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Caçadores de tempestades de poeira

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Caçadores de tempestades de poeira

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Há 40 anos existia aqui um mar. Hoje é um dos locais mais secos do Cazaquistão e da Ásia Central. É por isso que estão aqui investigadores europeus.
 
Christian Opp, Geógrafo da Universidade de Hamburgo: “O Mar de Aral era uma ilha de frescura entre 2 desertos, o Karakum e o Kusulkum. Era um reservatório de água gigantesco com um habitat e um biótopo muito ricos, dotado de uma grande biodiversidade. Hoje, onde estava o mar, temos o deserto de Aralkum. Vemos sinais por todo o lado, o lago transformou-se num novo deserto”.
 
Oleg E. Semdov, Físico do Instituto de Pesquisa da Energia e do Clima do Cazaquistão: “O maior problema depois do nível das águas do mar ter baixado foi o desaparecimento de valiosas espécies de peixes. Isto levou a que os pescadores e a população que viviam ao longo da costa perdessem o emprego. Mas houve um segundo problema. O antigo fundo do mar é hoje uma perigosa plataforma de poeira, sal e resíduos químicos que são espalhados pelo vento. A sua propagação tem degradado a vegetação num raio de 150 km. A desertificação da região já começou de facto”.
 
Este era o Mar de Aral em 1960. A utilização excessiva e ineficaz da água, dos dois principais rios que o abasteciam, para irrigação, fez com que se dividisse em 3 lagos.
 
O mar perdeu 90% do seu volume de água e a sua área reduziu-se em 50 mil quilómetros quadrados. O impacto social tem sido enorme. O desemprego e a pobreza propagam-se ao longo das antigas zonas costeiras.
 
Doenças como a tuberculose e a hepatite têm aqui uma incidência duas vezes maior do que nas regiões envolventes. E depois há o vento.
 
Frequentes tempestades de poeira atravessam o antigo fundo marinho espalhando areia, sal, e produtos químicos das actividades agrícolas: Um cocktail venenoso que os habitantes respiram diariamente.
 
Um cenário desolador, agora sob o escrutínio de um projecto de investigação europeu chamado CALTER
 
Leah Orlovsky, Coordenadora do projecto CALTER: “Em primeiro lugar, queremos entender o que está a acontecer com as tempestades de poeira aqui na Ásia Central e em particular em torno do Mar de Aral, porque os últimos estudos acabaram com o colapso da União Soviética. A poeira não conhece fronteiras políticas, a poeira daqui pode virtualmente chegar à Europa e a outros pontos do globo. Queremos saber como e quanta poeira e sal são espalhados pelo vento, a sua composição e direcção. Em segundo lugar, queremos propor soluções para atenuar as consequências destas tempestades de poeira”.
 
A cerca de 300 km do Mar de Aral, os investigadores visitam uma estação meteorológica para instalarem armadilhas de poeira. As partículas apanhadas durante as tempestades são de seguida pesadas, medidas e analisadas.
 
Os cientistas estimam que as tempestades podem deslocar 400 kg de poeira por mês em locais como este.
   
Christian Opp, Geógrafo da Universidade de Hamburgo: “Determinamos os tamanhos dos grãos de poeira e também a sua composição mineral com a ajuda de técnicas como a radioflourescência. Com estas informações, pudemos estabelecer as regiões de origem. Tínhamos uma hipótese: como estas poeiras provêem em parte do fundo do lago de Aral, as percentagens de sal deviam ser relativamente elevadas. E confirmamos isso: o sal do Mar de Aral chegou até aqui”.
 
O monitoramento das tempestades de poeira prossegue 1300 km a sudoeste. Estamos em Almaty, antiga capital do Cazaquistão. No Centro Nacional de Pesquisa Espacial, as tempestades de poeira são observadas de perto com recurso aos satélites. O fenómeno é um elemento fulcral nas alterações climáticas.
 
Espalhada na atmosfera, supõe-se que a poeira conduz ao arrefecimento da superfície dos oceanos e previne, por exemplo, a formação de furacões. Na Ásia Central, as imagens de satélite mostram que as tempestades de poeira estão a secar ainda mais os ecossistemas semidesérticos.
 
Lev Spivak, Director adjunto do Centro Nacional de Pesquisa e Tecnologia Espacial do Cazaquistão: “Desde 2000, a superfície de emissão de poeiras da região do Aral está a crescer; a intensidade e frequência das tempestades também estão a aumentar. Antes as emissões dirigiam-se maioritariamente para noroeste. Hoje dirigem-se principalmente para Sul; isto significa que todos os anos novas áreas de terra são poluídas pelo sal do fundo do Aral”.
  
Os investigadores também querem compreender a dinâmica interna das tempestades de poeira; os seus volumes, velocidade e densidade, e como se formam e desaparecem. Para isso recriam pequenas tempestades num túnel de vento, equipado com um laser e onde introduzem poeira e areia do deserto.
 
Oleg E. Semdov, Físico do Instituto de Pesquisa da Energia e do Clima do Cazaquistão: “Estas experiências permitiram-nos compreender como e quanta areia é levantada pelo vento a diferentes velocidades. Agora sabemos que as partículas de areia avançam como uma avalanche: as partículas mais pequenas são levantadas e empurram as maiores, que empurram outras ainda maiores e assim por diante. Também sabemos que a concentração máxima de areia é atingida a uma altura de fracções de milímetro. Quanto mais alto o olho da tempestade, menos a densidade de poeira. Equações matemáticas ajudam-nos a calcular a massa total de areia soprada a diferentes alturas e sob diferentes velocidades de vento”.

De regresso ao deserto, os cientistas estudam vários sítios geológicos. Estão convencidos que à volta do Mar de Aral, uma desertificação provocada pelo homem está a fazer aumentar as tempestades de poeira que depois desertificam ainda mais as regiões circundantes. Um ciclo vicioso com poucas soluções de prevenção.
 
Leah Orlovsky, Coordenadora do projecto CALTER: “Agora, conhecemos a verdadeira quantidade de poeira que cai, medida em toneladas por ano, por hectare. Conhecemos a composição química desta poeira e também sabemos de onde vem. Temos muitos dados novos para propor algumas soluções preventivas. Pensamos que a melhor maneira de evitar mais degradação à volta do Mar de Aral é cultivar plantas indígenas,  não em todo o antigo fundo do mar, mas em pequenas ilhas verdes. Estas plantas iriam consolidar a superfície e assim existiria muito menos poeira a ser levantada”.
  
Os cientistas também esperam que o seu trabalho ajude a estabelecer um primeiro sistema de alerta para os estudos dos perigos ecológicos na Ásia Central.  

http://www.epif.bgu.ac.il/CALTER