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"Não há choque de civilizações", afirma o sábio Todorov

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"Não há choque de civilizações", afirma o sábio Todorov

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Tzvetan Todorov analisa a questão do Kosovo com pragmatismo. Considera ter ficado claro que as duas populações não pode viver juntas e que, talvez por isso, se tenha de dar a liberdade aos sérvios de unirem as suas regiões à Sérvia, Também constata que os dois Estados teocráticos, Irão e Arábia Saudita, são o pior inimigo e o maior amigo dos Estados Unidos. Este ano recebe o Prémio Príncipe das Astúrias em Ciências Sociais.

euronews: Nasceu na Bulgária e há 45 anos que vive em França e publica todos os livros em francês. Sente-se uma excepção ou nem por isso?

Tzvetan Todorov: Não me sinto uma excepção porque, na realidade, são muitas as pessoas que mudam de país. Diria que há um benefício derivado de tal estatuto. Essa é a vantagem de ter um olhar um pouco distante, de outra perspectiva, pois somos criados dentro da tradição e costumes, e acreditamos naquilo que aprendemos na escola e bebemos com o leite materno é a norma, é a natureza. Poder deslocar-se, poder olhar através dos dos olhos de outros , permite libertar-se um pouco da ilusão… Penso que a UE dá mais condições para realizar esse ideal.

euronews: Nos seus livros fala sobre a ideia da “força tranquila”, que deve incarnar a União Europeia. O que quer dizer com isso?

Tzvetan Todorov: Não sou de todo um pacifista. Não acho que se tenha de renunciar à força militar. A União Europeia está protegida pelas forças da NATO que são dominados pelo governo, pelos Estados Unidos. Se queremos que a Europa tenha uma política própria, ela tem de ter um comando militar separado. Chamo a isso uma “potência tranquila”, para indicar que não é sua tarefa ocupar terras estrangeiras, mas sim de ser capaz de proteger-se contra qualquer ataque, ocorra ele em terra, com meios convencionais ou com actos terroristas.

euronews: Opôs-se ao bombardeamento da NATO contra a Jugoslávia e disse que, em vez de lançar bombas, a Europa e os Estados Unidos deviam investir na região. Acha que a independência do Kosovo vai concertar as coisas?

Tzvetan Todorov: O Kosovo tornou-se um problema, penso eu, e não há como o transformar de uma maneira ou de outra, na medida em que o território do Kosovo, que é agora um Estado reconhecido por muitos países europeus, é, ao mesmo tempo, suficientemente pequeno e frágil, está em banho maria, a princípio, pela ONU e, agora, está a cargo da União Europeia. Não me parece que o objectivo da União Europeia seja o de manter essas bolsas de “não-Estados “. Acho que Martti Ahtisaari, que ganhou o Nobel da Paz pela actuação no Kosovo, tem tentado fazer o mal menor dada a situação. Uma vez que ocorreram bombardeamentos, tornou-se claro que estas duas comunidades não podiam voltar a viver num único e mesmo Estado. Provavelmente, um dia teremos de reconhecer também o direito dos territórios dos sérvios do Kosovo de se juntarem ao resto da Sérvia sob o mesmo princípio da purificação étnica que se pretendia combater com bombas.

euronews: Escreve que a Turquia poderá aderir à União Europeia, porque é um Estado laico que fará parte de uma união laica, mas argumenta que a Rússia não poderia, pois é muito grande em tamanho e população. Devem ultrapassar-se as fronteiras da União alargada?

Tzvetan Todorov: Não posso imaginar a União Europeia como uma união aberta para todos os lados. Seria uma nova sociedade das nações e que não é de todo o projecto europeu. E, de facto, a Rússia que vai de Vladivostok a Smolensk é um todo muito grande para que imaginemos possível integrar a União Europeia, embora a cultura russa esteja profundamente imbuída de influências culturais da Europa Ocidental. No entanto, a Turquia levanta um problema, na medida em que se integrar a União Europeia, a Comunidade Europeia a fronteira europeia será com o Irão, o Iraque e a Síria. Regimes e populações muito diferentes das da União Europeia para sequer considerar a possibilidade de uma aproximação… Diria que o que é do interesse dos europeus é ter bons vizinhos, e os melhores estão próximos da Europa, mas não são parte dela.

euronews: No último livro, escreve que é o medo dos bárbaros que pode tornar-nos bárbaros. Acha que a noção de um choque de civilizações é meramente superficial ou prejudicial?

Tzvetan Todorov: A noção de “choque de civilizações” pode ser criticada, em primeiro lugar, do ponto de vista científico, porque civilizações não correspondem a estes blocos, indiferente a estas entidades impermeáveis de que fala o autor. Os choques não ocorrem entre civilizações, mas entre Estados e entre grupos de Estados. Os conflitos não são hoje de natureza religiosa apesar do que dizem alguns, mas de natureza política. Não há qualquer problema com o Islão, existem problemas com certos países, mas não com outros. Um bom exemplo sãos os dois países teocráticos, o Irão e a Arábia Saudita, que são o pior inimigo e melhor amigo dos Estados Unidos. Enfim, “medo dos bárbaros” porque é sob o efeito do medo que se cumprem os gestos mais inadmissíveis. Ora, se as ameaças existem em abstracto, elas não estão presentes, e nada justifica a sistematização da tortura sob protecção do exército , pois isso passa-se no interior das bases militares, incluindo as da NATO, onde os soldados arriscam as vidas para que a tortura possa continuar.