Última hora

Última hora

Alexandre Medvedev: "Damos muito valor à reputação da Gazprom"

Em leitura:

Alexandre Medvedev: "Damos muito valor à reputação da Gazprom"

Tamanho do texto Aa Aa

O gigante russo da distribuição de gás, Gazprom, esteve no centro da polémica, no início deste ano. Uma nova guerra de tarifas com a Ucrânia levou a um corte temporário do fornecimento para a Europa, o que valeu a Moscovo e ao grupo duras críticas da Comissão Europeia.

Quem tem razão neste caso? Foi o que a Euronews tentou esclarecer, nesta entrevista com Alexandre Medvedev, vice-presidente da Gazprom. Ioulia Poukhlii, Euronews: Quais são os argumentos da Gazprom para dizer que foi a empresa ucraniana Naftogaz a responsável por parar o trânsito de gás russo para a Europa? Alexandre Medvedev, V-P da Gazprom: Não são argumentos, são factos. Não foi possível, até 31 de Dezembro, celebrar um contrato com a Ucrânia. A Naftogaz, seguindo as ordens do Presidente Yushchenko, deixou as negociações a 31 de Dezembro, apesar de todos os termos do contrato para o fornecimento terem sido acordados e aprovados. Todos os volumes de gás para os consumidores europeus estavam a ser entregues, a partir de 1 de Janeiro, através da rede de transporte de gás ucraniana. Fomos confrontados com o facto de, na noite de 5 para 6 de Janeiro, o fluxo nos três principais gasodutos de exportação ter sido completamente bloqueado pelo lado ucraniano, unilateralmente e sem pré-aviso. Por isso, numa reunião do presidente da Gazprom, Alexei Miller, com o primeiro-ministro Putin, o primeiro-ministro perguntou a Miller quais eram as propostas e ele disse que não valia a pena continuar a exportar gás através do sistema ucraniano, porque não estava a atingir os consumidores europeus. EN: Quem propôs as soluções para a crise : a administração da Gazprom ou o governo da Rússia, principal accionista da empresa? AM: As questões essenciais foram resolvidas numa reunião entre os primeiros-minsitros Tymoshenko e Putin. Em seguida, os contratos foram discutidos entre a Naftogaz e a Gazprom. Eu não sou um político e não devo comentar as declarações do Presidente Yushchenko. Além disso, foi surpreendente ouvir dizer que o preço básico de 450 dólares não existe na Europa. A maioria dos nossos parceiros na Europa, no primeiro trimestre, pagou muito mais que 450 dólares, para não falar do preço privilegiado de 360 dólares que fizemos à Ucrânia. EN: Quais são as perdas sofridas pela Gazprom como resultado da crise de Janeiro – e quem deve reembolsar? AM: Perdemos, em receitas de exportação, mais de 2 mil milhões de dólares. Estamos agora a calcular as implicações financeiras de encerramento de alguns poços, o desvio do fluxo de gás no interior do país e reservamos o direito de exigir uma compensação das perdas através da arbitragem internacional. Estamos agora a fazer todos os cálculos e a preparar os documentos. Claro, vamos pedir uma indemnização a quem causou esta situação, a saber, o lado ucraniano. EN: Não teme acções judiciais da parte dos consumidores do gás russo? AM: Até agora não há qualquer acção desse tipo, e além disso chegámos à conclusão, com a maioria dos nossos parceiros, de que não há qualquer dano, graças ao nosso trabalho conjunto. Os nossso esforços comuns fizeram com que os gasodutos Yamal-Europa e Bluestream pudessem trabalhar a plena capacidade, por isso não vai haver qualquer acção dos consumidores contra nós. EN: A União Europeia disse que, depois desta crise, a Rússia não poderia ser considerada um fornecedor fiável. O que vai fazer a Gazprom para provar o contrário? AM: Essas declarações são muito estranhas, damos muito valor à nossa reputação. Há mais de 40 anos que fornecemos gás à Europa. Temos todas as condições para para garantir que o século XXI seja o século do gás natural. Vamos cumprir todas as nossas obrigações e por isso essas afirmações não só são gratuitas, como estão privadas de qualquer fundamento. Fizemos todos os possíveis para evitar esta crise, para superá-la. O resultado é, na realidade, um sistema mais fiável de abastecimento, porque assinámos dois contratos a longo prazo, com uma validade de 11 anos, sobre o trânsito e as entregas. EN: Quais são as garantias de que a crise não se vai repetir? AM: A garantia é o respeito pelos contratos assinados pela Ucrânia. Esperamos que, apesar das declarações que foram feitas, estes contratos não sejam postos em causa. Não há razões para a Ucrânia estar descontente com o contrato. Além disso, a Rússia avançou iniciativas, que a Gazprom apoia, para estabelecer um mecanismo para prevenir e superar os riscos. O motivo desses riscos pode ser não só a luta política, que levou crise de Janeiro de 2009, mas outros, causados pelo homem ou riscos naturais, sem falar dos ataques terroristas. Além disso, a Carta Europeia da Energia revelou-se, infelizmente, impraticável. Apesar do facto de a Ucrânia ter assinado e ratificado esse documento, violou as obrigações que a Carta lhe impunha. EN: Quando espera começar as entregas através do Nord Stream, e qual dos dois gasodutos, Nabucco e South Stream, vai entrar em funcionamento primeiro? AM: Estamos a cumprir o calendário previsto para o Nord Stream. As entregas de gás devem começar no final de 2011. Esperamos que todos os processos fiquem concluídos, em conformidade com as normas internacionais. Se uma desnecessária politização do projeto não vier interferir, devemos ter este ano todas as licenças necessárias e podemos começar a contrução do gasoduto, na parte subaquática e na Alemanha, o que nos vai permitir começar as entregas em 2011. Quanto ao projecto South Stream, não se trata de uma competição e o objectivo não é chegar à meta em primeiro lugar. Quanto ao Nabucco, temos já todas as condições – gás em quantidades suficientes, para toda a duração do projeto, um mercado já constituído de acordo com os nossos contratos a longo prazo e, mais importante, temos a experiência tecnológica de gestão necessária para este projecto. Por isso, quero desejar aos accionistas do Nabucco boa sorte, mas nós seguimos o nosso caminho.