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Abdullah Gul, Presidente da República da Turquia: "O PKK e o Hamas não têm qualquer relação entre si"

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Abdullah Gul, Presidente da República da Turquia: "O PKK e o Hamas não têm qualquer relação entre si"

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Abdullah Gul é o décimo primeiro Presidente da República da Turquia e um dos políticos turcos mais importantes. Antes de ocupar este cargo, para o qual foi eleito em dois mil e sete, foi ministro dos Negócios Estrangeiros e, antes disso, Primeiro-ministro durante apenas cinco meses. A Turquia não chegou ainda a acordo com a União Europeia mas assume um papel crescente na Aliança Atlântica.

euronews: Senhor Presidente, a Turquia assume um papel crescente no seio da NATO isso implica um maior poder decisor na Aliança Atlântica. O que pensa sobre isso?

Abdullah Gul, Presidente da Turquia: Gostava de começar por dizer que a NATO é uma organização de segurança muito importante e que a Turquia é membro desde o início, mil novecentos e cinquenta. Mas, num mundo em constante evolução as questões de segurança evoluem para novos conceitos. Apesar da segurança dizer respeito a cada um dos Estados, a verdade é que com a existência de numerosas organizações ilegais, o terrorismo transformou-se numa questão central no mundo. Obviamente que, nestes condições, a NATO recebeu novas missões e transformou-se numa instituição importante na luta contra o terrorismo.

euronews: Há novos desenvolvimentos em relação à questão curda, sobretudo no que diz respeito ao norte do Iraque, o que é que a Turquia vai fazer?

Abdullah Gul: Para conseguirmos erradicar as organizações terroristas, é preciso aplicarmos programas e planos complexos e variados e a Turquia está a fazer isso. Fazemo-lo claramente, de maneira pública, ou não, mas aqueles que se recusam a abandonar as armas e que querem continuar a bater-se terão que ser combatidos militarmente. Eu tenho que dizer isto. Mas também há numerosas pessoas que cometeram erros e que se viram envolvidas no terrorismo sem o saberem, temos que olhar por essas pessoas. Até agora, o governo regional curdo, do norte do Iraque, recusa-se infelizmente, a fazer o que é preciso mas eu estou satisfeito por puder dizer que nas nossas reuniões comuns, nos últimos meses, eles entenderam que a organização terrorista é também prejudicial para eles. euronews: A Presidência turca está muito próxima de Israel, sob o ponto de vista das relações internacionais, das relações entre estados. Em Israel o Hamas é considerado uma organização terrorista. Vê esta organização da mesma forma que vê o PKK? Digo-o porque as vossas relações com o Hamas são um pouco diferentes… Abdullah Gul: O PKK, o Hamas e a questão palestiniana não têm qualquer relação entre si. Nessa região há múltiplas organizações. Algumas cometem atentados suicidas, actos terroristas entre os Palestinianos, nós nunca apoiamos esse tipo de actos, tenho que dizer isto. Mas há pessoas que o fazem para salvar as suas terras, o seu país, as terras palestinianas, para criar o seu país, outros praticam o terrorismo a partir do exterior contra a Turquia. Não há nenhuma discriminação entre Turcos e curdos na Turquia. A identidade étnica não altera nada. euronews: Compreendo, mas não se trata de uma questão de julgamento sobre os valores morais do PKK ou do Hamas, a questão é: a Turquia, que tem uma relação conturbada com o PKK, considera-o um grupo terrorista e Israel, por seu lado, tem uma relação idêntica com o Hamas. Não quero metê-los no mesmo plano mas parece-me um pouco contraditório, afinal são dois movimentos que lutam por uma terra… Abdullah Gul: A Palestina é um estado sob ocupação militar e luta para acabar com isso. Até as Nações Unidas já reconheceram a Palestina é um estado ocupado, por isso… euronews: Não, não desculpe-me, porque… Abdullah Gul: Um momento… devo explicar-me porque é um assunto importante… quando o Hamas leva a cabo acções terroristas, nós condenamos. Mas não esqueça o que Israel fez a Gaza, matou 1.300 a 1.800 pessoas, isso é uma coisa que nunca poderemos aceitar. Por isso, se cria uma ligação entre o PKK e o Hamas, comete um grande erro. euronews: Falemos das relações entre a Turquia e a União Europeia, em que ponto se encontram as negociações? Abdullah Gul: Neste momento o processo de negociações continua mas, de vez em quando, algumas pequenas questões de política interna causam-nos pequenos problemas inúteis, confesso. euronews: Que pequenos problemas? Abdullah Gul: A questão cipriota, por exemplo. Infelizmente a questão cipriota é um assunto importante como sabe. De vez em quando, durante as negociações, esse assunto provoca problemas políticos que dão lugar a questões contrárias aos interesses dos europeus. euronews: Está a falar do Chipre, que aparentemente a Turquia não o reconhece e os cipriotas gostavam de levar os seus navios para portos turcos mas não têm acesso, esse é um problema comercial para um estado de membro da UE não acha? Abdullah Gul: Devo dizer uma coisa. Nós não exigimos visas aos cipriotas gregos. Muitas pessoas não sabem isso. Mas ninguém pode negar que há um problema no Chipre, há dois lados, o Chipre grego e o Chipre turco. Porque é que as Nações Unidas propuseram um acordo de paz? Por que é que a Europa apoiou as Nações Unidas? Porque é que este plano de paz foi submetido a referendo em 2004 nos dois lados? A verdade é que os turcos aceitaram o plano de paz e os cipriotas gregos recusaram. euronews: Não deveria a Turquia mostrar sinais de boa vontade, como retirar uma boa parte das tropas presentes no Chipre, estimados em 40 000 soldados, e reduzir o fluxo de emigração de Anatólia para o Chipre, de forma a facilitar a aceitação, por parte dos cipriotas gregos, do plano de paz das Nações Unidas, apoiado, como acabou de dizer, pela UE? Abdullah Gul: Devo dizer-lhe que não há qualquer emigração de Anatólia para o Chipre. Se o plano tivesse sido aceite, após o referendo de 2004, se os cipriotas gregos não o tivessem rejeitado, os soldados turcos já teriam abandonado o país. O mundo inteiro sabe isso, incluindo a União Europeia. Nós não somos contra uma solução.