Última hora

Última hora

Autor de "Gomorra" acusa: Mafia imiscui-se na banca europeia

Em leitura:

Autor de "Gomorra" acusa: Mafia imiscui-se na banca europeia

Tamanho do texto Aa Aa

Roberto Saviano é o autor de “Gomorra”, o livro que descreve as redes do clã da Camorra Casalesi, o mais poderoso e violento, na região de Nápoles. Está ameaçado de morte pelo Sistema, que é como a Camorra se assume. O filme baseado no livro, provocou ainda mais o inimigo que se apropria da marca de origem de “made in Italy”.

Raquel Garcia- Alvarez entrevistou, em exclusivo, para a Euronews: euronews – No último Natal expirou o prazo da sentença de morte que o capo napolitano Carmine Schiavone decretou contra si numa cela de prisão.. Mas ainda aqui está…como vive o dia a dia? Roberto Saviano – Ciclicamente, há sempre alguém que dá uma informação sobre a minha morte ou a minha execução. Para conseguirem apanhar-me, esperam que diminua a atenção mediática sobre mim e o meu caso. Porque agora o que me mantém vivo não é protecção da polícia, que agradeço, mas a atenção que as pessoas deram às minhas palavras. Mesmo Carmine Schiavone declarou ao jornal “Il Tempo”: estão à espera da espuma que fica para trás da vaga e que as pessoas se esqueçam de mim e do livro, é tudo”. euronews – Como faz para conviver com o medo? R.S -Não é medo, estou bem ciente de que vou pagar caro. Tento, de alguma maneira compreender como, quando e porquê. Mas não vão dar-me essa atenção, como eu disse – nem a ninguém que os ataca E nunca se exibem, quando o atacante é forte. O mecanismo é simples e funciona assim: tentar destruir a imagem da pessoa que atacou. Transformar em ilegítimo e acusar de plágio, para chamar palhaço. Ultimamente chamam-me sempre assim, fazem passar essa imagem. E quando acontece, não nos sentirmos pessoas inteiras, tornamo-nos vulneráveis. euronews – A Camorra está em dificuldades? R. S- Se fosse só isso. Mais do que a situação difícil é o estar sob os projectores dos Media. E é por isso que me detestam. No estrangeiro, perguntam-me como é possível um livro incomodar tanto uma organização com tanto poder. Na realidade, o livro tem irritado porque milhões de pessoas o leram e porque despertou a atenção dos Media: televisão, rádio, jornais, o que não acontecia anteriormente. Isto provocou uma resposta do Estado muito mais importante porque, com a pressão dos Media, não se podia ignorar, como antes e como continua a ser ignorado noutros pontos de Itália. euronews – O senhor explica como vários clãs mafiosos têm utilizado a construção e sector imobiliário para branquear dinheiro… Que se passa agora, durante esta crise? R.S. – É exactamente a mesma coisa, só que a crise os deixa mais fortes, é o mesmo, porque, como denunciou a ONU (não é a minha teoria mas o estudo sobre narcotráfico), as grandes organizações mafiosas estão a entrar nos bancos internacionais que, por falta de liquidez, aceitam receber dinheiro sujo para resistir à crise. E isto é muito grave não só porque o dinheiro sujo está a entrar em bancos europeus, o que está sempre a acontecer. A questão é que ao entrarem durante a crise económica podem vir a orientar a política financeira dos bancos: quem financiar, que empresário proteger… .e, na retoma económica daqui a três, cinco anos, passa a crise e apercebemo-nos. O problema é que estamos a perder o futuro. Hoje, a Mafia, as “máfias”, estão a hipotecar o futuro deste continente. euronews – O que é preciso para mudar isto? Imaginando que isto acontece, o que pode rebentar com o sistema, a Camorra? R.S – Na realidade, com esta crise, penso que o prazo para atacar estas organizações criminosas está demasiado alargado. E, finalmente, o país (Itália), não quer. Está a pensar noutras coisas, no trabalho precário, no problema das reformas, nas escutas telefónicas … e acha que o problema da Mafia é um problema entre outros. Mas não…é o Problema. euronews – Até que ponto a criminalidade afectou, e afecta, ainda a Itália? R.S. -Hoje, os poderes criminosos afectam principalmente a Europa. Em Itália, faz mal à economia desde os anos 90. Hoje, as economia alemã, inglesa e espanhola, estão profundamente infectadas por organizações criminosas sem que os governos desses países informem os cidadãos. Hoje, a Europa paga o preço mais elevado da presença da economia mafiosa. Só terá socialmente consciência quando for tarde demais, como em Itália. euronews -Perguntaram-lhe muitas vezes se voltaria a escrever o livro, conhecendo as consequências do sucesso… Ao princípio, afirmava não ter dúvidas…e depois passou a sentir-se prisioneiro do livro… R.S- Por um lado, voltava a escrevê-lo, pois foi verdadeiramente importante em termos de fenómeno de edição … tantas pessoas têm lido, pessoas que jamais entravam numa livraria e compravam. Mas a nível pessoal, não recomeçaria. Na vida pessoal, na minha vida, para além do livro, tudo piorou, explodiu. Não tenho nenhuma dúvida: se fosse só uma decisão pessoal, não o voltaria a fazer. Hoje, detesto-o. Já não posso mais. Não tenho a mínima simpatia pelo meu livro. euronews – Como é que vê o futuro? Consegue conceber projectos pessoais, sendo fugitivo? R.S – Sim, tento fazer projectos. Uma vez, um velho jornalista italiano, Enzo Biagi, que foi o primeiro a entrevistar-me, disse-me: “o país nunca vai perdoar-te”. Porque a Itália não permite que se contem estas coisas. Quando o filme estreou levantou-se um enorme coro de críticas apara dizer que eu não devia falar destas coisas. Pode parecer ridículo visto de fora. Um americano ou um espanhol considera estes comentários impensáveis, mas isto faz parte da cultura intelectual italiana. Pode falar-se da Toscania, da simpatia dos italianos, ou dos italianos como pessoas de bem … mesmo de política. Mas se falarmos mal, é entre nós. na realidade, não consigo ver o meu futuro, nem sequer imaginar.