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A União Europeia sofre de uma regulação excessiva

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A União Europeia sofre de uma regulação excessiva

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Mirek Topolanek é o primeiro-ministro da República Checa, país que vai assumir a presidência rotativa da União Europeia a partir de 1 de Janeiro. Esta é a primeira vez que os checos vão liderar a UE desde a adesão em 2004. Contudo, a maior frente de batalha de Topolanek permanece no interior das fronteiras checas devido ao eurocepticismo dos seus compatriotas. A República Checa assume a presidência dos 27 sem ter ratificado o Tratado de Lisboa.

euronews: Senhor primeiro-ministro, bem-vindo à euronews. Antes do mais, não receia que a luta político-partidária e a tensão entre instituições no seu país enfraqueça a sua posição enquanto presidente do Conselho Europeu?

Mirek Topolanek: Não creio que esta situação fosse essencialmente diferente noutro país. Na próxima semana terei provavelmente uma discussão com o líder da oposição e vamos concerteza encontrar uma forma de coabitação para a presidência. Eu acredito que vamos alcançar um acordo porque é do nosso interesse nacional mostrar que a República Checa tem capacidade para mediar as discussões europeias. Por isso não me sinto preocupado com esta questão.

euronews: Mas o diferendo existe no seio do seu próprio partido que apoia também o presidente que se assume como um eurocéptico. Como vai lidar com esta situação?

MT: Eu tenho de lhe dizer que o meu partido já não é o partido de Waclaw Klaus. O presidente rompeu os laços de forma irremediável quando fundou o seu partido. Mas isto é afinal uma boa notícia no caso de um presidente que deveria situar-se acima dos partidos. Não creio que o quadro actual da nossa política interna seja pior do que o dos países vizinhos. E não estou aqui a querer dar lições acerca da grande coligação na Alemanha, dos problemas na Áustria, das tensões políticas na Bélgica ou acerca dos outros países da União Europeia. Não acredito que a tensão política e as discussões em países particulares devam influenciar a presidência e a realidade. Não é este o caso.

euronews: Mas nos países que mencionou, as coligações, apesar de fracas, e os partidos que as compõem defendem abertamente políticas pró-europeias. Mas este não é o caso na República Checa onde a luta entre pró-europeus e eurocépticos é muito dura. Tão dura que que influencia todo o debate relativo à ratificação do Tratado de Lisboa.

MT: Creio que esta discussão é um bocado artificial. Eu considero-me bastante pró-europeu embora tenha algumas reservas acerca do conjunto de situações que compõem a realidade. Por isso, de acordo com algumas opiniões eu também sou um eurocéptico. Isto quer dizer que se trata duma discussão artificial. Os checos são na generalidade pró-europeus, certamente mais do que os austríacos ou alguns outros países. O espectro político está dividido mais sobre o projecto europeu como um todo e o seu desenvolvimento futuro do que sobre o nível de integração da República Checa. Os checos não são contra a União Europeia, contra a Comunidade Europeia.

euronews: Quando assumir a presidência de seis meses da União Europeia não receia que a actual presidência francesa lhe faça sombra? Por exemplo, como a proposta de realizar cimeiras em França quando o que estiver em discussão forem questões económico-financeiras ou da eurozona?

MT: Não seria a primeira vez. E não é apenas porque Nicolas Sarkozy é uma pessoa impulsiva e orientada para a acção. Na verdade, com o Nicolas se não se encontra uma solução ao fim de cinco minutos ele mostra o seu temperamento e tenta chegar ao coração do problema. Isso não me aborrece porque eu também sou assim. Contudo, os franceses têm esta tendência de tentarem prolongar a sua presidência.

euronews: O senhor partilha a visão francesa e de outros países sobre a necessidade de existir um maior controlo dos mercados financeiros para evitar este tipo de crise? MT: Eu diria que partilho as opiniões dos países que pensam que as acções devem ser coordenadas, que deveria existir um maior controlo do comércio de derivados para tornar o mercado mais seguro. Não é apenas a República Checa que pensa que deveria existir um maior controlo nacional, que as regulamentações actuais deveriam ser mais precisas e implementadas, em vez de se introduzir um novo sistema. euronews: Pensa que uma regulação europeia, a um nivel europeu, é urgentemente necessária? Uma regulação forte como está a ser reclamada por muitos paises? MT: Como é evidente eu penso que a União Europeia sofre de uma regulação excessiva. Ouvem-se vozes no Conselho Europeu a dizer que toda a política de Barroso, da Comissão Barroso, sobre uma melhor regulação, está errada. Mas aqui, vamos evidentemente entrar numa controvérsia porque não estou de acordo. Acredito que esta crise financeira é algo que a Europa não vê desde os anos 30 do século passado, mas não podemos quebrar todas as regras. euronews: Como pensa que a União Europeia vai ter de lidar com a Rússia nos seis meses da presidência checa? E vai trabalhar com os Estados Unidos na criação do escudo antimíssil? MT: É evidente que a eventual construção de uma base no território checo piorou as relações entre a Rússia e a República Checa. Mas os russos admitem que se não fosse a República Checa não teriam problemas com isso. Trata-se portanto dum problema geopolítico. O que constitui uma prioridade para nós,… embora eu não considere que o plano de seis pontos sobre a Geórgia que Sarkozy assinou com os russos tenha sido completamente respeitado sou a favor da abertura duma discussão com os russos, que na verdade já começou em Genebra. A Russia não pode estar fora da discussão e nós não podemos permitir que a discussão não continue. Por outro lado, devido à nossa experiência, o último soldado soviético deixou o nosso território a 30 de Junho de 1991, todos devem compreender as nossas preocupações acerca de energia, de política externa e de geopolítica. É por isso que é bom estar na União Europeia.