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Frattini :"O protecionismo não é a solução para a crise"

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Frattini :"O protecionismo não é a solução para a crise"

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Franco Frattini tornou-se no ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, quando Silvio Berlusconi voltou ao governo em Abril de 2008. Deixou o posto do comissário da Justiça para novos desafios como a renovação da estratégia do Afeganistão, a presidência italiana do G8 e as relações da Europa e do Ocidente com o Irão. Ainda ao nível europeu, Fratini deverá gerir as relações entre a Itália e a Roménia. Bucareste queixa-se da xenofobia crescente em Itália contra os seus imigrantes, enquanto Roma quer que a Roménia receba os seus cidadãos que cometeram crimes em Itália.

euronews: Senhor Franco Frattini, bem vindo à euronews. A crise económica e as dificuldades do crédito são problemas graves para a Europa, especialmente a Europe central e ocidental onde alguns membros da União enfrentam sérios riscos de bancarrota. De acordo com a Itália, que assume actualmente a presidência do G7, Como podem estes problemas ser resolvidos? Franco Frattini: Bom, primeiro que tudo, a conferência dos ministros das Finanças do G7, realizada em Roma há algumas semanas, estabeleceu um princípio importante: é fundamental criar um conjunto de regras global para os actores europeus e não europeus. Qualquer intervenção urgente deve ser baseada nestas regras, como por exemplo, o plano de recuperação do sector bancário. Esta foi a primeira grande decisão que eu espero seja confirmada pelo G20, a cimeira económica que vai decorrer em Londres. e: E qual é a solução para o problema da fuga de capitais dos países da Europa central e de Leste. Os antigos países socialistas que estão ameaçados pelo risco do proteccionismo? F.F: É verdade. O proteccionismo será errado. Não é a solução para conter a crise. Já foi dito que a Europa está pronta a garantir a sustentabilidade dos investimentos que nenhum estado sozinho pode garantir, com o chamado Eurobond. e: Sejamos práticos. Existe o dinheiro de que necessitam os países do Leste da Europa? F.F: Com as ferramentas europeias certas, penso que estes países não entrarão na bancarrota. Não podemos distribuir dinheiro, mas podemos oferecer garantias e as garantias significam confiança. e: Tem havido algumas tensões verbais entre a Itália e a Roménia. O que é os dois países podem fazer de forma a acabar com crescente falta de confiança um no outro? F.F: Temos em Itália cerca de um milhão de romenos. Deste milhão, três mil estão a cumprir uma pena em prisões italianas. Pensamos que seria justo que essas pessoas cumprissem as penas no seu país. Isto porque a Roménia é um país europeu e as prisões romenas são prisões europeias. Há outros romenos que cometeram crimes terríveis como violação, assassínio, assaltos, essas pessoas vão ser julgadas pela justiça italiana. Depois, há mais 950 mil romenos que vivem em Itália respeitando a lei e são bem vindos e queremos que fiquem no nosso país.” e: De acordo com a lei internacional, ou com a lei europeia, é possível enviar um cidadão romeno para uma prisão romena quando o crime foi cometido em Itália? F.F: Com certeza… e: E de acordo com a lei europeia, a pessoa condenada tem o direito de escolher? F.F: Claro que não… em alguns casos. Em 2006 fiz uma proposta que foi adoptada. Vai entrar em funcionamento, por causa de questões burocráticas, o mais tardar em 2010. Esta directiva estabelece claramente que uma pessoa condenada deve cumprir a respectiva pena no país onde residia antes de cometer o crime, porque essa realidade lhe é mais próxima e as famílias vivem aí. A Europa decidiu assim e a Roménia vai ter que aceitar estas pessoas, assim como todos os outros países da União Europeia. O que estamos a pedir à Roménia é apenas que antecipe, através de um acordo bilateral, a adopção daquilo que será uma obrigação constitucional europeia. e: Falemos do Afeganistão. O que ofereceu o senhor aos Estados Unidos? F.F: A Itália já é o terceiro país da NATO em termos de contribuição. Estamos prontos a aceitar uma maior flexibilidade na contribuição das nossas tropas. Isto não quer dizer que o destacamento se vai transferir de uma região para outra. Faremos ainda mais, enfrentaremos a dimensão política, porque a dimensão política Afeganistão-Paquistão é mais importante, a médio e longo prazo, do que um simples compromisso militar e a administração Obama está muito interessada nisso. Nós vamos realizar uma conferência internacional no decorrer da presidência do G8, alargada a países que não sendo do G8 são actores regionais importantes. E discutiremos com a administração americana a forma de juntar também o Irão. Esta é uma grande novidade política porque o Irão é uma actor muito importante na região que partilha centenas de quilómetros de fronteira com a província afegã de Herat. e: Recebeu o apoio sobre a questão afegã e iraquiana dos parceiros europeus? Não consta que exista uma política externa europeia comum para esta região. Tudo repousa na acção política individual de cada país? Não é verdade? F.F: A maior parte dos parceiros europeus está a contribuir na operação no Afeganistão e está de acordo com as principais questões que vão ser discutidas na conferência que vai decorrer em Trieste, sob a presidência do G8. e: Abrir as portas ao Irão é um grande desafio político e diplomático. Mas o Irão não abandona os seus objectivos nucleares. Porque é que o Ocidente e particularmente o Estados Unidos estão a mudar de retórica relativamente a este país? F.F: Isto não é um cheque em branco ao Irão, é um diálogo de negociação. Eu vou abordar esta questão com a administração americana. Falei com o meu colega iraniano, o ministro dos Negócios Estrangeiros, que vai reflectir seriamente porque esta abordagem da parte de um país que preside ao G8 é um facto político novo. e: Esta nova abordagem em relação ao Irão não está relacionada com a mudança de atitude da administração Obama que quer surgir um pouco mais independente relativamente à relação tradicional e profunda dos Estados Unidos com Israel? F.F: Penso que tentar esta nova aproximação é também do interesse dos nossos amigos israelitas, que se sentem receosos com a proliferação nuclear iraniana. E nós queremos tranquilizá-los.