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Ettora Scola só filma quando Berlusconi deixar o poder

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Ettora Scola só filma quando Berlusconi deixar o poder

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Ettore Scola, 78 anos é um dos realizadores que melhor retrataram o pós-guerra e o desenvolvimento económico dos anos 60 e 70. Foi premiado duas vezes no festival de Cannes e nomeado duas vezes para o Óscar do melhor filme estrangeiro. Alguns dos filmes dão a conhecer a Itália ao público europeu.

euronews – Muitos dos seus filmes contaram histórias que tinham como pano de fundo acontecimentos históricos importantes, de “Uma Jornada particular” a “Concorrência desleal”. Se, hoje, escrevesse um argumento, que acontecimento contemporâneo adoptava como ponto de partida? Ettore Scola – A Itália, principalmente, nunca foi avara com os autores. Sempre foi fonte de inspiração de histórias, de personagens, porque não é uma sociedade banal, não é neutra, está cheia de defeitos, plena de valores negativos. Acho que, actualmente, faria um filme sobre a crise e também sobre os sismos que não são apenas acontecimentos naturais mas provocados por má gestão pública e má consciência dos construtores, dos empreiteirso. São temas interessantes para fazer um filme. euronews – Recentemente disse: “Enquanto Berlusconi estiver no poder não farei filmes”. E.S. – “Na verdade…” euronews – Mas não seria melhor o contrário, quer dizer, exprimir as próprias ideias quando não se partilha a cultura da classe dirigente? E.S. – Infelizmente, um filme não é como um trabalho de escritor ou pintor, que podem dizer o que pensam, mesmo sem as contribuições financeiras a partir de fora, porque para eles, basta apenas uma tela, uma folha de papel. O cinema também é uma indústria. Entre outras coisas, como a imprensa e a televisão que Berlusconi já controla, mesmo o cinema, depende em muito dele. Então, tenho isso em conta, pois não sou tão presunçoso que possa pensar “Ah, minha voz tem de continuar a gritar, porque é necessária e indispensável”; prefiro que os jovens o façam. Eles fazem, começam a fazê-lo. Observo muitos jovens, principalmente assistentes. Agora é com eles. euronews – Várias vezes se falou de um filme que teria na gaveta…Chama-se “Um dragão em forma de núvem”, se não me engano. Uma ideia que terá agradado a Gerard Dépardieu. Vamos ver esse filme? E. S. – Não, porque esse filme deve ser feito com Gérard Dépardieu. Estávamos de acordo em tudo e o argumento estava feito, era lindo. Estava tudo pronto mas a produção devia ser de Berlusconi, portanto…Acredito que para poder trabalhar – pouco importa que tipo de trabalho – mesmo o carpinteiro deve ter um entendimento de harmonia com o cliente, deve sentir-se parte de uma família que cria qualquer coisa. Fazer algo contra a opinião de alguém não funciona muito bem. euronews – Foi sempre um homem muito envolvido politicamente. Foi ministro da Cultura de um governo sombra, comunista. Acredita na Europa, ou já acreditou? Continua a acreditar? E. S. – Que seria hoje do nosso continente se nâo houvesse Europa ? Mesmo se continua a haver contrastes, penso que sem os elos europeus, sem a moeda única, a Europa já estaria acabada, cada país teria sofrido graves consequências. De facto, a União Europeia está a alargar-se porque os países compreenderam que, de facto, para progredirem, têm de o fazer em conjunto, colectivamente. euronews – O cinema pode influenciar a política?Estou a pensar no filme “le Caïman” de Nanni Moretti e também em “Welcome” que provocou um grande debate em França, recentemente. E. S. – Não acredito que o cinema possa transformar a realidade ou modificar o que se passa. Também não acho que seja fácil modificar a política. Mas, pelo contrário, há algo que o cinema pode e essa é uma grande arma, que é interferir no pensamento das pessoas que vêem o filme. Quer dizer que o filme pode colocar questões ao público que de outra forma o público não colocaria, pode provocar dúvidas que não existiriam de outro modo. E essa função do cinema, na qual me reconheço inteiramente, pode modificar mentalidades. euronews – O que faz mais mal ao cinema nos dias de hoje? A televisão, descarregar filmes ilegalmente na internet ou apenas os maus filmes? E. S. – Os maus filmes nunca serviram o ciinema. Talvez também o desprendimento com que os jovens realizadores retratam os próprios países. Consagram-se mais à autobiografia ou à imitação de outras culturas ou doutras linguagens. Procuram fazer filmes que possam passar na televisão, pois a televisão ajuda a produzir os filmes. Mas é preciso dizer que nos últimos anos, as coisas inverteram-se um pouco. Principalmente no cinema italiano, parece-me que os realizadores reencontraram o gosto e o prazer de retratar a Itália. Em filmes como “Il Divo” ou “Gomorra” e noutros que sairam , vê-se de novo o rosto da Itália no cinema. euronews – Nos últimos Óscares, “Slumdog Millionnaire” ganhou tudo. Pode ser definido como a nova geração do filme. Foi produzido pelos europeus mas é uma história à indiana, uma história de Bollywood. É talvez um caso de globalização do cinema ou da cultura cinematográfica. Acha que há riscos face a este fenómeno? E. S. – Os riscos inerentes à globalização….globalização que pode ter também objectivos nobres e úteis: igualdade, melhor distribuição das riquezas e das responsablidades. Mas também vamos assistir a um nivelamento, à manutenção de certas riquezas de um país relativamente a outro. É difícil dizer que “Slumdog” é um filme indiano. É um filme que conta uma história indiana, com personagens indianas mas com uma cultura europeia, anglosaxónica. Aqui, na minha opinião, funcionou bem. Mas não acho que reflicta uma cultura específica. euronews – Que filme viu recentemente e que aconselha? Um filme que tenha gostado muito. E. S. – Infelizmente é um filme americano. Os filmes de Clint Eastwood sao cada vez melhores. pelo menos os quatro últimos são grandes obras. euronews – Gran Torino E.S. – Gran Torino. Mais do que a actuação, pois Clint é um actor esculpido na madeira, é a autoridade que tem como realizador, as atmosferas que escolhe, os ambientes, a escolha das iluminações psicológicas. Por isso, ele está verdadeiramente à altura, é genial.