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Hashim Thaci: "Em 2009 vamos ser reconhecidos por novos países, até pela nossa vizinha Sérvia"

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Hashim Thaci: "Em 2009 vamos ser reconhecidos por novos países, até pela nossa vizinha Sérvia"

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Já passou um ano desde que Hashim Thaci se tornou o primeiro-ministro do Kosovo. A presença das tropas de manutenção de paz ainda se sente no território, uma década depois dos bombardeamentos da NATO para proteger a maioria albanesa da limpeza étnica levada a cabo pelos sérvios. Os cortes na electricidade são constantes e cerca de 50% da população não tem emprego. A proclamação de independência enfureceu os 120 mil servios kosovares que vivem essencialmente no norte, onde se sente uma forte tensão. E Belgrado ainda considera ilegal a declaração de independência unilateral. Em entrevista à euronews, o primeiro-ministro kosovar mostra-se optimista.

euronews – Há um ano, o Kosovo foi reconhecido por muitos países, mas não por todos. Há uma área no norte do país que não o reconhece; o país ainda depende muito das agências internacionais… como vê o primeiro ano da independência do Kosovo? Hashim Thaci – O primeiro ano do Kosovo como um país independente, soberano e democrático, foi um ano de sucesso histórico. A decisão do Kosovo se tornar um Estado trouxe mais paz, estabilidade, cooperação regional e uma perspectiva europeia. O nosso Estado agora tem símbolos unificadores relevantes para todos os cidadãos e construímos um ambiente democrático com uma sociedade multi-étnica. euronews – Senhor primeiro-ministro, o que vai acontecer com a parte norte do Kosovo, actualmente uma zona étnica de sérvios kososvares? Eles não reconhecem o seu governo… Como vai pôr um fim no conflito nesse local? Hashim Thaci – O futuro de Mitrovica é o futuro do Kosovo. Ainda há algumas vozes extremistas aqui, mas elas não representam a população sérvia. Os sérvios fazem parte das instituições. Mas a missão EULEX está estacionada em todo o território. As instituições de Pristina estão a começar a ser destacadas para o norte e assim não haverá espaço para estruturas ilegítimas, paralelas e extremistas. Haverá apenas o cumprimento da lei. Neste contexto, acredito que em 2009 vamos ser reconhecidos por novos países, até pela nossa vizinha Sérvia. O Kosovo está pronto para abrir uma embaixada em Belgrado, da mesma forma que eu gostava de ver Belgrado a abrir uma embaixada em Pristina, para fecharmos este capitulo de conflito entre o Kosovo e a Sérvia e termos paz definitiva nesta região. euronews – Imagino que o governo de Belgrado tenha uma perspectiva diferente neste momento. É um pouco idealista pensar que existirâo laços diplomáticos entre o Kosovo e a Sérvia, porque a Sérvia nem sequer reconhece o Kosovo como um país separado… Hashim Thaci – O reconhecimento mútuo entre o Kosovo e a Sérvia como dois estados separados é a via mais realista. Os líderes de Belgrado pensam em reconhecer o Kosovo independente, mas ainda estão muito agarrados à opinião pública anti-albanesa, uma opinião que pertence a uma mentalidade do passado. Belgrado sabe, está consciente e aceitou interiormente que o Kosovo é um país independente, soberano e democrático. Agora só é preciso uma decisão política de reconhecimento. euronews – Imagino que ao comparar o governo actual com o de Slobodan Milosevic, isso não o coloque numa posição favorável para a autoridade sérvia hoje em dia… Hashim Thaci – Não estou a comparar a actual autoridade em Belgrado a Slobodan Milosevic, mas em relação ao Kosovo, têm uma atitude agressiva, uma atitude que viola a soberania da república do meu país e Slobodan Milosevic foi responsável pelas mesmas violações. Slobodan Milosevic cometeu genocídio no Kosovo, mas os actuais líderes em Belgrado mostram as suas intenções todos os dias, ao violarem a soberania e a integridade territorial do meu país. euronews – O seu país quer juntar-se à União Europeia? Hashim Thaci – Sem dúvida. O futuro do Kosovo é certamente europeu. O Kosovo está a implementar critérios democráticos na política, na legislação e na economia. No ano passado, recebemos um relatório de progresso da Comissão Europeia. Este ano teremos um estudo de praticabilidade, que, esperamos que seja uma avaliação realista do bom trabalho que tem sido feito no Kosovo. Assim, como todos os outros países da região, vai fazer parte da NATO e da UE. Temos um certo futuro europeu. No fundo, o Kosovo e a Sérvia não são os únicos países que lutaram um contra o outro e que se podem sentar num sítio comum e discutir prioridades comuns, de forma a percorrer o caminho dos valores globais. Há outros países na Europa que fazem parte da família europeia e que tiveram ainda piores conflitos entre eles, mas que agora trabalham juntos para os mesmos valores comuns. euronews – Falando da situação económica global, como é que isso está a afectar o Kosovo, já que a economia kosovar já não era a mais forte do mundo, antes desta recessão. Como está a afectar a economia do Kosovo? Hashim Thaci – Independentemente da crise global, temos visto um crescimento económico de seis por cento. Não podemos dizer que a crise não terá impacto no Kosovo, especialmente no que toca à nossa diáspora pelo mundo, que investe grandes quantias de dinheiro no Kosovo. Pode também ter impacto nos investidores internacionais, apesar do sector bancário ser bastante estável. euronews – Por fim, senhor primeiro-ministro, há dez anos usava um uniforme. Agora usa um fato, como primeiro-ministro da sua nova república. Onde se vê daqui a dez anos? Hashim Thaci – Eu era primeiro-ministro durante os bombardeamentos da NATO, quando ganhámos a guerra. Eu era e sou primeiro-ministro desde o período em que o Kosovo foi declarado um país independente, soberano e democrático. Ocorreram tremendas mudanças. Não é fácil para um país, em dez anos, ganhar uma guerra pela liberdade, ter uma transição democrática de sucesso, declarar a sua independência, ver novos reconhecimentos e abrir as perspectivas para uma integração na NATO e na EU.