Última hora

Última hora

Nouri al-Maliki: "O Iraque já não é uma ameaça para a paz"

Em leitura:

Nouri al-Maliki: "O Iraque já não é uma ameaça para a paz"

Tamanho do texto Aa Aa

Feroz opositor do ex-ditador Saddam Hussein, o actual primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki é um dos principais mentores da nova constituição do país. De volta ao Iraque depois de 23 anos no exílio, este xiita pró-iraniano lidera uma guerra contra o terrorismo. A euronews encontrou-se com al-Maliki em Bagadade para falar da nova estratégia política do país e a reintegração na comunidade internacional.

euronews – Senhor primeiro-ministro, bem-vindo à euronews. Nouri al-Maliki – Obrigado. euronews – O projecto de reconciliação nacional que elaborou é ambicioso, mas dois partidos ficaram de fora, o Baas e a Associação dos Eruditos Muçulmanos no Iraque. Não crê que esta exclusão possa ser considerada uma lacuna jurídica? Nouri al-Maliki – A reconciliação não é um conceito abstracto sem quaisquer limites, pelo contrário, é um conceito que se baseia nos fundamentos constitucionais. A exclusão do partido Baas é um compromisso previsto na constituição. O artigo 7 interdita assim o regresso do partido ao processo político, mesmo que mude de nome. O partido Baas é classificado e descrito no Iraque como um partido racista e chauvinista. A constituição proíbe um partido com estas características. E não podemos, em nenhum caso, contradizer a constituição e reconciliarmo-nos com um partido não autorizado por decreto constitucional. O Baas é uma formação com uma história sanguinária, considerado terrorista que propaga ideias terroristas e que incita às práticas chauvinistas. Quanto à Associação dos Eruditos Muçulmanos do Iraque, este partido legitimou o sectarismo, ao lutar contra outras confissões religiosas. Como podemos reconciliarmo-nos com tal organização que finge ser uma associação de eruditos, mas que incita à erradicação do xiismo e que classifica estes fiéis como ímpios. euronews – A Marjiya, que inclui os guias espirituais xiitas, diz que guarda uma distância em relação às forças políticas. Qual é a sua posição no que respeita a estas instituições religiosas e ao seu impacto na decisão política? Nouri al-Maliki – A Marjiya fornece uma referência religiosa com que toda a gente se identifica. Não devem fazer distinções nem favorecer ninguém, quer sejam indivíduos ou partidos. Isso não quer dizer que não tenham os seus pontos de vista ou que não se possam expressar. Quando o Iraque precisa de ajuda ou soluções, eles estão sempre preparados. Já se pronunciaram em matérias como a administração do Estado, a constituição, a democracia e o sectarismo. A Marjiya já se encontrou com todas as forças politicas. Não se pode dizer que me apoie ou que esteja contra um outro partido. A Marjiya posiciona-se, hoje em dia, em favor do processo político, isso é claro. E conseguiu mobilizar o povo iraquiano para participar no processo eleitoral, encorajando-o a investir activamente no processo político. euronews – Encontrou-se, na semana passada, com o ministro dos negócios estrangeiros iraniano Ali Larijani e o presidente turco Abdullah Gul. Pediram-lhe alguma coisa? Nouri al-Maliki – Estabeleceu-se um entusiasmo para uma busca de relações bilaterais positivas complementares. Isto pode aplicar-se em todos os domínios em que o Iraque e outros países tenham necessidade. O Irão tem interesses, o Iraque e a Turquia também têm interesses. A rede de interesses é o que pode ligar os Estados. A Turquia vive uma situação de segurança especial. O Irão também e precisa de boas relações com a Turquia. E o Iraque precisa também dos esforços iranianos. euronews – Qual é o papel do Iraque na aproximação política e estratégica entre o Irão e os Estados Unidos? Nouri al-Maliki – Tivemos um papel nos diferentes encontros com os americanos durante a administração Bush. Efectuaram-se vários encontros entre os iranianos e os americanos e o Iraque teve também o papel de mediador. As negociações não tiveram efeito, infelizmente, mas prepararam o terreno e quebraram o gelo entre as duas partes. Mas agora o presidente Barack Obama defende o diálogo com o Irão. Não fomos consultados para fazer este papel de mediadores, mas se isso nos for solicitado, faremos o necessário para encontrar uma solução. Este diferendo não é do interesse nem dos dois países nem da região. euronews – O primeiro desafio do seu governo é a retirada programada das tropas americanas, que coloca grandes questões em matérias como a segurança, numa altura em que o aparelho iraquiano ainda não está pronto para fazer frente a este problema. Nouri al-Maliki – O sistema de segurança iraquiano já mostrou competência na sua actuação em diversas batalhas e confrontos que levou a cabo. Os nossos soldados são fortes, activos, bem treinados para fazer face a qualquer desafio. Acredito que não vai haver problemas depois da retirada das tropas estrangeiras destacadas em solo iraquiano. As forças iraquianas tornam-se cada vez mais fortes e competentes. Outros factores que têm um papel crucial para a estabilização da segurança, são a solidariedade e a coesão entre as pessoas e o governo. A retirada não vai colocar qualquer problema para a segurança no Iraque. euronews – Disse que a ONU deve rever no Verão todas as decisões decretadas em relação ao Iraque desde 1990. Quais são as grandes decisões que devem ser revistas, no que toca a questões de segurança? Nouri al-Maliki – Creio que todas as decisões tomadas a respeito do Iraque podem ser anuladas. Algumas decisões foram baseadas no facto de que o Iraque possuía armas químicas e nucleares. Foram feitas inspecções e esse dossier está fechado. O Iraque era certamente um perigo para o seu povo, para os seus vizinhos e para o mundo inteiro. Hoje o Iraque não é um perigo. Todas as decisões tomadas e as sanções internacionais não têm razão de ser hoje em dia. O Iraque já não é uma ameaça para a segurança e a paz internacionais. A ONU decidiu que o Iraque não constitui qualquer perigo para a paz. euronews – O Iraque era um fardo para o antigo presidente George W. Bush. Pensa que isto vai acontecer também na administração Obama? Nouri al-Maliki – Penso que não. O Iraque já não é um fardo nem para os seus vizinhos, nem para os Estados Unidos e nem mesmo para o Conselho de Segurança. O Iraque está em boas mãos, está nas mãos das suas crianças, nas mãos dos iraquianos. O processo político foi bem gerido e todas as etapas foram respeitadas. Até o aparelho de segurança está a funcionar. Os terroristas e as organizações terroristas recuaram e vamos combatê-los até à extinção. O Iraque agora precisa das suas crianças, para atingir as obrigações políticas e constitucionais. O mundo inteiro deve procurar novas formas de lidar com o problema do terrorismo. Combater o terrorismo no Iraque parte da nossa inteira responsabilidade.