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Élie Barnavi: classe política israelita é medíocre

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Élie Barnavi: classe política israelita é medíocre

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Élie Barnavi é um historiador e politólogo israelita. Actualmente vive em Bruxelas, onde desempenha a função de conselheiro científico do Museu da Europa. No passado ocupou o posto de embaixador de Israel em França. No currículo conta com várias obras e uma carreira no ensino. Foi membro do movimento “Paz Agora” e acedeu analisar o momento político israelita para a euronews. Um momento grave devido à mediocridade da classe política actual, refere.

euronews: Bem-vindo à euronews. Os israelitas vão votar condicionados pela situação internacional que envolve o país ou por razões internas? Éli Barnavi : Tradicionalmente Israel é, talvez, a única democracia onde se vota bastante por razões exteriores. Na Europa vota-se sobretudo por razões internas, a economia por exemplo, sobretudo neste momento. euronews: O eleitorado inclina-se para a direita por causa do que se passou em Gaza ou pensa que se trata de uma tendência de fundo da sociedade israelita? EB: Não, a viragem dos israelitas à direita é já uma história antiga que é explicada por um certo desespero face a um processo de paz que defraudou todas as expectativas. Paradoxalmente, a mesma opinião pública, em condições favoráveis, estaria pronta a aceitar um plano de paz generoso mas não há ninguém capaz de o propor pelo que nas urnas isso se traduz por uma viragem à direita. euronews: Há uma crise de liderança? EB: Nós temos dois problemas. Temos uma classe política medíocre no seu conjunto. Deste ponto de vista estamos em igualdade de circunstâncias com o mundo ocidental. Salvo raras excepções os melhores fogem da política. Podemos encontrá-los nas novas tecnologias, na universidade ou mesmo nas forças armadas, ainda que neste campo tenha havido também uma espécie de descida de nível. E sobretudo, embora eu pense que os dois problemas estão ligados, há uma falência antiga, mas agora evidente, do sistema político israelita. Em Israel votamos num sistema proporcional integral e isso cria a mediocridade. euronews: A não ser que, por exemplo, se encontre uma resposta imediata à crise profunda e aparentemente irreversível do processo de paz? EB: Não há 36 soluções, é necessário evacuar os territórios. Mas evacuar os territórios significa expulsar dezenas de milhares de colonos. Não vejo ninguém em Israel capaz de o fazer. Nem Netanyahu, nem Tzipi Livni, nem Ehud Barak. É por isso que para mim o vencedor das próximas eleições não é importante. E talvez o melhor mesmo é que seja Netanyahu o vencedor. Pelo menos desta forma sabemos em que pé estamos. É preciso pôr fim à farsa do actual processo de paz. Parece-me importante compreender que o actual processo de paz e a forma como avança não nos vai conduzir à paz. É uma ilusão. euronews: Qual é, para si, a solução? EB: Esta é uma questão que não é exclusiva dos israelitas e dos palestinianos. É uma questão que deve ser tratada pela comunidade internacional, e em particular, pelos americanos. A única saída passa pela nova administração que, em conjunto com os europeus e o Quarteto, diga: “- Pronto, agora chega! Aqui estão os parâmetros que vos devem reger e nós queremos resultados.” Isto pode fazer-se porque nenhum governo israelita, qualquer que seja o seu líder, é capaz de resistir a uma vontade americana forte. euronews: Mas isso seria uma espécie de regresso ao protectorado, a algo imposto do exterior por uma ou várias potências? EB: Sim, é verdade, é verdade… mas não seria a primeira vez. George Bush pai levou Yitzhak Shamir – Shamir! – a Madrid. Quando os americanos querem, eles conseguem. Com a condição de que o queiram verdadeiramente e que não aguardem pelo fim do mandato presidencial para meterem mãos à obra. E creio que com Obama há uma oportunidade. É essencial compreender isso, seja qual for o nome que lhe derem, pode chamar-se-lhe protectorado, é o menos importante. euronews: Quais são os intrumentos de pressão a que os americanos poderiam recorrer para convencer as duas partes? EB: Os instrumentos existem. Temos o modelo de negociação… de negociação não, de solução. E desde 2002 temos o quadro prometedor da proposta saudita. Pela primeira vez desde o início do conflito há quase cem anos que um grande país árabe diz: estamos prontos não só para fazer a paz com Israel, como a normalizar todas as relações, desde que os territórios sejam desocupados e que um Estado palestiniano viável seja criado. Esta proposta saudita foi endossada pelo conjunto dos Estados da Liga Árabe. Trata-se de um avanço formidável e é uma pena que não lhe tivéssemos dado importância. euronews: Essa proposta saudita era portanto uma forma de reconhecimento implícito por parte de muitos países árabes e da Árabia Saudita em primeiro lugar? EB: Não era implícita, era explícita. Com a emergência do Irão e a criação de um arco xiita radical, muitos países sunitas moderados estão assustados. Mais do que nós. Estão em pânico. Estamos perante uma configuração revolucionária, com um mundo árabe-sunita que se está a contrair e a perder influência em proveito de potências não-árabes como o Irão, a Turquia ou Israel. E quem está consciente dessa realidade tenta impedir o contágio iraniano. A campanha contra o Hamas, a guerra de Gaza, tem que ser vista neste contexto. Israel, se tivesse a liderança que era preciso, devia apoiar-se nesta configuração para concluir a paz com o mundo sunita. euronews: Mas para fazer a paz Israel deveria abandonar as colónias. A sociedade israelita está pronta para isso? EB: A resposta é um sim categórico e tivémos a prova quando desmantelámos as colónias na Faixa de Gaza. A aposta dos colonos extremistas era de que a sociedade israelita se iria mobilizar em seu favor mas não aconteceu nada disso, nada! Todas as sondagens, todos os estudos de opinião o mostram, uma maioria esmagadora dos israelitas é favorável a uma solução negociada para a paz e todos conhecem o preço a pagar, abandonar a Judeia e a Samaria. Eles estão dispostos a tudo, mesmo a dividir Jerusalém.