o que estava a ser proposto pela Holanda e outros governos era um fundo, centralizado em Bruxelas, mas ninguém propôs isso.

EN-Poderia ser uma boa ideia, criar um fundo único europeu, com uma autoridade única?

JA-Insisto. Há que ser realista, agora já não temos tempo para fazer propostas utópicas, há que fazer propostas realistas e uma proposta realista consiste em que cada país mobilize recursos públicos e privados. Se isso se fizer de forma concertada, aumentará a confiança entre as instituições financeiras que operam num mercado único, como é o mercado interbancário.

EN-Para os cidadãos europeus que têm medo de perder as suas poupanças, neste momento. Qual é a sua análise da situação?

JA-Ninguém está em risco de perder as suas poupanças, sinceramente. Há instituições financeiras que têm problemas, mas estamos a ver, caso a caso, ou com contribuição de dinheiro público, ou com dinheiro privado – porque há outras entidades financeiras privadas que as absorvem ou as compram e integram – estamos a ver se assim resolvemos o problema. Ninguém perdeu nada.

EN-Há dinheiro suficiente para garantir todos os depósitos, como se está a fazer, no plano nacional?

JA-O que existe são instrumentos suficientes para evitar que haja instituições financeiras que tenham uma crise como a que teve o Lehman Brothers, nos Estados Unidos. Na Europa, não queremos ter nenhum Lehman Brothers e não vai haver nenhum Lehman Brothers, não vai haver um grande banco que caia na bancarrota e que tenha de desaparecer. Isso não vai haver.

EN-Apesar das intervenções anunciadas por muitos estados, intervenções muito importantes, os mercados reagiram com indiferença.

JA-O que há é uma situação de profunda desconfiança, entre as entidades financeiras. Como não há suficiente transparência, cada instituiçâo financeira pensa que os outros, a quem tem de emprestar dinheiro e de quem tem de receber dinheiro, estão em pior situação, porque os mercados financeiros funcionam na base da confiança.

EN-Pensa que, no futuro, a finança terá um papel menos importante do que o que teve até agora?

JA-O que não necessitamos é da pura lógica das operações financeiras que se desliga da realidade, perdendo a consciência do risco, perdendo a consciência de quem é aquele que investe o capital, a lógica que permite essas operações

EN-A intervenção pública, por parte dos estados membros, pode por em perigo o Pacto de Estabilidade?

JA-O Pacto de Estabilidade e Crescimento está vivo, está a funcionar e vai continuar a funcionar. O que se passa é que quando revimos o Pacto de Estabilidade, em 2005, sem poder prever que íamos viver, três anos depois, uma situação tão difícil, introduzimos elementos de flexibilidade para os momentos baixos do ciclo económico, para os momentos de baixo crescimento que agora são uma grande ajuda. Sei que vai haver um aumento dos défices públicos, em alguns casos, já estão a aumentar. Mas também lhe posso dizer o consenso, em torno da necessidade de preservar as regras de disciplina orçamental que constituem o Pacto de Estabilidade e Crescimento é um consenso que foi reiterado na última reunião dos ministros da Economia e Finanças, por unanimidade e que os chefes de Estado e de Governo, que se reuniram em Paris, há poucos dias, já tinham reiterado, com total unaimidade.